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Três décadas de VEJA RIO: 30 personalidades que fizeram história na cidade

Uma seleção de cabeças pensantes e atuantes da arquitetura ao Carnaval, passando por ciência, negócios, humor, gastronomia, meio ambiente, cultura

Por Paula Autran Atualizado em 20 set 2021, 19h51 - Publicado em 17 set 2021, 06h00

Dos 456 anos de história do Rio de Janeiro, Veja Rio faz parte das últimas três décadas, que ajudou a contar em 1 417 edições publicadas. Agora, ao completar 30 anos de vida, olhamos não apenas para trás, mas à frente, ao percorrer este período a partir do trabalho árduo de trinta cariocas, de nascimento ou por afinidade. De áreas das mais diversas, em comum todos eles conseguiram transformar o cenário de nossa cidade de forma relevante, deixando marcas indeléveis — e seguindo na incansável luta por um Rio melhor até os dias de hoje.

A seguir, o leitor encontrará cabeças pensantes e atuantes da arquitetura ao Carnaval, passando por ciência, negócios, humor, gastronomia, meio ambiente, cultura… A cidade que essa turma ajuda a fazer crescer e despontar é a que a Vejinha quer continuar mostrando por muitos e muitos anos. Palmas para eles.

ARQUITETURA
Paulo Jacobsen

Paulo Jacobsen -
Paulo Jacobsen – Leo Aversa/Divulgação

O arquiteto Paulo Jacobsen ingressou no panteão da arquitetura carioca ao dar vida a um dos ícones do processo de revitalização da Zona Portuária, o Museu de Arte do Rio, conhecido como MAR. O desafio não era nada simples: ele precisava unir três construções já existentes — o Palacete Dom João VI, o prédio da Polícia Federal e a antiga rodoviária —, de características inteiramente diferentes. A solução foi conectá-las através de uma moderna cobertura de concreto que embute uma metáfora: em formato de ondas, reflete a relação entre o mar e aquela região da cidade. “É uma homenagem à memória da arquitetura moderna carioca”, explica Jacobsen, 67 anos, que trabalhou ao lado do filho Bernardo e de Thiago Bernardes, sempre inspirado pelas inconfundíveis curvas de Oscar Niemeyer.

O projeto do MAR foi eleito pela revista Architecture Now como um dos 100 mais importantes do mundo em 2015 e reconhecido em outras relevantes premiações, como o americano Architizer A+Awards Public Choice. Também foi selecionado para a Bienal de Arquitetura de Buenos Aires. “Seguimos esperançosos de que o sonho de repaginação do Porto se concretize como planejado, e o carioca possa finalmente se apropriar desta parte da cidade”, diz o arquiteto, que calcula ter desenvolvido mais de 1 000 projetos nos 25 anos em que atuou com seu grande parceiro, Claudio Bernardes (1949-2001). “A interação com a natureza é a grande busca nas intervenções urbanas, culturais e residenciais”, afirma. Matéria-pri­ma é o que não falta.

ARTES PLÁSTICAS
Vik Muniz

Vik Muniz
Vik Muniz – Guito Moreto/Agência O Globo

Paulista de nascimento, mas “carioca transplantado”, Vik Muniz fica à vontade tanto nos mais prestigiados museus do mundo, que exibem suas obras, quanto no antigo Lixão de Gramacho, em Duque de Caxias. Foi no local, hoje extinto, que o artista plástico não só procurou matéria-prima para criar, como também lançou luz sobre a questão do lixo, revelada no filme Lixo Extraordinário. Indicado ao Oscar e premiado nos prestigiados festivais de Berlim e Sundance, o documentário, de 2010, mostra Vik em ação e expõe o trabalho feito ali por catadores de itens recicláveis durante dois anos — que inspirou ainda a abertura da novela Passione, da TV Globo, elaborada com recursos reaproveitados. Por essas e outras, ele acabou fazendo da arte um caminho para dar visibilidade a uma camada invisível da população. “Para mim, toda forma de arte deveria ser popular e consumida como um direito, e não um privilégio”, acredita.

No topo da lista dos brasileiros mais buscados em leilões, de acordo com o site Artnet, Vik é um artista que faz questão de ir além de seu ateliê, seja para explorar as infinitas possibilidades de criação, seja para unir arte e engajamento social. Ele foi responsável, por exemplo, por um trecho da cerimônia dos Jogos Paralímpicos de 2016, em que um quebra-cabeça era formado pelas delegações. “Seria impensável para mim viver ilhado em uma bolha de conforto, sem uma conexão holística com a cidade”, reflete o artista de 59 anos, que participa de vários projetos sociais no Rio. Um deles é o Escola Vidigal, iniciativa que tem o objetivo de proporcionar a crianças de baixa renda a chance de entrar, desde cedo, em contato com a arte e a tecnologia. “Transformar é o que me inspira”, resume Vik.

