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Daniel Sampaio Por Daniel Sampaio, advogado e memorialista Memórias do Rio Antigo

Teresa Cristina ao vivo: entre a tradição e a emoção

Em seu show no VIVO RIO, em 10 de setembro, a "Rainha das Lives" rodou pela história do samba e trouxe composições próprias, emocionando o público

Por Daniel Sampaio Atualizado em 27 set 2021, 12h33 - Publicado em 24 set 2021, 18h15

Tem duas semanas que não penso em outra coisa. Sabe quando uma lembrança teima em não sair da cabeça? Só que estou falando de uma recordação das boas: assistir ao show da cantora Teresa Cristina no palco do VIVO RIO me marcou profundamente. Estão ainda muito vívidos na minha memória as imagens, sons, sensações e — sobretudo — emoções que vivi naquela noite de sexta-feira, 10 de setembro. Decidi, portanto, colocar para fora escrevendo aqui na minha coluna uma ode a essa artista, mulher e pessoa inigualável.

Eu poderia dizer que “Tetê” é a Rainha das Lives (e só dá ela, não é mesmo?), que ela foi eleita “Carioca do Ano” pela Veja Rio em 2020, e mais um monte de outras coisas. Mas aqui entre nós? O que interessa é que Teresa é carioca de Bonsucesso, foi criada na Vila da Penha e é uma sambista de primeira, que resgata o afeto da nossa identidade. Sua alma carioca está traduzida no seu ofício, está nítida no seu canto, na meticulosa escolha de seu repertório.

“As músicas passeiam em um universo em que sempre estive com conhecimento e adoração. O do samba.  E tinham composições minhas como “Candeeiro” e “Cantar” e os clássicos que já fazem parte da minha vida. Sempre Noel Rosa, Cartola, meu querido Paulinho da Viola… Evoco Clara Nunes, recorro ao meu amigo Zeca Pagodinho e me encho de amor com Chico Buarque. Foi isso e muito mais aquela noite. Me chama a atenção a beleza que é a direção musical do Paulão Sete Cordas. Sou fã.” — conta Teresa Cristina à coluna.

O set list de duas semanas atrás foi baseado no repertório do show de aniversário que Teresa Cristina fez, no mesmo local, em fevereiro deste ano. Infelizmente, a presença do público, que ia acontecer naquele evento, foi adiada, devido à pandemia. Mas dessa vez, com todos os protocolos biossanitários respeitados (de verdade), havia chegado a hora de Teresa encontrar seu público, um ano e meio após tudo mudar. E foi lindo!

“Foi uma festa rever o público. Teve emoção, carinho.” — disse Teresa a este colunista.

Para mim, tudo começou com um misto de emoções, desde a véspera até o momento de estar finalmente sentado à mesa na plateia. Transitei entre animação, ansiedade, expectativa e, por que não, estranheza — de estar num show novamente, num evento de música — depois de tanto tempo.

Mas assim que o concerto teve início, ‘carinho’ foi indiscutivelmente o sentimento que deu o tom daqueles primeiros minutos. Uma plateia apaixonada aplaudia muito e cantava com muita alegria “Gorjear da Passarada”, o samba da lenda Beth Carvalho que Teresa escolheu para começar os trabalhos. E não tinha como resultar de outra forma: Teresa chorou. Foi um choro bonito, sincero, emocionado, talvez incrédulo diante de tanto amor e carinho. Teresa sabe o quanto cresceu, desde que as “lives” estouraram e fizeram sua audiência multiplicar. Mas estar cara a cara com essa galera apaixonada (eu inclusive) deve ser uma ficha que só cai ao vivo e a cores.

Em “Candeeiro”, Teresa mostra também seu dom de compositora. Um samba lindo de sua autoria que fala sobre trazer de volta a luz em meio à escuridão. Fala de esperança, de aceitação. Essa que é a questão. Teresa acerta justamente nisso. Seu repertório traz muita coisa que a gente precisa ouvir.

Pouco depois, muitas canções que falam de fé, espiritualidade. Aliás, não tem como não entender essa mensagem de espiritualidade vendo e ouvindo Teresa Cristina, belíssima com seu vestido vermelho, cantando diante de flores brancas, descalça no palco. Em “Capitão do Mato”, também de sua autoria, ela cantava “minha bandeira é a fé, coragem é meu bastão, eu sou filha de Maria e de São Sebastião”. De arrepiar.

