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Avenida Pedro II, São Cristóvão

A resenha de uma avenida carioca cheia das referências imperiais, mas que, poucos sabem, acabou de ganhar uma escultura doada pelo polêmico Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã “Praça dos cornos”. A rotatória na confluência da Avenida Pedro II com a Rua São Cristóvão ganhou tal apelido dada a presença dos chifres no monumento doado pelo […]

Por Pedro Paulo Bastos - Atualizado em 25 fev 2017, 18h53 - Publicado em 4 nov 2013, 00h52

A resenha de uma avenida carioca cheia das referências imperiais, mas que, poucos sabem, acabou de ganhar uma escultura doada pelo polêmico Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã


“Praça dos cornos”. A rotatória na confluência da Avenida Pedro II com a Rua São Cristóvão ganhou tal apelido dada a presença dos chifres no monumento doado pelo chefe de Estado do Irã à cidade do Rio.

por Pedro Paulo Bastos

O desenho monumental da Avenida Pedro II não esconde nem um pouco o passado glamouroso do bairro de São Cristóvão, que, na gestão do ex-prefeito César Maia, passou a ser reconhecido oficialmente pela alcunha de Bairro Imperial de São Cristóvão. A avenida em questão possui duas pistas largas separadas por um farto canteiro central, praças em rotatórias nas suas interseções e prédios históricos tão magnificentes que um deles, o Museu Militar, chega a ocupar um quarteirão inteiro. Em resumo, a Avenida Pedro II parece resguardar o modelo urbanístico de uma cidade que prezava a estética e a imponência como elementos-chave para a constituição do seu tecido urbano. E, como se não bastasse, ainda levou o nome do segundo imperador do Brasil!

A via se estende da Avenida Francisco Bicalho até a Quinta da Boa Vista, a antiga morada imperial que continua cativando e atraindo centenas de cariocas todos os finais de semana como espaço de lazer. As proximidades da avenida com o parque, aliás, formam o trecho mais suntuoso do local, sobretudo pela praça circular na confluência com a Avenida Rotary Internacional e a Rua General Herculano Gomes. É ali onde figura o antigo portal da Quinta da Boa Vista, reluzindo como um grande monumento rodeado por um vicejante corredor de árvores. São muitos os detalhes e os símbolos artísticos – e políticos – do portal, que se alternam entre formas retas e sinuosas tanto na parte de ferro como na dos pilastres. É toda uma riqueza de minúcias que em nada lembra as obras públicas contemporâneas. O chão todo coberto por grama espanta o calor e colore a urbe.


Localização. O arquétipo da avenida monumental no coração do bairro de São Cristóvão.


À beira da Quinta. A rotatória na confluência da Avenida Rotary Internacional expõe o resquício do antigo portal da Quinta da Boa Vista.

Adentrando a avenida, encontra-se o Museu Militar Conde de Linhares simbolizando todo o poderio do Exército com os seus antigos armamentos que podem ser facilmente espiados através do gradil. Há quem não se interesse em conhecer o museu, mas que, por outro lado, considere mais divertida a ideia de observar os carros de combate dali de fora mesmo, como foi o meu caso. Enquanto esgueirava o rosto e a câmera entre as grades, percebi que muitos pedestres repetiram o procedimento logo em seguida. Uma moça se aproximou, comentando que “achava que não podíamos fazer isso”, só que me viu fazendo e decidiu fazer também, assim como toda a sua trupe cheia de crianças e algumas outras adolescentes tagarelas. “Eu me amarro no caveirão”, gritou uma delas, animada, antes de posar para a foto com os dedos indicador e médio eretos na forma de um V.

