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Praça Hans Klussmann: o recanto dos bichinhos

Colada à floresta, a Praça Hans Klussmann enobrece o espaço público com a recriação de fábulas e o estímulo à imaginação de crianças e adultos   Vários nichos num só. Praça na Tijuca contempla esculturas de animais e de figuras lendárias da cultura brasileira. por Pedro Paulo Bastos A imaginação das crianças, sem dúvidas, é um mundo rico […]

Por Pedro Paulo Bastos Atualizado em 25 fev 2017, 19h00 - Publicado em 10 ago 2013, 21h49

Colada à floresta, a Praça Hans Klussmann enobrece o espaço público com a recriação de fábulas e o estímulo à imaginação de crianças e adultos  


Vários nichos num só. Praça na Tijuca contempla esculturas de animais e de figuras lendárias da cultura brasileira.

por Pedro Paulo Bastos

A imaginação das crianças, sem dúvidas, é um mundo rico e infinito de situações, diálogos e invenções. Foi com esse propósito que o professor Paulo de Tarso recriou na sua vizinha Praça Hans Klussmann, na Tijuca, um verdadeiro recanto de fantasias. Mais do que um professor, Paulo de Tarso era um artista: criou esculturas de argamassa e ferro evocando figuras tanto do folclore brasileiro, assim como do reino animal. Todas elas foram obras suas, custeadas por ele próprio, em meados dos anos 1970. A praça, colada a um pequeno riacho originário da Floresta da Tijuca, e que desemboca no Rio Trapicheiros, é um dos melhores exemplos na cidade de que como urbe e natureza se conectam e, por conseguinte, convivem. O resultado foi a criação de uma grande floresta de mentirinha, que além de atiçar a imaginação da meninada, deixa adultos, como eu, um tanto quanto faceiros graças à energia da Mãe Natureza e ao poder que as fábulas ainda exercem sobre a criança que existe em cada um de nós.

Apesar dos mosquitos e de outros insetos pegajosos que rodeiam a praça (um bom repelente já resolve essa questão), o lugar oferece o cenário ideal para meditações, relaxamentos e qualquer outro tipo de descanso mental. A quebra d’água do riacho mantém a correnteza sempre constante, e, portanto, a sinfonia derivada dali nunca cessa. Além disso, há um atalho que percorre o riacho até um determinado ponto onde se pode observar as intervenções artísticas realizadas dentro do próprio canal aquífero: de um lado, uma raposa, do outro, um jacaré. Foi neste momento que tive a percepção de não estar vendo tudo o que, de fato, existe na Praça Hans Klussmann. Rodopiei os olhos de uma maneira bem infantil, e, embasbacado, localizei um bicho-preguiça figurando em um dos galhos, e uma coruja verde, o símbolo da sabedoria, ajeitada num espaçozinho que poderia ser muito bem o de um ninho de verdade. E vi mais, muito mais.


Riacho em área urbana.
 Proveniente da encosta da floresta, o canal desemboca no Rio Trapicheiros. Na Praça Hans Klussmann, é sinfonia. 


Do alto do tiranossauro rex. Animais em escala praticamente real.

O curioso dessa minha visita é que da última vez em que estive ali, a prefeitura ainda não havia reformado as esculturas. Elas passaram uns bons anos sem nenhum tipo de conservação, o que, de certa forma, transformava a praça num divertido jogo de esconde-esconde . Os animais cobertos por musgos e terra úmida, sem mencionar a pintura descascada, camuflavam-se à natureza dali, fazendo-nos acreditar que aquilo realmente poderia ser de verdade. Após a recuperação das esculturas, a Praça Hans Klunsmann ganhou um colorido todo especial mas que, parelalemente, ainda engana o campo visual do espertinho que pensara já ter sacado tudo que existe de quimérico por lá. Cheguei a essa conclusão quando, distraído, tropecei e percebi que não se tratava de uma pedra, um galho ou qualquer outro obstáculo no meu caminho: eu estava com os joelhos suavemente ralados sobre a cauda de um crocodilo!

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Símbolos de sabedoria. Visconde de Sabugosa, criação de Monteiro Lobato, atento com seu livro, e uma coruja verde.

O grande barato das esculturas da praça é que elas seguem uma escala coerente entre si, de modo a recriar, de verdade, um reino animal. Fico imaginando o que as crianças que estavam ali, ou as que já visitaram o local, pensam da ilusão de ótica que isso lhes deve proporcionar. Ainda mais porque essas esculturas também são “subíveis”, no sentido de que é possível sentar entre as corcovas de um camelo e fantasiar um passeio pelo deserto. Diferentemente do zoológico, onde comumente não há contato do humano com o bicho, na praça essa convivência é liberada e desenfreada, o que pode vir a contribuir para a criança compreender como se dão os espaços e a visão dos animais. O próprio tiranossauro rex é um exemplo, cuja cauda é, na verdade, um escorregador. Não me atrevi a deslizar sobre aquela rampa, apesar de ter ficado por um bom tempo abraçado no pescoção do dino e seu filhote, no topo da escadinha, apreciando toda uma perspectiva que não era a minha. Como é bom, volta e meia, mudar o nosso olhar ante o espaço que estamos inseridos.

Em um mundo cada vez mais conectado às caricaturas dos video games, a Praça Hans Klussmann oferece a oportunidade – gratuita, diga-se de passagem – de retomarmos as nossas raízes culturais e infantis com figuras pra lá de simbólicas. Vá visitá-la e você irá deparar-se com o Bumba-Meu-Boi, o Saci, a sereia, além de um gnomo perdido por aquelas aleias. Emília, a boneca falante de Monteiro Lobato, notabiliza-se bem próximo ao atalho que dá para o riacho. Ao seu lado, destacam-se o que parecem ser dois Viscondes de Sabugosa, ambos concentrados leitores. Um urso polar acolá, uma galinha aqui, um cacique mais adiante rodeado de cipós,  e um elefantinho rosa, que parece o Dumbo, está próximo a um colorido avestruz. A Praça Hans Klusmann proporciona uma grande viagem a diferentes fábulas e nichos ecológicos dentro de um espaço que, felizmente, não está dentro de um shopping center, mas sim sob o teto do céu azul e, à noite, estrelado da nossa natureza. A nossa real natureza.

Em tempo: o As Ruas do Rio percorreu novamente a Rua Sabóia Lima, logradouro que margeia a Praça Hans Klussmann. Volta aqui dentro de alguns dias para conhecer mais sobre este cativante local da Tijuca.

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