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Ele passou três anos preso injustamente – e conta como é a vida na cadeia

O músico Vando Bernardo ficou encarcerado de 2018 a 2021 em um presídio do Rio sob acusação de latrocínio — um crime que, agora foi provado, ele não cometeu

Por Cleo Guimarães Atualizado em 15 abr 2021, 21h04 - Publicado em 16 abr 2021, 07h00

Dos seus 35 anos de vida, Vando dos Santos Bernardo passou os três últimos encarcerado injustamente sob a acusação de latrocínio no Presídio Evaristo de Moraes, em São Cristóvão. Reconhecido por uma testemunha através de fotos do Facebook, o músico foi preso em 2018 em casa, na frente da família, por um crime que só em março deste ano ficou provado que ele não cometeu. A decisão foi da juíza Simone Ferraz, da 43ª Vara Criminal do Rio, que julgou insuficiente as provas do processo. Vando deu o seguinte depoimento exclusivo a VEJA RIO:

“O maior pesadelo da minha vida começou quando coloquei os pés lá dentro. Um “verdinho”, como são chamados os agentes penitenciários, por causa da cor do uniforme, me levou até uma cela coletiva onde se espremiam mais de 160 presos. Na hora que ouvi o tlec!, aquele som da jaula sendo trancada atrás de mim, desabei e chorei. Estava um calor infernal e eu sentia um cheiro insuportável de suor, que revirou meu estômago. A maioria das pessoas estava sentada no chão, outras nas camas de cimento. Ninguém pareceu se importar com a minha presença –  menos um dos encarcerados, que veio sem camisa na minha direção e disse, olhando no meu olho: “Bem-vindo ao inferno”.

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Tentei muito não me desesperar. Pensava comigo mesmo que tudo ia se resolver rapidamente, que eu ia provar que não era para estar ali. Mas estava enganado. No mesmo dia, outro preso chegou perto de mim com um caderno e leu o estatuto com as 24 regras que eu deveria seguir enquanto permanecesse naquele lugar. Uma delas diz que na cadeia não se rouba: se você achar alguma coisa – cigarro, algum dinheiro -, tem de entregar imediatamente para o “visão de cela”, o cara encarregado de manter a ordem naquele horror.

Uma segunda norma lembra que “10 é 10”, ou seja, é preciso respeitar o horário de dormir, 10 da noite. Também não pode xingar ou brigar com ninguém. Desentendimentos devem ser levados ao “visão”, que decide o que será feito. “Se bater em um, apanha de seis”, me avisaram. Os mais antigos dormem na pedra, a cama de cimento. Os demais têm de se acomodar no chão, lado a lado, “de valete” – um com a cabeça para baixo, o outro com a cabeça para cima. Bunda com bunda, para não haver o risco de algum movimento ser confundido com assédio e evitar confusão. Sempre respeitei todas as regras.

Ficava no meu canto, sem falar muito com ninguém, por isso acho que não sofri nenhuma represália nos dois anos, sete meses e catorze dias em que fiquei preso injustamente. Fui acusado de ter matado um homem na Barra. Naquela exata hora, porém, eu tocava pandeiro num show de pagode em Nova Iguaçu. Existem vídeos que provam que eu estava mesmo lá, mas a testemunha do crime olhou uma foto minha coletada no Facebook, disse que era eu o assassino e a polícia não quis nem saber: dois agentes foram à minha casa para me prender. Me algemaram na frente da minha família. Minha mãe desmaiou.

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O tempo na cadeia não passa. Para não ficar maluco, jogava damas, via TV, fazia umas flexões. Banho de sol, tomei uma única vez. Só pode ir descalço e, quando fui, fiquei com bolhas no pé. Tive medo de pegar micose, doença de pele e nunca mais voltei. Os presos têm muita coceira, sarna, ferida – algumas infecções mais graves, chamadas de “kikitas de cadeia”, fazem com que a pessoa se sinta como se estivesse sendo comida viva. Nas visitas, minha família trazia tudo para mim: sabonete, esponja, hidratante, comida. Isso me salvou porque na prisão, o arroz azedo é de lei e a carne, intragável. Eu praticamente comia só o que os meus parentes mandavam.

O pior momento era de manhã. Pensava em como iria passar mais um dia inteiro naquele lugar tenebroso e no que meus filhos deveriam estar fazendo. Geralmente tomava banho pela manhã. Usa-se um balde ou uns galões para pegar a água, que fica represada num buraco. É desumano. Mas esses galões me trouxeram uma das poucas alegrias que tive na cadeia. Como sou percussionista, ficava batucando neles e, assim, acabei conquistando a amizade de outros presos. “Pode fazer um baile hoje?”, eles me pediam. Eu mandava ver. Tocava Tiaguinho, Exaltasamba, Revelação, e os caras se amarravam.

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No fim do ano passado, fiquei indignado quando assisti na TV ao caso do jogador Marcinho, do Botafogo, que atropelou e matou um casal. Isso foi provado e ele, que é rico e branco, está solto. A notícia mexeu comigo. Fui preso, e permaneci preso por tanto tempo, porque sou preto. Se fosse um loirinho na foto do Facebook ó aquela que uma testemunha olhou e falou: “É ele o criminoso” – não teriam me punido injustamente. É claro que me revolta, decidi inclusive processar o Estado, mas me esforço para não desenvolver sentimentos ruins de vingança ou depressão. Estou em uma nova fase agora. A experiência pela qual passei me fez dar valor a coisas simples, como um bom banho quente, dormir numa cama gostosa, abraçar meus filhos. No dia em que reconquistei minha liberdade, quis ir a uma churrascaria rodízio. Era o sabor da vida aqui fora, da liberdade. Não quero nunca mais perder isso.

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