Elas não devem ter percebido que, um pouquinho mais adiante, no canteiro central da avenida, havia um “Obuseiro de Montanha” como adorno urbano. Mesmo com exposição permanente no Museu Conde de Linhares, aquele aprendiz de canhão – sou um leigo, não me critiquem – ilustra de maneira sutil toda a representação que um bairro imperial como São Cristóvão, no senso comum, deveria ter. E perto dali, mesmo que tenha sido construída no período republicano, a Escola Municipal Nilo Peçanha traz, igualmente, ares de “Estado forte” para a Avenida Pedro II. Segundo o site da Prefeitura, a escola passou por uma reforma com restauração em 2008, o que seguramente revalorizou a sua impecável fachada em frente ao museu.


Os prédios históricos. O Museu Militar Conde de Linhares, que ocupa um quarteirão inteiro da avenida, e a escola muncipal Nilo Peçanha.


Canteiro central. Neste primeiro trecho, a arborização segue o padrão das ruas que margeiam a Quinta, além de contar com esse equipamento do exército como monumento, o “Obuseiro da Montanha”.

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A praça em rotatória na confluência com a Rua São Cristóvão também leva o nome de Pedro II e, diferentemente do canteiro central da avenida, não dispõe de nenhum tipo de arborização. Contudo, chama a atenção por ali a estátua localizada no centro da rotatória: uma coluna com base de mármore cujo topo resplandece a figura de algum animal mitológico. A escultura, inaugurada há pouco tempo em São Cristóvão, foi presente do polêmico presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad durante a sua visita à Rio+20, em 2012. Ela é réplica, aliás, de um monumento que existe em Persépolis, no Irã. A intervenção, curiosamente, não foi muito divulgada pela imprensa. Na falta de uma explicação mais consistente sobre o significado da estátua, alguns gaiatos do bairro têm chamado a rotatória de “praça dos cornos” só por causa dos chifres do bicho.

“Contudo, chama a atenção por ali a estátua localizada no centro da rotatória: uma coluna com base de mármore cujo topo resplandece a figura de algum animal mitológico.” 

 

Ao redor da Praça Pedro II, uma variedade de bares pés-sujos e de comércio doméstico confrontam o prédio da Level 3, uma das multinacionais que têm aportado em São Cristóvão. Com a mudança do nome do bairro – em minha opinião, uma medida muito mais marqueteira do que desejosa de homenagens –, uma quantidade considerável de lançamentos imobiliários surgiu às margens da Quinta da Boa Vista, assim como diversos galpões abandonados passaram a ser ocupados como fábricas de grifes badaladas da cidade. Esse é o panorama de São Cristóvão na atualidade, que, se tudo correr de acordo com os planos da Prefeitura, estará, em breve, gentrificado como promete a região vizinha, a Zona Portuária.


Praça Pedro II. O detalhe da escultura doada pelo presidente do Irã e um dos bares situados no entorno da praça.


Imóveis primorosos. À esquerda, o Museu do Primeiro Reinado, interditado para obras de remodelação. Ao lado, algumas das residências na Avenida Pedro II.

Percorri a Avenida Pedro II apenas até o trecho onde está situado o Museu do Primeiro Reinado, que é, também, a antiga casa da Marquesa de Santos. O museu, no entanto, está fechado para obras de restauro e de readequação dos espaços. Uma das razões para que eu não tenha continuado o percurso foi o sol forte batendo nas costas. Domingo, meio-dia, horário de verão… não é mole de aguentar. Nesta parte, o canteiro central da avenida perde um pouco da sua pompa arbórea para funcionar como estacionamento, cujo qual estava sendo comandado por um flanelinha meio esquálido. Quanto mais se vai aproximando da Francisco Bicalho, mais automobilizada se torna a Avenida Pedro II, com exceção de algum ou outro conjunto residencial que alivia o impacto negativo dos interesses rodoviaristas da região. O elevado do Túnel Rebouças, por exemplo, quase alcançando a Linha Vermelha, é uma das “vias aéreas” que cruzam a Avenida Pedro II. Melhor dar meia-volta e ir-me refrescar nas alamedas da Quinta… 

Leia mais:

Rio: estátua doada por Ahmadinejad ganha apelido de ‘praça dos cornos’. Terra, 30/07/2012.

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