CARNAVAL
Paulo Barros

Paulo Barros
Paulo Barros – Barbara Lopes/Agência O Globo

Após a revolução protagonizada por Joãosinho Trinta (1933-2011) com o desfile de 1989 da Beija-Flor, ninguém mais provocou tanto alvoroço no Carnaval carioca quanto Paulo Barros. O ano era 2004, ele estava à frente da Unidos da Tijuca e decidiu experimentar uma ideia que, aparentemente, parecia um tanto fora do contexto para a época: deixou de lado as plumas e paetês para encher um carro com 127 componentes coreografados no ritmo do samba, do início ao fim do desfile, numa alusão ao sequenciamento genético — o enredo daquele ano tratava dos avanços da ciência. “Cheguei eu, lindamente, e dei essa reviravolta no sentido da estética. Os componentes entraram pintados de azul, ninguém estava ligando para aquele carro, mas o movimento foi mágico”, diverte-se.

O conceito inédito das alegorias vivas, introduzido por Barros em sua estreia no Grupo Especial, não só levou a escola ao vice-campeonato, como também deu um toque mais moderno ao carnaval carioca, um estilo que passou a ser copiado nos anos seguintes por outras agremiações — ele mesmo seguiu apostando no formato e faturou quatro títulos em dez anos. Inspirado pelos musicais da Broadway, Barros também mudou a concepção das comissões de frente, em 2010, quando surpreendeu a todos com um show de ilusionismo. “Atravessei as fronteiras da Sapucaí, e o desfile se projetou para fora daqueles 800 metros. Será que ele ainda estaria vivo só com fantasias tradicionais?”, provoca ele, que prepara o próximo desfile da Paraíso do Tuiuti.

CIDADANIA
Marcelo Freixo

Marcelo Freixo
Marcelo Freixo – Cicero Rodrigues/Divulgação

A história daria um filme. E deu. Em Tropa de Elite 2, de José Padilha, o personagem Diogo Fraga foi inspirado no deputado federal Marcelo Freixo (PSB/RJ). Professor de história e defensor dos direitos humanos, Freixo ganhou protagonismo na vida real quando, em seu primeiro ato após eleito deputado estadual, pediu a abertura da CPI das Milícias na Assembleia Legislativa do Rio — este um assunto até então ofuscado pelo tráfico. A investigação começou em 2008, dois anos depois de seu irmão Renato ter sido executado por milicianos. Levou à prisão um deputado e dois vereadores, além do indiciamento de 226 suspeitos e da proposição de 58 medidas para neutralizar os braços político e econômico das quadrilhas. “Não fiz por vingança, mas porque não quero que outras famílias passem pelo que a minha passou”, diz.

A cartilha de medidas recomendadas pós-CPI pode não ter norteado o combate à bandidagem, mas a força-tarefa conduzida por Freixo é considerada um marco na batalha contra o crime organizado e sua deletéria articulação com o poder público. “A milícia e o tráfico são um enorme problema no Rio, onde juntos dominam mais de metade do território da capital”, enfatiza Freixo, que há mais de dez anos convive com ameaças de morte. “A diferença entre um e outro é que os milicianos têm projeto de poder e sequestram as instituições, o que é extremamente perigoso”, afirma o deputado, responsável também pela CPI do Tráfico de Armas, cujo relatório foi apresentado em 2011 apontando graves falhas de fiscalização no armazenamento dos armamentos apreendidos pelo Estado. Luta que segue.

CIDADE
Eduardo Paes

Eduardo Paes
Eduardo Paes – ./Divulgação

Prefeito do Rio por oito anos, e iniciando em 2021 seu terceiro mandato, Eduardo Paes (PSD), 51, não é uma unanimidade, algo que aliás inexiste na política. Mas é inegável que, sob suas rédeas, o Rio ganhou novas feições. Em 2009, ao assumir o cargo, a cidade foi escolhida para sediar as Olimpíadas de 2016, que aconteceram sob sua administração e modificaram parte do cenário: o Porto Maravilha, por exemplo, ainda que longe da ocupação imaginada, nasceu aí. Aqueles anos foram de prosperidade no país, o que acabou também por beneficiar terras cariocas — a ponto de a revista inglesa Economist estampar na capa o Cristo Redentor disparando como um foguete. “A gente conseguiu realizar muito, como as clínicas da família e o BRT, programas dos quais me orgulho”, diz Paes, que ingressou na vida pública como prefeitinho da Barra e Jacarepaguá aos 23 anos, pelas mãos do então alcaide Cesar Maia.

Conhecido por sua carioquice — é vascaíno, portelense, frequentador de botecos e carrega firme no sotaque —, ele tem como bordão: “O cargo que ocupo me faz o homem mais feliz do mundo”. E não se cansa de desfiar o apreço pela cidade natal: “Ela tem um estilo diferente de qualquer outra, é global, sexy.” Detratores, Paes tem aos montes, mas às vezes até eles dão uma trégua. No segundo turno da eleição municipal de 2020, ele disputava o posto com Marcelo Crivella, o dono da cadeira, quando a própria página do Facebook Fora Eduardo Paes lhe declarou apoio: “Entre Crivella e Dudu Paes, somos Dudu”, sentenciaram seus críticos seguidores. Em 2018, tentou o governo do Estado, perdendo o páreo para o novato Wilson Witzel (hoje afastado) e se colocando na iniciativa privada. Quem o conhece bem sempre soube que o que ele queria mesmo era retornar à política — e as urnas o fizeram prefeito pela terceira vez.

