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André Heller-Lopes Por André Heller-Lopes, diretor-artístico do Theatro Municipal A volta do Dito Erudito

Ópera à venda

A Royal Opera de Londres decide colocar à venda uma valiosa pintura de David Hockney. O que nossas instituições culturais podem vender além de arte?

Por André Heller-Lopes - Atualizado em 10 out 2020, 10h11 - Publicado em 9 out 2020, 14h20

Flog it!” era o bordão de um programa de sucesso popular na TV britânica, uma gíria cujo significado tem a ver com vender algo de forma agressiva. Teria como tradução literal “açoitem-no!” — curiosa coincidência. De 2002 a 2012, os apresentadores de “Cash in the Attic” percorriam cidades e visitavam casas antigas na tentativa de descobrir antiguidades esquecidas nos sótãos. Depois, especialistas avaliavam os objetos e tudo ia a leilão por uma suposta boa causa. O desfile de esperançosos (incautos) em busca de tesouros perdidos era variado e o sucesso na descoberta de preciosidades antigas e exóticas, raro. E o que isso tem a ver com ópera, balé e música de concerto? Num pré-‘novo normal’ em que os teatros estão sendo açoitados pelo silêncio e vazio que lhes é imposto, muito.

O mundo das artes visuais e da ópera foi surpreendido essa semana com a notícia de que a Royal Opera House de Londres ia perder um de seus tesouros: uma imponente tela pintada por David Hockney nos 1970s cujo valor estimado é algo na casa dos USD 23milhões. Até o final do mês, a tela deve ir à leilão na Christies; Hockney, aliás, detém o recorde mundial de um artista vivo em leilões com seu quadro “Portrait Of An Artist (Pool With Two Figures)”, que alcançou U$ 90 milhões há não muito tempo. A tela retratando Sir David Webster, diretor do Covent Garden entre 1945 e 1970, certamente fará falta no teatro de Londres (trabalhei várias temporadas naquele teatro e confesso que passar pela tela era um dos prazeres do cotidiano); porém faria ainda mais falta a Royal Opera House não poder levar sua vocação adiante. Junto com leiloar a tela, há uma grande campanha de doações em andamento e espera-se para breve a resposta do pedido de empréstimo ao “Treasury’s emergency bailout fund for the arts” para, acima de tudo, evitar pesadas demissões. A decisão de vender a pintura é dolorosa, mas torna-se uma inevitável parte do plano para manter funcionando, num futuro próximo, um dos maiores templos de arte do planeta. Como diz o ditado: “ vão-se os anéis e ficam os dedos.”

A tela, em tons de turquesa e branco, é um dos Hockney mais bonitos daquele período. Mostra o veterano diretor, seu olhar perdido num vaso de tulipas; o clássico ‘gentleman’ de elegancia britânica em certo contraste com a cadeira de design moderno onde está sentado, como que flutuando. Sir David Webster, graças à grande competência que tinha e aos 25 anos que lhe deram para desenvolver uma visão, foi um dos grandes responsáveis pelo que hoje é um dos maiores teatro líricos do planeta. Sua excelente biografia, “The quiet showman”, descreve seu primeiro encontro com a Royal Opera House, em agosto de 1944, quando os assentos haviam sido removidos e o auditório era uma pista de dança (!!) para encontros entre inglesas e soldados aliados em licença, após o desembarque do Dia D. Webster, então gerente de uma grande loja em Liverpool, enxergou muito, mas muito além dos casais abraçados… Ele soube entender o potencial transformador da arte: começava um renascimento glorioso para o teatro londrino erguido no século XIX. Nomeado para o cargo de “General Administrator” (equivalente ao atual Diretor Geral ou Executivo), em seis anos já tinha feito do Covent Garden a casa dos maiores cantores e dançarinos em atividade, investindo solidamente no desenvolvimento de talento local. Muito importante: dividia e delegava poderes sem medo, como ouvi em muitas histórias em primeira mão, quando eu mesmo, muitos anos depois, trabalhava no Covent Garden. Entre 1970 e 2020 passou-se meio século, mas o projeto criado por Sir David Webster parecia sólido e (quase) indestrutível — até que chegou a pandemia.

Com as portas fechadas ao público e artistas, o pano de boca levantando-se apenas para algumas poucas ‘lives’ e sem previsão segura de quando as cortinas serão reabertas com regularidade, a situação do Covent Garden é delicada (não somente a sua como a de vários teatros mundo afora). Em Londres, Nova Iorque ou Paris, assim como em várias capitais do mundo ocidental, é impensável que uma grande cidade fique sem oferta de teatros, música, cultura. A mediocridade é amiga do silêncio e usa-se da falácia de que educação ou cultura — que tem por direito seus orçamentos próprios e sua função na construção da sociedade — tirariam valores da saúde ou segurança. Pelo menos o Covent Garden tem algo tão valioso para leiloar; mas e os teatros que nao têm um Hockney no sótão?

A resposta está em outra pergunta: como é que a Royal Opera tem hoje esse tesouro à mão? Talvez porque Sir David Webster era simplesmente competente: a pessoa certa no lugar certo, capaz de reerguer o teatro, estabelecer sua reputação e com isso atrair patrocinadores. O ‘fazer’ está relacionado ao saber o que fazer – e preparação, formação, contatos e visão de largo prazo. Webster, não era uma indicação de amizade ou política passageira; e não é por coincidência  que o bem sucedido modelo europeu dos teatros procura selecionar seus dirigentes por concursos, e com contratos que perpassam governos. O “quiet showman”, embora discreto em sua vida pessoal, não ficou ‘quieto’ em seu trabalho, nem optou por deixar os soldados e suas namoradas seguirem dançando. Com isso, o que ele fez há mais de meio século dura muito tempo; mesmo do além, sua imagem segue protegendo o grande teatro que ajudou a construir.

André Heller-Lopes,
Diretor de óperas e Professor da Escola de Música da UFRJ.

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