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Carla Knoplech Por Carla Knoplech, jornalista e especialista em conteúdo digital

É proibido errar na internet (?)

Como a cultura do cancelamento contribuiu para que um episódio do podcast Mamilos fosse retirado do ar

Por Carla Knoplech - Atualizado em 17 fev 2020, 10h53 - Publicado em 17 fev 2020, 09h58

Eu escolhi um exemplo específico para ilustrar essa coluna, mas poderiam ser centenas de outros, basta esperar pela próxima pessoa/empresa/marca/projeto/personalidade a ser “cancelado”, coisa que acontece dia sim, outro também em 2020 no cenário digital. Mas vamos aos fatos. No mundo dos podcasts brasileiros a dupla de publicitárias Juliana Wallauer e Cris Bartis comanda há cinco anos o Mamilos, que como elas mesmas apresentam, tem o intuito de fazer jornalismo de peito aberto discutindo semanalmente temas polêmicos com convidados especialistas no assunto. As pautas variam de Desmatamento na Amazônia a Sexo e engajam uma comunidade de fãs que ouve os episódios repercutindo-os nas redes sociais após a sua publicação. Até hoje a maioria esmagadora desses comentários eram elogiosos e discutiam os pontos levantados pelo programa problematizando-os de forma construtiva. Pois bem.

No episódio de número 238, publicado no último dia 7 de fevereiro, o Mamilos recebeu em sua mesa dois youtubers especialistas em educação financeira: o Thiago Nigro, fundador do canal O Primo Rico com 3,2 milhões de inscritos, e a Nathália Rodrigues, fundadora do canal Nath Finanças com 80,6 mil inscritos. A proporção de seguidores de cada um se mantém no Instagram e no Twitter o jogo vira (Thiago tem 76 mil e Nath 250 mil seguidores). Ele tem narrativa de conteúdo voltada para quem quer aprender a investir e ela fala sobre educação financeira para o público de baixa renda. Eles têm, portanto, óticas e perfis completamente diferentes.

Desde o primeiro dia em que o episódio foi ao ar, o podcast começou a receber uma enxurrada de comentários negativos e críticas nas redes sociais. Uma piada infeliz que apresentou-os como “primo rico e prima pobre” no início do programa já anunciava o que viria. Juliana e Cris foram muito criticadas por exporem demais a opinião pessoal delas na mesa (e mal deixar os convidados falarem) e; quando eles falaram, deixaram o Thiago totalmente em evidência gerando uma sensação de “apagamento” da Nath no programa. Foi uma hecatombe de milhares e milhares de pessoas que ocupou o submundo da internet na última semana. Há variáveis envolvidas neste imbróglio: a falta de mediação por parte das entrevistadas, o excesso de protagonismo do Thiago e a inexperiência em entrevistas ao vivo da Nath. O combo fez o Twitter explodir em defesa da Nath, crucificando ferozmente a dupla o que levou a retirada do programa do ar. E foi aí que decidi que este seria o tema da coluna desta semana.

É muito grave retirar um programa do ar porque este foi apedrejado. A cultura do cancelamento citada no início do texto faz referência a uma prática atual de linchamento virtual e julgamento por um erro cometido publicamente que simplesmente exclui qualquer chance de diálogo com quem errou e decreta o fim daquela pessoa/empresa/marca/projeto/personalidade. Ju e Cris erraram neste programa? Sim. Mas elas acertaram centenas de outras vezes e crucificá-las por um erro é, no mínimo, cruel. Isso sem contar o nível raso de discussão que inflou as redes sociais por pessoas que nunca sequer haviam ouvido um episódio do Mamilos (e, portanto, desconheciam o posicionamento das duas) ou que chegaram a fazer ofensas pessoais às famílias da dupla, usando fotos e dizeres maldosos.

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As pedras são tantas quando se erra na internet que os cancelados comentem atos extremos para que a onda pare. Tirar o episódio do ar excluiu a chance do diálogo, a possibilidade de entender o erro e evoluir para o próximo ponto de discussão. A própria Nath tuitou chocada com os fatos: “Eu saio da internet e quando volto vejo o que? Ataques à filha da Cris Bartis e ameaças ao Thiago Nigro. Mano, que absurdo cara! Conversei com a Cris, estamos bem e esse ódio todo com ela e a filha dela só mostram como a gente errou como sociedade”, concluiu. O episódio mais recente do podcast trouxe uma fala amuada das duas em que elas refletem sobre o caso e pedem desculpas pelo todo. O acontecido nos leva a reflexão sobre o comportamento extremo da internet em casos negativos. Vociferar contra quem errou nos torna melhores que eles? Será que as pessoas teriam coragem de falar ao vivo as mesmas barbáries que escrevem nas redes sociais protegidas por uma tela de computador? Como caminhar para o diálogo e não para o ódio? São questões que ficaram na minha cabeça esta semana por conta deste episódio. O slogan do Mamilos fala sobre construir pontes e não provar pontos. Que possamos atravessar essas pontes, indo e voltando sempre, e não simplesmente derrubá-las quando algo der errado.

Carla Knoplech é jornalista, fundadora da agência Forrest, de conteúdo e influência digital, consultora e professora

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