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Daniel Sampaio Por Daniel Sampaio, advogado e memorialista Memórias do Rio Antigo

Gripe espanhola: memórias cariocas de uma tragédia anunciada

Em 1918, uma doença misteriosa assolou o Rio, o Brasil e o mundo. A realidade era outra, mas algumas semelhanças com a atual pandemia são evidentes.

Por Daniel Sampaio - Atualizado em 9 Maio 2020, 01h20 - Publicado em 1 Maio 2020, 00h55

Meses antes da rendição alemã, que poria fim às hostilidades da Grande Guerra, desembarca no Rio de Janeiro um combatente invisível que tiraria ainda mais vidas do que qualquer batalha que o Brasil, companheiro de última hora dos países aliados, sequer sonharia enfrentar.

Poucas primaveras foram tão pouco floridas quanto a de 1918. Naquele final de setembro, os habitantes da nossa cidade viveriam o pior pesadelo de suas vidas. A chegada de uma doença misteriosa tiraria, até novembro, mais de 15.000 vidas apenas no antigo Distrito Federal. E milhões mundo afora.

Historiadores acreditam que o vírus da gripe espanhola tenha chegado a terras cariocas a bordo do correio britânico Demerara — ironicamente, o mensageiro da morte para milhares de pessoas na capital da República.

Após escalas em Lisboa, Recife e Salvador, desembarcaram no Rio marinheiros contaminados com o vírus da influenza (A H1N1), distribuído em forma de beijos e abraços por bordéis e gafieiras da cidade.

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A influenza “hespanhola” — que de espanhola não tinha nada — não demorou a se espalhar pelos muitos cortiços que ainda existiam pelo Centro do Rio, lugares onde o povo mais pobre vivia em péssimas condições de higiene. A doença se alastrou para os demais bairros da cidade, pegando a população de surpresa.

Não se tratava, porém, de uma “gripezinha” qualquer. Com um período de incubação curtíssimo e letalidade jamais vista por aqui, as ruas da cidade tornaram-se cenário para um verdadeiro festival de horrores. 

Doentes da “influenza hespanhola” na Praça XV – Revista Careta - outubro de 1918 - APESP/CRB/Reprodução

Os sintomas podiam começar com um mero zumbido nos ouvidos para, em pouco tempo, levar à surdez. De simples calafrios e febres, passava-se, em questão de horas, a dores insuportáveis, vômitos sanguíneos, infecções nos pulmões e meninges — que deixavam suas vítimas sem ar e com os rostos azulados — e, até mesmo, delírios paranoicos.

Pessoas caíam aos montes pelas ruas e praças da cidade. Sem equipes de socorro suficientes, doentes eram colocados em camburões da polícia, levados para hospitais sem insumos — antros burocráticos e ineficientes. O despreparo das autoridades de saúde do governo de Venceslau Brás era tanto que, enquanto morriam 900 pessoas num só dia, declarava-se oficialmente que a gripe era benigna. Sim, benigna.

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Demorou até que a doença fosse levada a sério pelo governo. A Imprensa, cumprindo seu papel, alertava sobre a escalada do mal que acometia a cidade. Na contramão das opiniões científicas, o Diretor Geral de Saúde, Carlos Seidl pedia, oficialmente, a censura dos meios de comunicação. Pura histeria, dizia ele.

Seidl perdeu seu cargo e veio a ser substituído por Carlos Chagas, o herdeiro de Oswaldo Cruz, mas já era tarde. Não havia uma rua em que não houvesse pelo menos uma família afetada mortalmente pela doença. Ou, como se dizia, “hespanholada”.

Panos pretos eram colocados nas janelas e varandas, para que se soubesse que ali havia doentes a serem alimentados e medicados. O desabastecimento foi grave, logo de início, e sequer havia pessoas para trabalhar em padarias e mercearias. Iam todos caindo doentes, um após o outro. Era difícil achar ingredientes para a milagrosa canja que “curava” todos os males. Ovos passaram a custar o mesmo que as próprias galinhas. Uma cesta de pães custava o mesmo que um único pão. E a cidade passou fome.

Indigentes à espera de ajuda na Rua do Catete – Revista Careta - outubro de 1918 - APESP/CRB/Reprodução

Em poucos dias, o Rio havia se tornado uma cidade-fantasma. Aqueles que saíam às ruas eram sobretudo os pobres e miseráveis, que se amontoavam nas calçadas da cidade aguardando assistência. Pacientes em seu desespero.

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Receosas do contágio feroz da influenza, famílias deixavam seus mortos nas calçadas. Não havia quem os recolhesse, pois os coveiros também estavam morrendo. Policiais, militares, transeuntes e, pouco depois, presidiários foram mobilizados para auxiliar nos sepultamentos e na queima de corpos. Não havia velório. Não havia mais caixões. Um pesadelo que não parecia ter pressa de acabar. 

Entretanto, a população rapidamente adquiria imunidade, às custas de 15.000 vidas. E, como disse Oswald de Andrade em suas memórias, “assim como veio, a grippe foi”.

Em novembro de 1918, a cidade voltava à normalidade; aos poucos janelas e portas iam se abrindo e a população voltava, ainda desconfiada, à sua vida rotineira. Em março de 1919, o Rio viveu o carnaval mais louco de todos: o do alívio por estar vivo. Mas isso é história para outra hora.

Em artigo a seguir, contarei uma memória afetiva de família. Minha avó Maria sobreviveu à Gripe Espanhola quando tinha apenas 8 anos. Sua infância para sempre marcada por essa tragédia, um trauma coletivo que atravessou gerações de cariocas.

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*Daniel Sampaio é carioca do Grajaú. Advogado e memorialista. Apaixonado pela história do Rio de Janeiro e pelo resgate das memórias afetivas do nosso povo. Criador do perfil @rioantigo no Instagram, lidera o projeto RioAntigo.org, iniciativa de valorização do patrimônio cultural carioca nas redes.

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