CIÊNCIA
Artur Avila

Artur Avila
Artur Avila – Daryan Dornelles/Divulgação

Ele foi o primeiro brasileiro a gravar seu nome entre os pesos-pesados da matemática ao conquistar a Medalha Fields, prêmio que equivale em prestígio a um Nobel. A honraria, que lhe foi concedida em 2014, quando tinha 35 anos, não apenas alçou o carioca Artur Avila ao panteão dos melhores do planeta, como enfatizou para o mundo a excelência do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, o Impa, baseado no Rio, onde ele se projetou. Ao ser pinçado em meio a outros geniozinhos dos cálculos, Avila também ajudou a despertar o interesse pela disciplina normalmente tão temida por crianças e jovens. Depois da medalha, ele chegou a rodar várias escolas Brasil afora, onde lhe pediam fotos e autógrafos, como costuma acontecer com artistas e atletas. Pois o esporte de Artur é outro. “A escola acaba ensinando descobertas de muitos séculos atrás, quando a matemática é uma área viva, que evolui o tempo todo”, diz o pesquisador, hoje com 42 anos.

Avila já gostava dos números no colégio, mas lhe faltava a percepção de que a matéria poderia se tornar uma opção de carreira, como a economia. “A participação nas olimpíadas da área me levou a conhecer o Impa e a desbravar esse mundo”, recorda Avila, que ainda no ensino médio concluiu o mestrado no Instituto e, aos 21, finalizou o doutorado, enquanto ainda cursava a graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro, para obter o obrigatório diploma. Acabou decidindo se aprofundar em uma especialidade de alta complexidade: sistemas dinâmicos, que, em linguagem leiga e ligeira, busca descobrir padrões em fenômenos, à primeira vista, completamente fortuitos, encontrando ordem no caos. Avila está aí para provar que, ao menos na matemática, nada é aleatório.

CINEMA
Carlos Saldanha

Carlos Saldanha
Carlos Saldanha – ./Divulgação

Faz dez anos que o diretor Carlos Saldanha estampou nas telonas do mundo todo um Rio de Janeiro que enche os cariocas de orgulho. Ele foi o primeiro brasileiro a dirigir um longa-metragem de animação nos Estados Unidos, A Era do Gelo, e em 2011 lançou Rio, indicado ao Oscar de melhor canção original e visto por 6,3 milhões de pessoas apenas em território nacional. “O Rio para mim é um personagem e tem um protagonismo fundamental na minha vida. Sofro com as mazelas, a violência e aquela tristeza de ver um lugar tão maravilhoso sendo maltratado — e a criatividade é a minha forma de extravasar esses sentimentos”, conta Saldanha, 56 anos, que voltou à lista de indicados ao Oscar em 2018, com O Touro Ferdinando.

Desde 1991 vivendo em Nova York, o diretor, um dos nomes mais estelares da animação atual, está sempre envolvido com projetos no Brasil. Recentemente, voltou a enquadrar sua cidade natal, desta vez com os olhos para o público adulto: a série policial Cidade Invisível, produzida para o streaming, explora o folclore brasileiro, com cenas rodadas em vários dos cartões-postais cariocas. “O Rio é um ser vivo que se reinventa. Com isso, não me falta inspiração”, derrama-se ele, deixando escapar que está para finalizar o roteiro de uma nova série que, de novo, tem a cidade e o jeito local como tema central. E lá vai o Rio rodar o mundo outra vez.

CULTURA
João e Walter Moreira Salles

João e Walter Moreira Salles
João e Walter Moreira Salles – Leo Aversa/Agência O Globo

Mais do que herdeiros da fortuna do banqueiro, embaixador e ex-ministro Walther Moreira Salles, seus quatro filhos, em especial o documentarista João e o cineasta Walter, carregam no DNA a cultura — e a convicção de que é preciso incentivá-la. “Em meu pai estava viva a ideia de que todo sucesso individual possui uma dimensão coletiva”, afirma João. “Significa dizer que riquezas privadas trazem o compromisso moral da criação de bens públicos, e que o mecenato, para os que têm condição de exercê-lo, constitui não uma liberalidade, mas um dever.” Nesse sentido, um dos trabalhos mais visíveis dos irmãos é manter o Instituto Moreira Salles, que funciona no Rio desde 1999 na belíssima casa que foi residência da família, na Gávea.

