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Daniela Alvarenga Por Daniela Alvarenga, médica e dermatologista

Dez perguntas para Angélica: Sem filtro, simples assim!

A coragem e a motivação da apresentadora ao abordar a questão da aceitação e da beleza sem filtro na TV aberta no programa Simples Assim

Por Daniela Alvarenga Atualizado em 26 nov 2020, 20h02 - Publicado em 26 nov 2020, 09h18

O público acompanha a vida de Angélica como se fosse uma novela: criança, adolescente, primeiro namorado, casamento, filhos, ano sabático. Uma das mulheres mais bonitas do Brasil, ela começou a carreira ainda pequenininha exatamente por sua beleza. Apesar de podermos dizer que ela sempre correspondeu ao padrão de beleza – loira, linda, olhos claros, cabelo cheio, pele de porcelana –, isso não a isentou de se sentir pressionada a se adequar a um padrão durante muito tempo. Mas a maturidade, como ela mesma conta na entrevista abaixo, lhe trouxe um olhar de confiança. Aos 46 anos, ela está ainda mais bonita do que aos 20 ou aos 30. E ganhou segurança para abordar questões antes consideradas tabu na TV.

Recentemente em seu novo programa “Simples assim”, ela abordou a aceitação, convocando outras mulheres poderosas, como Grazi Massafera, Juliana Paes e Preta Gil, para se juntarem a ela na campanha #semfiltro em que elas tiraram a maquiagem no ar: “Essa sou eu, real, sem filtro”. Elas mostraram comentários feitos por seguidores, alguns elogiosos e outros destruidores e preconceituosos, e apresentaram dados que reforçam  quanto a vaidade influencia o olhar das mulheres brasileiras sobre si mesma. 

Ser mãe de uma menina fez Angélica olhar com ainda mais atenção sobre este novo padrão irreal de beleza que vem sendo construído nas redes sociais com meninas e mulheres de todas as idades que só conseguem postar alguma imagem se estiverem produzidas ou com filtro. Como ela informou no programa, 7 em cada 10 pessoas com celular já editaram suas foto antes de postar. Abordar isso na televisão aberta é, sim, revolucionário. E devemos continuar a falar sobre o tema mais e mais. Aceitação não tem a ver com fim da vaidade e com o fim dos cuidados. Não significa que não se queira melhorar algo que eventualmente nos incomode, muito pelo contrário: significa que devemos nos amar como somos, sem ficarmos nos comparando a outras mulheres.

Mesmo sendo linda desde bebê e mesmo tendo a beleza dita padrão, você sofreu muito por estar na TV desde cedo? Você se arrepende por ter se cobrado demasiadamente ou feito coisas em nome do padrão de beleza? Angélica: Eu acredito que sim, quando a gente é mais jovem a gente acaba realmente pirando e fazendo coisas que não são necessárias. Tudo isso faz parte também de se conhecer, se autoafirmar e buscar seus caminhos. Claro que eu busquei meus caminhos também e, claro, que sofri uma pressão com a imagem desde cedo. Desde os 12 anos de idade sofri sim essa coisa de estar sempre mais magra por causa dos figurinos do programa, da pele estar sempre sem espinhas mesmo na puberdade. O que eu aprendi com tudo isso foi me conhecer melhor. Eu conheço muito meu corpo, eu sinto as coisas, sinto quando vou ficar doente, sinto as mudanças na pele e sei o por quê. Digo que tudo valeu a pena, menos os shakes e as semanas tomando sopa, porque isso não é saudável. De resto, tudo foi aprendizado.

O seu programa “Simples Assim” partiu de uma necessidade de falar sobre coisas mais profundas e abrir novos debates? Angélica: Eu quis sair desse lugar mais confortável de uma apresentadora de sucesso. Identifiquei meus privilégios e achei que precisava enxergar mais o outro e tentar devolver o que eu recebi das pessoas e tentar fazer com que as pessoas enxerguem o outro com mais empatia e tentar passar alguns valores que eu queria. Durante esse tempo mais resguardada, fora da TV, eu aprendi muita coisa que quis dividir. Estamos vivendo um momento novo também e acho que é hora de menos julgamento, mais amor, mais empatia.

O que te motivou a ter coragem de abordar um tema na TV aberta sobre o qual a própria TV contribuiu muito, que é a criação e imposição de um dito padrão de beleza? Angélica: O propósito do programa é esse mesmo, refletir sobre temas urgentes e sobre os quais, de certa forma, na loucura do dia a dia, não paramos para refletir. E este é um dos temas: a ditadura da beleza e a vaidade. Com as redes sociais, isso ficou mais forte. Hoje existem meninas que se espelham na imagem da rede social e esquecem de se olhar no espelho e admirar a imagem real. Quero realmente que o programa tenha esse papel, que traga assuntos relevantes. Hoje acho que temos essa obrigação como cidadão, mexer em algumas feridas e dar voz para algumas pessoas.

