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Pelas streets da Barra

A incrível arte de ser pedestre no bairro mais americanizado do Rio “Essa taxa precisa ser paga no HSBC. A agência mais próxima é a do Barra Shopping. São uns dez, quinze minutos de caminhada”. Eu havia esquecido de pagar uma das taxas para o visto no escritório do despachante oficial do consulado canadense. O […]

Por Pedro Paulo Bastos Atualizado em 25 fev 2017, 19h30 - Publicado em 23 dez 2011, 21h58

A incrível arte de ser pedestre no bairro mais americanizado do Rio

“Essa taxa precisa ser paga no HSBC.
A agência mais próxima é a do Barra Shopping.
São uns dez, quinze minutos de caminhada”.

Eu havia esquecido de pagar uma das taxas para o visto no escritório do despachante oficial do consulado canadense. O aviso da simpática funcionária de lá deixou-me levemente atordoado. Não pelo fato de ter de desembolsar mais uma grana, mas sim porque eu sou pedestre e estava na Barra da Tijuca. E não estava no Jardim Oceânico, onde tudo se pode fazer a pé. Era, ali, a conflituosa Avenida das Américas. Fim da primavera, início do verão.

Fazer o quê? Só me restava andar até lá, e rápido, porque depois eu teria de voltar para entregar o comprovante de pagamento. Não ocorreu-me em nenhum momento tomar um ônibus. Do número 3500, minha localização, já conseguia avistar o grande centro comercial, ofuscado por letreiros do Walmart e do futuro Village Mall. Assim, Village Mall, em inglês mesmo, o nome do novo shopping carioca voltado para a classe AAA que está prestes a ser inaugurado.

Desafiei esse bairro automobilizado e fui a pé. Fiz pouco caso do calor e das distâncias geográficas. Falei para mim mesmo “que eu podia”. Se caminho tranquilamente da Praia de Botafogo até o Humaitá, e do Maracanã até a Praça Saens Peña, qual o problema, então, em percorrer, no máximo, three blocks na Barra?

É porque a Barra é barra pesada demais para pedestres, sobretudo na Avenida das Américas. O visual moderno que os motoristas desfrutam das janelas dos seus carros climatizados destoa totalmente da minha perspectiva enquanto andarilho. Sem árvores nas calçadas, de tamanho desproporcional em relação à grandiosidade da highway citada, a sensação é a de estar sozinho no mundo. No verão, tal sentimento é o de ser um camelo no deserto. Veículos de todos os portes ultrapassam você sem cerimônia, sem cumplicidade. Só não vão mais rápido porque o traffic da Barra anda mais slow do que nunca. Mas ainda é possível ter a sorte de encontrar um ou outro mortal perdido por ali, tão ensopado de suor quanto você.

Caminhar na Avenida das Américas pode equivaler também à diminuição da expectativa de vida. Engole-se fumaça e poeira sem querer querendo, como diria o Chavo del Ocho (vulgo Chaves, do seriado mexicano). Sem falar no risco em atravessar uma de suas esquinas. Numa delas, quase alcançando o parking lot do Barra Shopping, não há semáforo. O ângulo da rua, aliás, já foi todo projetado para manter a fluidez da velocidade dos veículos ao dobrarem à esquerda. Arrisque-se e tente a sorte. Do outro lado, pelo menos, há um guardinha com apito orquestrando a nossa locomoção. Sim, a nossa. Não a deles. Laughs.

OK, cheguei ao Barra Shopping. E agora, cadê o HSBC? Pausa para digressão: o Barra Shopping é um dos meus shoppings preferidos aqui no Rio pelo seu tamanho e variability comercial. É possível encontrar por lá desde as lojas mais populares até as mais sofisticadas e um sem fim de salas de cinema. Por ser praticamente uma cidade, deveria ganhar um título de região administrativa independente à da Barra. Até uma espécie de metrô suspenso circulava por lá na década de 90; quem lembra disso? Pois bem, o gigantismo daquele lugar, sua principal qualidade, pode ser também um defeito dos brabos. Como encontrar um HSBC em meio a esse mar de lojas com tempo tão exíguo???

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Ask for information é sempre a melhor opção, em qualquer lugar. Porém, diante da quantidade de corredores, escadas, níveis e conexões do Barra Shopping, as coordenadas podem ser inúteis. O jeito é sair à procura. Glorioso que sou, encontrei: ficava próximo às Lojas Americanas, ao lado de uma das saídas para o estacionamento – anota a referência! Meu encontro com o HSBC só não foi cem por cento perfeito porque eu tinha esquecido de sacar dinheiro, isso depois de já ter pego a senha para atendimento. Banco do Brasil, where are you? Mas isso aí já não foi culpa da dimensionalidade da Barra, e sim minha. Deixa pra lá.

Resolvi meus problemas e voltei ao Edifício Londres, a pé de novo, enfrentando os mesmos perrengues e sacrifícios da primeira viagem. Levando em consideração o fato de estar em plena hora do almoço, por incrível que pareça, eu acabei voltando ao Barra Shopping para comer alguma coisa. Pela Avenida das Américas, no meu lado da calçada, só havia a pizzaria Mamma Jamma, original do Jardim Botânico, e às moscas.

Gosto de grandes emoções. Precisava me bronzear também, afinal, não vou à praia há um bom tempo. E desde que comecei a trabalhar, quase não passeio mais pela Barra. Let’s do it now!

Nesse segundo tempo, eu me embrenhei para os lados do New York City Center. Relembrei todos meus últimos momentos na cidade de mesmo nome, com a estátua da liberdade e a cadeia de restaurantes Applebee’s. Contudo, o momento mais divertido mesmo foi na volta para casa, na pista sentido zona sul da Avenida das Américas. Na esquina da Rua Zoila de Abreu Teixeira, uma placa de trânsito, inusitada, sinalizava: Union Church, à direita.

E ainda dizem que a Barra da Tijuca é um bairro sem identidade.
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Feliz natal, pessoal!

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