Não é apenas um lindo cartão-postal, mas um valioso depositário iconográfico de 156 dos 456 anos do Rio de Janeiro. Entre os tesouros guardados no IMS, à disposição do público, se encontra boa parte da história e da memória da cidade, e do Brasil: são cerca de 2 milhões de imagens que formam o mais relevante conjunto de fotografias do século XIX no país. Metade do lote retrata o Rio e sua gente. “A cultura é onde se celebra a imaginação e se combate o culto da morte, que, por definição, é o avesso da criação. Nosso papel é e sempre será apoiar toda expressão que se oponha a isso”, reforça João, que também fundou o Instituto Serrapilheira, de fomento à cultura da ciência. Walter, por sua vez, criou o Instituto Ibiraputanga, organização dedicada à defesa de liberdades e ao aprofundamento da democracia no Brasil. Que venham mais.

DIVERSIDADE
Carlos Tufvesson

Carlos Tufvesson
Carlos Tufvesson – Samuel Barcelos/Prefeitura do Rio de Janeiro

O estilista Carlos Tufvesson aprendeu desde cedo que a militância pela causa LGBTQIA+ nunca poderia sair de moda. Bem antes de a sigla ganhar novas vogais e consoantes, já colocava suas modelos na passarela desfilando laços vermelhos, símbolo da solidariedade na luta contra a aids, que era um tabu. Distribuía panfletos em defesa da união estável e do casamento entre pessoas do mesmo sexo até que, em 2011, veio o convite para o ativismo particular virar trabalho público, e ele assumiu a Coordenadoria Especial de Diversidade Sexual da Prefeitura. “Em quatro anos, foram muitas campanhas e vários decretos, como o que garante o direito ao uso do nome social de travestis e transexuais em órgãos municipais”, orgulha-se Tufvesson, que está de volta ao cargo, agora com foco na empregabilidade dessas pessoas ainda marginalizadas.

Nos mais de 25 anos de luta contra o preconceito, até seu casamento, com o arquiteto André Piva, falecido em 2020, entrou para a história — e não foi só pela festa para 700 convidados no MAM, em 2011. Apesar da decisão favorável do Supremo Tribunal Federal para uniões de pessoas do mesmo sexo, um juiz do Rio negou a autorização para que o documento que oficializava o casamento fosse assinado durante a cerimônia. A batalha se desenrolou nos tribunais e, dois anos depois, eles enfim conseguiram o registro, uma vitória na garantia dos direitos de toda a população homossexual. “O Rio com o qual sonho e pelo qual luto é uma cidade de todos, todas e todes. Essa multiplicidade está no nosso DNA e é nosso diferencial”, defende Tufvesson.

DRAMATURGIA
Manoel Carlos

Manoel Carlos
Manoel Carlos – Oscar Cabral/Divulgação

A cena poderia estar em uma das novelas de Manoel Carlos. Ele próprio conta: “Eu atravessava a Avenida Ataulfo de Paiva quando duas senhorinhas muito simpáticas me puxaram pelo braço. Uma delas, atrevida e carinhosa, perguntou: ‘Fale a verdade. Quantos apartamentos o senhor tem no Leblon?’ ’’, diverte-se o autor, conhecido por projetar em suas tramas belos cenários e cantos cariocas, especialmente os do Leblon, onde vive. Nos cafés, livrarias e na praia que serpenteia o bairro se passam histórias que alçaram a cidade a um lugar privilegiado no imaginário de quem muitas vezes jamais pisou nela. “Se eu morasse na Tijuca ou em Copacabana, é certo que meu pano de fundo preferido seria um desses bairros”, afirma o novelista, que, além de cortejar a paisagem natural e urbana que o cerca, sempre deu visibilidade a pautas sociais em seus enredos.

Em setenta anos de televisão, que somam vinte novelas e dez minisséries, entre outros trabalhos, Maneco, na verdade, fez do Rio um personagem. Certa vez, em declaração derramada, disse que “a praia e o espírito carioca dão uma coloração rosa ao contexto mais cinzento”. E assim fez não só a imagem da cidade circular pelo Brasil e o mundo, mas também a cultura e o comportamento muito particular de seus moradores. Por vezes comparado a uma espécie de embaixador local no horário nobre, Maneco apenas diz: “Não me sinto um embaixador, mas um modesto morador do Leblon”.

ECONOMIA
Sérgio Besserman

Sérgio Besserman
Sérgio Besserman – Reginaldo Teixeira/Divulgação

Mais preocupado em empregar seus conhecimentos na solução de grandes questões, como o aquecimento global, e não na frieza dos números, o economista Sérgio Besserman imprimiu sua marca de gestão à frente de órgãos como o IBGE, que comandou entre 1999 e 2003 — período no qual expandiu os estudos ambientais e comandou o Censo 2000. Seguindo a mesma linha de pensamento e ação, presidiu o Instituto de Pesquisas Jardim Botânico e o Instituto Pereira Passos. “Acho que as ciências econômicas têm muito a contribuir na implementação de políticas e no modo de agir das empresas”, diz ele, há quatro décadas dedicado ao serviço público.