No seu Instagram, as pessoas puderam perceber nos últimos tempos que você vem mostrando uma mudança de prioridades, valorizando coisas que realmente têm importância como a família, se conectar consigo mesma, se mostrar com alguns fios brancos e sem maquiagem. Você realmente se libertou de certas amarras da imagem? Angélica: Eu tive um tempo fora da televisão onde eu pude parar e olhar pra dentro, numa fase muito importante para a mulher, depois dos 40, quando os filhos já estão maiores. Foi muito bom poder me conectar com a minha essência. Como sempre na minha vida, cada etapa acaba refletindo publicamente, e tem sido assim desde os meus 5 anos. A minha vida e o meu trabalho se misturam muito porque eu comecei muito cedo. As pessoas acompanharam a minha vida, me viram criança, adolescente, meu primeiro namorado, meu casamento, meu primeiro filho e estão vendo minha maturidade também. Eu sou muito grata por este ciclo atual da minha vida e por ter o carinho e respeito e o acompanhamento das pessoas em todos estes momentos. Eu devo isso a eles, essa verdade, esse carinho e esse respeito. O programa também é isso: devolver este carinho e este amor. Se eu consigo com as minhas redes sociais e com o “Simples Assim” atingir uma pessoa, duas, três ou mil com pensamentos positivos, valeu a pena.

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Como foi a reação do seu público quando você começou a deixar a se mostrar também sem produção? Angélica: As pessoas gostam de pessoas de verdade. Hoje na internet tem essa cultura do ódio, em que pessoas vão lá para bagunçar. Mas o que vence é sempre o amor, e eu tenho muito o amor das pessoas, é sempre muito legal a troca.

Um tempo sem estar na telinha contribuiu para você se aceitar a ponto de se libertar da imagem produzida e mostrar que você também é linda sem produção, enxergando que seu público te acha linda de qualquer maneira? Angélica: Sem dúvida alguma. Na verdade, o que faz  a gente se libertar é a segurança, a maturidade. Eu tenho uma história construída em muitos anos, tenho o carinho das pessoas, e hoje tenho a segurança de poder usufruir disso que eu ganhei e construí através do tempo e do que as pessoas me deram. Você pode envelhecer, perder colágeno, mas ganha uma segurança que te deixa até mais bonita mais velha.

O que você falaria para a Angélica de 15 anos? Angélica: Fique tranquila, aproveite tudo, não faça tempestade num copo d’água, tudo é aprendizagem, tudo é maravilhoso. Quando você tiver seus 45, 46 anos, você estará tão feliz com a sua história! Então aproveite cada minuto até lá para que você chegue lá bem, porque vai valer a pena.

Você tem planos de escrever um livro sobre essas e outras questões? Angélica: Vai acontecer um dia sim, tem muita historia para contar. Mas ainda não parei pra pensar nisso, não.

Angel, você  é uma mulher vencedora, inspiradora, sagitariana, guerreira, linda, divertida, inteligente, com uma família estruturada. O que mais imagina para o seu futuro? Angélica: Obrigada pelos elogios, Dani, você também é uma sagitariana maravilhosa e guerreira e tudo isso que você falou para mim. Eu quero continuar minha vida com tranquilidade cada vez mais, ensinando para os meus filhos os valores simples da vida, mostrar o que importa de verdade, tentar passar isso para as pessoas que eu amo e  para o público da melhor forma possível. E trabalhar. Vejo hoje tantas possibilidades, estamos vivendo um momento diferente, de mudanças na humanidade e acho que é esse o caminho. Estamos vendo tantos movimentos legais acontecendo, o feminismo, os movimentos antirascista e contra a homofobia, tantas coisas importantíssimas para que a gente seja mais humano. Fazer parte destes movimentos é muito bacana nesse momento da minha carreira, e fico muito feliz de fazer parte disso.

Na última pergunta eu deixo meus convidados livres para falarem algo que acham relevante e que não abordamos. O que você quer dizer? Angélica: Já que começamos falando da estética e da ditadura da beleza, queria alertar o quanto essa questão com as mídias sociais é uma preocupação para mim, que sou mãe de uma menina. Isso me preocupa porque eu como mãe de uma garota que vive na internet e que gosta desse universo fico muito impactada com o peso que isso tem na vida dessas meninas. Fico pensando que nosso papel hoje é estar muito alerta, instruir e ficar de olho porque se a gente também não sabe como lidar com isso, imagina eles? Então vamos junto com eles aprender! Não vamos deixar de olhar e de estar com eles nessa vida da internet, que é uma vida diferente, sempre acompanhando e valorizando nossos filhos, mostrando o quanto eles são bonitos naturalmente, o quanto não precisam ser igual a nada ou ninguém, o quanto são perfeitos. Nosso papel como pais e mães de crianças e adolescentes que estão totalmente envolvidos com as redes sociais é mostrar a beleza que eles têm dentro e fora deles e aprender junto.

 

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