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Daniel Sampaio Por Daniel Sampaio, advogado e memorialista Memórias do Rio Antigo

Belgas mais do que cariocas: os 100 anos da visita de Alberto e Elisabeth

Há cem anos, os reis da Bélgica passaram pelo Rio, deixaram um rastro de cariocas encantados e nos ensinaram a amar ainda mais a nossa própria cidade

Por Daniel Sampaio - Atualizado em 21 set 2020, 12h18 - Publicado em 18 set 2020, 20h35

Há exatos cem anos, em 19 de setembro de 1920, desembarcavam no Rio de Janeiro, a bordo do Encouraçado São Paulo, Suas Majestades o Rei Alberto I da Bélgica e sua esposa, a Rainha Elisabeth. Seriam os primeiros monarcas europeus a desembarcar em nosso país desde que tivemos aqui os próprios Bragança.

Alberto não era um rei à moda antiga. Era chamado de “Rei-herói” e de “Rei-soldado”. Resistiu bravamente às agressões alemãs no início da Primeira Guerra, lado a lado com suas tropas no campo de batalha. Gravou na história sua célebre frase em resposta ao ultimato do Kaiser em 1914: “A Bélgica é uma nação, não uma estrada”, quando o exército imperial alemão pretendia simplesmente cruzar os domínios belgas, a caminho da França. Alberto foi sobrinho do Rei Leopoldo II, o “dono” do Congo Belga, cujas atrocidades — um genocídio com requintes de crueldade — já haviam sido reveladas mais de dez anos antes, num dos maiores escândalos humanitários da virada do século. Mas Alberto trilhou outros caminhos.

Elisabeth era a virtude em pessoa. Nascida no Ducado da Baviera, região do Império Alemão, era neta de D. Miguel de Bragança, o irmão do Imperador D. Pedro I. Casou-se com o rei belga aos 14 anos, e nove anos depois ascenderam ao trono. Elisabeth era conhecida por seus modos simples e por sua índole bondosa. Trabalhou como enfermeira durante a Primeira Guerra Mundial, foi grande incentivadora das artes e da educação.

Os cariocas apaixonaram-se pelos dois. A recepção do casal real belga, no antigo “Caes Mauá”, foi descrita pelos jornais como um “delirio apotheotico”, com as ruas do Centro cheias de cariocas encantados com aquela demonstração de tradição, pompa e circunstância, um suspiro da boa e velha Belle Époque já em plenos anos 20.

A Imprensa local derretia-se em verso e prosa por Alberto e Elizabeth. Já na edição do dia seguinte à chegada de “Suas Magestades”, o Correio da Manhã escreveu:

“Quem chega da vizinhança dos paizes vulcanizados da Europa, onde o tropel das idéas anarchicas da convulsão social se multiplica e accelera, é que pode julgar o ambiente de alegria calma, o equilibrio de atmosphera, a felicidade cheia da posse de si mesma, existentes aqui”.

O casal de soberanos, apesar de legítimos representantes da aristocracia do Velho Continente, era bem característico de seu tempo. Alberto era visivelmente apaixonado por sua esposa, uma mulher de hábitos modernos, que falava francamente e distribuía sorrisos. Eram inseparáveis, simpáticos e nada esnobes.

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Fizeram turismo no Rio de Janeiro como poucos haviam feito até então. Visitaram o Corcovado, o Pão de Açúcar, o Jardim Botânico, o Museu Nacional, a Floresta da Tijuca e o Derby (antiga pista de corrida de cavalos que ficava onde hoje está o Maracanã). Quando foram ao Pico da Tijuca, Alberto ignorou a escadaria de pedra que o Presidente Epitácio Pessoa mandara esculpir — subiu como bom alpinista que era, de picareta e cordas. Todo dia, bem cedo de manhã, de maneira praticamente oficial, saíam do Palácio Guanabara, onde estavam hospedados, e iam nadar nas águas de Copacabana, numa época em que praticamente só se fazia isso por razões medicinais.

Alberto I, o Rei da Bélgica, em trajes de banho na praia de Copacabana (setembro de 1920) – Guilherme Santos - Instituto Moreira Salles/Reprodução

Foram talvez aqueles que primeiro contribuíram para uma cultura de praia no Rio de Janeiro. Segundo Ruy Castro, em seu livro “Metrópole à beira-mar”, as idas matinais do casal real a Copacabana “podem ter dado o impulso final para a conscientização pelo Rio de que a praia não servia apenas para fins medicinais ou piqueniques na areia, mas para se cair na água, chapinhar, boiar e até se atirar nas ondas”.

Foram exemplos de simpatia e simplicidade, fazendo amigos, inclusive entre pessoas comuns, por onde passavam. Distribuíam condecorações, doações e sorrisos entre as pessoas que os serviam. Algumas dessas condecorações estão até hoje nas gavetas de famílias cariocas.

Em meados de outubro, após a chegada do herdeiro e sucessor real, o Príncipe Leopoldo, e depois de passarem por São Paulo e Minas — onde deixaram a semente para a criação da companhia de mineração Belgo-Mineira —, Alberto e Elisabeth partiram de volta para a Europa.

Para muitos cariocas, a Avenida que liga Copacabana a Ipanema tem seu nome devido à Rainha Elizabeth II, da Inglaterra, mas se trata, de fato, de uma homenagem à rainha-consorte da Bélgica. Ali na esquina dessa avenida com a Rua Conselheiro Laffaiete, notado por poucos, está um busto do rei belga.

Antes de ir embora, Alberto e Elisabeth ganharam oficialmente o título de “cidadãos cariocas” pela Câmara dos Vereadores. Um título mais do que merecido para duas figuras que vieram representar o que há de mais antigo, mas compartilharam conosco alguns dos traços essenciais do nosso estilo de vida carioca atual: simplicidade, simpatia, disposição e muita, muita praia.

*Daniel Sampaio é carioca do Grajaú. Advogado, memorialista e ativista do patrimônio. Criador do perfil @RioAntigo no Instagram.

O Rei Alberto e a Rainha Elisabeth a bordo do Encouraçado São Paulo – Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha/Reprodução
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