Aos 63 anos, bem que poderia já ter se aposentado, mas não consegue. Besserman trabalha atualmente como coordenador estratégico do Climate Reality Project Brasil, o projeto do ex-vice-presidente americano Al Gore, e no Museu do Amanhã, onde assumiu o cargo de curador de clima e sustentabilidade. “É um privilégio atuar e fazer ativismo numa cidade como o Rio, que une natureza e urbanismo, a fim de tentar solucionar o desafio da civilização neste século: o desenvolvimento sustentável”, entusiasma-se Besserman, irmão do humorista Bussunda, falecido em 2006, também sempre pronto para uma pausa cômica. Em um desses momentos, lembra que o mesmo IBGE que comandou realizou uma pesquisa em que o carioca surgiu trabalhando mais horas que o paulista. “São os números que mostram”, cutuca o bem-humorado economista.

EDUCAÇÃO
Claudia Costin

Claudia Costin
Claudia Costin – Fernando Lemos/Divulgação

Professora e gestora pública, Claudia Costin, 65 anos, deixou São Paulo em 2009 para aceitar o que definiu como o maior desafio de sua carreira: assumir a Secretaria Municipal de Educação do Rio e remodelar um dos maiores sistemas públicos educacionais do país. A missão envolvia buscar soluções para mais de uma centena de escolas em áreas conflagradas pela violência e concluir a alfabetização de cerca de 33 000 cariocas que haviam parado os estudos entre o 4º e o 6º ano do ensino fundamental. “Aquilo mexeu comigo. As crianças estavam aprendendo muito aquém do necessário em uma cidade com tanta inteligência concentrada, que tem a Fiocruz, a Coppe”, lembra ela, que traçou o diagnóstico: “Faltava um olhar de gestão para a educação”. Seu trabalho acabou sendo vital para uma saudável reviravolta na sala de aula, guindando o Rio para boas posições no ranking nacional.

Nos anos anteriores, com a implantação do sistema de promoção automática, os alunos não eram avaliados, e o rendimento escolar, medido pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, estava estacionado entre os mais baixos do Brasil. Em quatro anos, o indicador cresceu 22% nas séries finais do nível fundamental e o analfabetismo funcional recuou de 13,6% para 4,1%. “Mostramos que é possível mudar, alinhando todos os elementos que realmente contam. Foi a melhor experiência profissional da minha vida”, reconhece Claudia, que antes foi ministra da Administração e Reforma, no governo Fernando Henrique Cardoso, e hoje é diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais, da Fundação Getulio Vargas, onde segue fazendo diferença no esforço para que o ensino dê um salto — e, com ele, o país.

EMPREENDEDORISMO
Rony Meisler

Rony Meisler
Rony Meisler – Jessica Nicole Oliveira/Divulgação

Reserva é uma das praias mais bonitas do Rio, uma longa faixa de areia branquinha de 8 quilômetros de extensão, localizada entre a Barra e o Recreio. É também o nome que o empresário Rony Meisler, 38 anos, escolheu para batizar sua grife, que no começo, lá em 2004, era vendida apenas aos amigos. A partir daí, a Reserva cresceu e apareceu, primeiro nas passarelas da Semana de Moda da cidade, depois instalada em uma lojinha em Ipanema. A trilha para virar uma rede esparramada pelo Brasil passou por altas doses de inovação, em um amplo sentido: vale para as roupas propriamente ditas, produzidas sobre os pilares da sustentabilidade, e para as ações sociais, que também servem de vitrine para a marca. “A Reserva é conectada com seu tempo, que é o de um capitalismo consciente”, posiciona-se Rony, dono de um diploma de engenheiro.

No projeto 1p=5p, por exemplo, a cada peça vendida na Reserva e na Reserva Mini (o braço de roupas infantis que veio depois), cinco pratos de comida são doados a pessoas em situação de vulnerabilidade. Desde que a iniciativa foi lançada, em 2006, distribuíram mais de 53 milhões de refeições. E a venda de porta em porta do passado cedeu lugar aos atuais 111 pontos próprios em território nacional, além de 1 400 lojas que vendem produtos da marca Reserva — a praia do Rio preferida de Rony, é claro.

ENTRETENIMENTO
Roberto Medina

Roberto Medina
Roberto Medina – Felipe Fittipaldi/Divulgação

À primeira vista, soou como uma ideia estapafúrdia: entusiasmado com a redemocratização do país, o jovem publicitário Roberto Medina teve a ideia de oferecer uma maratona de shows para 1,5 milhão de pessoas numa era em que grandes apresentações no país não reuniam mais do que 30 000. De 1985 até hoje, muita música rolou, e o Rock in Rio se transformou em um dos maiores festivais do planeta, tendo atraído 10 milhões de visitantes em vinte edições realizadas no Brasil, Europa e Estados Unidos. O garoto agitador não só deu nova escala aos espetáculos, como criou uma mola propulsora do entretenimento que se converteu em cartão de visita, ventilando a marca Rio pelo mundo. “A ideia sempre foi dar força à cidade, crescer junto com ela, valorizando seu nome”, diz.