Mais importante ainda, talvez, foi quando, depois da música, a cantora explicou a confusão que se faz atualmente com o termo “capitão do mato” e afirmou que não devemos usar esse nome, tão especial para a religiosidade do nosso povo, para nomear quem é contra o povo.

A emoção de Teresa Cristina em seu show de aniversário, no VIVO RIO, em fevereiro deste ano
A emoção de Teresa Cristina em seu show de aniversário, no VIVO RIO, em fevereiro deste ano – Ricardo Nunes/Divulgação

A gente aprende com a “Rainha das Lives” mas ela também aprendeu muito nesse período tão difícil:

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“A lição que aprendi nos encontros virtuais é que a gente nunca está sozinha quando falamos para os nossos. Pelo menos, procurei reunir pessoas que pensassem parecido comigo musicalmente e me surpreendi.” — explica Teresa.

Mas a surpresa maior foi nossa: Sílvia Borba subiu ao palco. Para quem não sabe, trata-se de uma cantora paranaense que todos descobrimos e por quem nos encantamos nas lives da Teresa Cristina. Sílvia tem um estilo único, um humor delicioso e, sobretudo, uma voz. Que voz! Ao ouvir a participação de Sílvia no palco do VIVO RIO, quando cantou “Tudo se transformou” em dueto com Teresa Cristina, senti estar no show de uma das cantoras dos áureos tempos do rádio. Um vibrato impressionante e lindo.

Quando Teresa cantou clássicos de Cartola, eu já estava em transe. Ouvir “Alvorada” e “Corra e olhe o céu” na voz da Teresa, tão afinada, emocionada e sincera, tocou a minha alma. Foi aí que chorei. Eu já assistia ao show nesse momento suspirando. Sim, eu estava namorando um show. E não tenho vergonha de admitir.

Na sequência, mais uma aula de tradição do samba. Teresa Cristina cantou Noel Rosa. “Feitio de Oração” e “Com que roupa” foram momentos inesquecíveis. A gente que fala do Rio Antigo dia e noite, quando ouve Noel, ainda mais interpretado com a cuidado e apego à tradição que Teresa tem…a gente fica como? É uma experiência híbrida. Você transita entre a tradição, essa aula de história do samba, e a emoção.

Depois, ao final, o momento dos sambas-enredo. Assim como a Teresa, eu sou portelense, mas o momento que mais me fez arrepiar foi quando, antes de cantar “Heróis da Liberdade”, samba do Império Serrano de 1969, Tetê contou curiosas histórias de bastidores. Segundo a cantora, o autor, Silas de Oliveira teria sido levado pelo DOPS logo após o desfile para averiguações. Sabem por quê? A censura havia mandado trocar a palavra “revolução” por “evolução”, mas vocês acham que a Escola na passarela deu bola para isso? E Silas de Oliveira, destemido, não abaixou a cabeça para os covardes da repressão.

Em suma, foi uma experiência sem igual. Além da musicalidade, emoção, tradição e fé — palavras que simbolizam esse show para mim —, ficou uma sensação muito clara: eu precisava escutar aquelas palavras cantadas pela Teresa Cristina. Parece que cada palavrinha das letras do repertório haviam sido escolhidas para este momento que estamos vivendo. E é isso mesmo que uma artista faz.

Em tempo: o samba é um gênero musical que inspira o contato, a proximidade. A falta de público foi dura para os artistas, e, para os sambistas, nem se fale. Mas Teresa compartilhou com a gente um pouco de sua experiência em relação a isso:

“O samba tem o contato como quase que um ponto principal. Mas o samba, antes do contato, ele é resistência. Então, ele tem força para se manter mesmo durante essa ausência dos palcos das rodas de samba. Ele carrega essa força com ele. O nome dessa força se chama ancestralidade. E isso segura a gente. Segurou a gente até agora e vai segurar até tudo voltar o normal.”

Foi lindo ver esse início da retomada da vida cultural da cidade ao lado de Tetê e de tanta gente apaixonada por ela, pelo samba e pela nossa cultura. Teresa disse ao final do show: “eu sou brasileira, tenho orgulho do meu país e vou defendê-lo sempre”.

Posso dizer, mais uma vez, que saí desse show marcado — não a ferro e fogo, mas a afeto, fé e tradição. Marcado para não ser — nunca — gado.

*Daniel Sampaio é advogado, memorialista e ativista do patrimônio cultural. Fundou o Instagram @RioAntigo e é presidente do Instituto Rio Antigo.

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