Aos 74 anos, Medina não para: agora vai trabalhar para que o Rock in Rio seja um parque permanente de música e lazer, com o objetivo de sacudir a cena cultural carioca. Enquanto elabora mais essa ideia, já está a toda na organização da próxima edição do festival, adiada pela pandemia. Agendada para setembro de 2022, a programação vem atrelada a uma série de projetos ambientais e sociais, a exemplo do Palco Favela, criado para lançar os holofotes sobre talentos das comunidades — do samba ao funk. “Sem esperança não tem negócio e sem negócio não tem imposto — aí a sociedade desmonta”, expõe o ciclo que ele, o eterno prefeito da Cidade do Rock, quer combater. “O próximo festival será disparado o melhor da história”, promete.

ESPETÁCULOS
Aniela Jordan

Aniela Jordan
Aniela Jordan – Caio Gallucci/Divulgação

Responsável pela produção de mais de quarenta espetáculos na cidade, além dos que viabilizou ao longo de duas décadas de carreira no Teatro Municipal, onde foi de iluminadora a diretora de produção, Aniela Jordan alimenta um vício estranho, mas saudável à vida cultural carioca, para a qual vem contribuindo de forma decisiva: “Sou viciada em reabrir teatros”, confessa ela, que participou da revitalização do Oi Casa Grande, em 2008, e colocou novamente em funcionamento o Imperator, em 2016, após dezesseis anos de portas fechadas. Depois disso, Aniela ainda lançou-se em outros dois grandes desafios: restaurou o antigo Cine Palácio (hoje Teatro Riachuelo) e fez renascer o Teatro Adolpho Bloch, projetado por Oscar Niemeyer (atual Teatro Prudential). “Eles fazem parte da história da arte da nossa cidade, são bens que temos de valorizar e preservar”, defende.

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Na lista de espaços repaginados também se encontra a grande sala da Cidade das Artes, em que montou toda a infraestrutura e para onde levou o musical Rock in Rio. Os musicais, por sinal, são outro vício desta produtora que deu uma mãozinha para fazer do Brasil o terceiro maior polo de espetáculos do gênero, atrás de Estados Unidos e Inglaterra. À frente da Aventura Produções, ela comprou os direitos e trouxe para cá clássicos como A Noviça Rebelde, Beatles num Céu de Diamantes, O Despertar da Primavera e Hair. “O primeiro musical que vi na minha vida, com Marília Pêra e Marco Nanini, foi no atual Prudential. Devo ter visto umas 35 vezes e foi muito significante ter reativado esse palco”, conta. Que venham outros.

ESPORTE
Georgette Vidor

Georgette Vidor
Georgette Vidor – Flamengo/Divulgação

Para uma ginasta sem talento, como ela mesmo se define, Georgette Vidor conseguiu superar muitos recordes na modalidade. No papel de treinadora, a carioca de 63 anos ajudou a fazer do Rio um celeiro de medalhistas no esporte ao qual começou a se dedicar ainda bem nova, aos 10 anos, no Flamengo. Desenganada como atleta, despontou como treinadora aos 15, e aos 19 emplacou sua primeira campeã estadual. “De lá para cá, coloquei cinquenta meninas na seleção brasileira, ganhamos quinze títulos na categoria adulto, doze na juvenil e, agora, finalmente chegamos ao tão sonhado ouro olímpico”, contabiliza ela, neste momento dedicada aos treinos da talentosa Ana Paula Delgado, 9 anos, descoberta aos 6 em sua ONG, a Qualivida, voltada para crianças de áreas menos favorecidas.

Ex-coordenadora técnica da seleção e atualmente dirigindo a ginástica artística do Flamengo, Georgette, que em 1997 sofreu um acidente que a deixou paraplégica, foi responsável por revelar nomes como Luisa Parente, Daniele Hypolito, Daiane dos Santos e Jade Barbosa — sem falar em Rebeca Andrade, que ela própria chegou a dar aulas de balé on-line para ajudar em sua preparação para as Olimpíadas de Tóquio, onde conquistou um ouro e uma prata. Em outra frente, como secretária municipal da Pessoa com Deficiência, de 2011 a 2014, deixou a cidade pronta para os Jogos Paralímpicos, em 2016, e desde então vem batalhando para fazer do Rio o epicentro do esporte no país. “Na época, atormentei o prefeito Eduardo Paes. Escrevia para ele todo dia dizendo que, se a gente não tivesse um centro olímpico para a ginástica, a culpa seria dele.” Agora temos.

GASTRONOMIA
Claude Troisgros

Claude Troisgros
Claude Troisgros – ./Divulgação

O que chamamos hoje de cozinha franco-brasileira começou a ser gestada em 1979, quando o aventureiro neto de Jean Baptiste Troisgros (que na década de 30 cravou o nome da família na história da alta culinária francesa) desembarcou no Rio. Formado pela Escola de Hotelaria Thonon Les Bains, na Suíça, Claude, 65 anos, não falava naquela época uma palavra de português, o que não o impediria de concretizar verdadeiras alquimias fundindo à mesa as duas culturas. Indicado por seu pai, Pierre, um dos criadores da chamada Nouvelle Cuisine, ele veio parar aqui com a missão de pilotar uma versão carioca do estrelado Le Pré Catelan, ícone parisiense então tocado pelo chef-­celebridade Gaston Lenôtre. “Meu pai disse a Lenôtre que eu gostava de viajar para ‘carramba’ e ficaria muito interessado em ter uma experiência no Rio”, relembra, com inconfundível sotaque, o veterano Claude, hoje um carioca da gema, da clara e de produtos tropicais que associou à técnica da cozinha de seu país, inspirando seus pares por todo o território brasileiro.

O império Troisgros conta atualmente com cinco casas cariocas, que ele foi montando ao longo das últimas décadas e que disseminaram pratos como peixe com banana, crepe suflê de maracujá e terrine de foie gras com pupunha. “Meu pai dizia que nasci no país errado. Aqui descobri que sou um ‘carrioca’ nato”, orgulha-se ele, que se lança em trilhas de bike pelas montanhas da cidade e desafia as ondas com sua pipa de kitesurfe. De quinze anos para cá, Claude migrou para a TV, onde populariza receitas no comando de programas como o Que Marravilha! e Mestre do Sabor. “O Brasil — seus chefs, produtores e o paladar das pessoas — evoluiu muito. E esta cozinha que faço aqui extrapolou as fronteiras do país.” Do Rio para o mundo.

HUMOR
Fábio Porchat

Fábio Porchat
Fábio Porchat – Leo Lemos/Divulgação

Fábio Porchat, 38 anos, não entrou para a história do humor pelo Porta dos Fundos, com o perdão do trocadilho. Sua estreia se deu nos palcos em 2005, quando montou a peça Infraturas, uma sequência de esquetes de sua autoria interpretados por ele e Paulo Gustavo. Várias peças e alguns trabalhos como roteirista de programas globais depois, Porchat se uniria a mais quatro amigos (Antonio Tabet, Gregorio Duvivier, João Vicente de Castro e Ian SBF) para fundar, em 2012, uma produtora de vídeos para a internet. Ali, passaram a escoar um humor mais ácido sobre assuntos que até então não costumavam habitar a televisão, descortinando novos caminhos para o riso fácil. Em seis meses, o Porta dos Fundos alcançou 30 milhões de visualizações no YouTube e, no ano seguinte, tornou-se o maior canal brasileiro de comédia na rede.

Só com o vídeo Na Lata, que ironiza aquela campanha da Coca-Cola com nomes nas latinhas, Porchat provocou gargalhadas numa escala de 20 milhões de seguidores. Deitado em esplêndido e eclético berço — cresceu vendo TV Pirata, Chaves e Escolinha do Professor Raimundo —, inspirou toda uma geração de comediantes, que já nascem na internet, e se tornou um ícone do humor carioca, que ele define como mais veloz. O comediante diz que gosta de fazer as pessoas rirem daquilo com que se identificam, do que acontece no dia a dia. “Aproveito bem este meu lado carioca, da sátira, de não levar nada muito a sério”, arremata.

IMPACTO SOCIAL
José Júnior

José Júnior
José Júnior – Tomas Rangel/Divulgação

De socioeducador, empreendedor cultural, mediador de conflitos e líder de um movimento social a produtor de audiovisual e CEO. As definições para o multifacetado José Junior foram sendo reconfiguradas após 28 anos de fundação do Grupo Cultural AfroReggae, a organização não governamental que ele criou com o propósito de aumentar a autoestima de jovens moradores de favelas, dando-lhes renda e afastando-os do tráfico, a partir de oficinas de música, dança e reciclagem. Com a ONG, nascida em 1993 após a chacina de Vigário Geral, Zé Junior ajudou a expandir o leque de oportunidades para quem não as tinha e a despertar a sensibilidade corporativa para o terceiro setor — vários de seus projetos foram apoiados por grandes empresas. Chegou a ter 500 funcionários e recursos na casa dos 20 milhões de reais. “Não faço ideia de quantas pessoas foram beneficiadas, são milhares, e não só nas favelas do Rio, mas no Brasil e até no exterior”, diz.

A virada começou em 2016, quando deixou o comando da ONG para fazer do braço audiovisual do AfroReggae uma empresa, apoiada por nomes como o economista Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central. “Peguei todas as histórias que eu tinha acumulado e vivido e comecei a pensar em dramaturgia, para mostrar a realidade como ela é”, explica o responsável por séries como Arcanjo Renegado, inspirada no Batalhão de Operações Policiais Especiais da PM do Rio (Bope), e A Divisão, sobre a onda de sequestros dos anos 1990 na cidade. E ainda tem muito por vir. “Vou fazer a biografia do Betinho e um filme sobre a história real de dois jovens cariocas que deixaram a favela e foram para os maiores circos do mundo”, adianta. A ideia é incentivar cada vez mais gente a escrever uma nova página de sua própria história.

INDÚSTRIA
Eduardo Eugenio

Eduardo Eugenio
Eduardo Eugenio – Renata Mello/Firjan/Divulgação

Há quase três décadas no comando da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira elegeu-se no ano passado para seu nono mandato ecoando aos quatro ventos uma frase insuflada de otimismo que se tornou seu mantra: “O Rio tem jeito!”. Empenhado em capitanear articulações para estimular o desenvolvimento do estado, em meio à crise agravada pela pandemia — mais uma que testemunhou —, ele apresentou aos governantes um programa de retomada da economia. As iniciativas postas à mesa têm potencial de injetar nos próximos anos mais de 120 bilhões de reais em investimentos em concessões e PPPs (as chamadas parcerias público privadas), saneamento básico e gás natural.

Para Eduardo Eugenio, o Rio é como um filho rebelde. “Talentoso. Diferente. Lindo. Indomável. Original. Amado”, define o empresário de 74 anos, que vem apostando na inovação para levantar o estado. Em 2018, colocou de pé a Casa Firjan, em Botafogo, dividida entre o palacete histórico e o prédio com modernas instalações, onde a programação mira os desafios da nova economia e do mercado de trabalho, da teoria à prática. Mais recentemente, criou o grupo de trabalho empresarial de ESG, dedicado a conhecer os bem-sucedidos projetos de grandes empresas com foco em meio ambiente, impacto social e boas práticas de governança. O objetivo é difundi-los entre os 7 500 associados — e além. “Natureza e gente: possuímos um produto sem igual”, pontua. Tem razão.

LIVROS
Rui Campos

Rui Campos
Rui Campos – André Teixeira/Agência O Globo

As histórias do Rio — além de muitas outras — não estão apenas nas prateleiras das livrarias que o mineiro Rui Campos abriu pela cidade nas últimas décadas. Fora dos livros, elas se desenrolam nos corredores e cantinhos de sua Travessa, cuja primeira filial foi inaugurada em meados dos anos 1990, na Rua do Ouvidor, no Centro. Logo se tornou ponto de encontro dos apaixonados pela boa leitura na cidade. Rui começou a escrever esse enredo quando se mudou para o Rio, em 1975, e foi trabalhar na Livraria Carlitos, em Ipanema. Tempos depois, ele próprio assumiu o ponto, rebatizado de Muro. “Por afinidade e militância, o local virou referência na difícil cena cultural da época. Muita política, resistência e poesia. Era uma livraria que espelhava aquele momento”, recorda.

Campos frisa que a Travessa de hoje guarda o mesmo DNA da livraria de antigamente. “O envolvimento com a cidade e com sua vida cultural permanece”, frisa o livreiro, entusiasmado mesmo em meio à crise que interrompeu lançamentos, cursos e palestras e fez com que muitos concorrentes fechassem as portas. A Travessa resiste. Com sete endereços no Rio (além de Niterói, São Paulo, Ribeirão Preto e Lisboa), a rede carioca encerrou 2019 com faturamento de 80 milhões de reais e 1,5 milhão de livros vendidos, mas, em 2020, vieram a pandemia e uma queda de 40%. “Estamos nos recuperando, embora ainda vendendo 20% menos”, calcula Campos, defendendo a concorrência virtuosa entre as livrarias. “Não nos preocupamos com quem compra livros em outro lugar, só com quem não compra nenhum”, arremata ele, incansável na missão de seguir contribuindo para o gostinho pela leitura.

MEDICINA
Jorge Moll

Jorge Moll
Jorge Moll – Edilson Dantas/Agência O Globo

O cardiologista Jorge Moll tinha 31 anos quando decidiu dar um passo além do consultório. Naquele ano de 1977, ele abriu seu laboratório número 1, embrião do Grupo Labs, o primeiro de uma série de investimentos que acabariam por transformar o cenário da saúde no Rio. “Apesar de já haver aqui muitos hospitais públicos de referência, desde os tempos em que éramos capital federal, o sistema vivia em crise e muitos cariocas buscavam atendimento em São Paulo”, lembra o médico, hoje com 75 anos, que se deu conta de que era alta a demanda por hospitais de qualidade. Vieram três em sequência: um na Barra (1998), outro em Copacabana (2000) e o terceiro na Quinta da Boa Vista (2001). “Colocamos emergências em todos. Até então, elas só existiam na rede pública”, pontua Moll.

Hoje, a Rede D’Or São Luiz é o maior grupo privado de saúde não apenas do Rio, mas do Brasil, com sessenta unidades em dez estados, além do Distrito Federal. Vinte delas estão baseadas nestas praias — só nos últimos doze meses receberam mais de meio milhão de pacientes nas emergências e conduziram quase 70 000 cirurgias. Enquanto essa engrenagem se move em grande escala, um instituto de pesquisa da rede, o Idor, criado em 2010, vem dando sua contribuição à ciência, e com projeção internacional. Foi ali que tiveram início os testes em voluntários brasileiros com a vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a biofarmacêutica AstraZeneca. O instituto também se destacou no esforço que estabeleceu a relação entre o vírus Zika e o aumento da ocorrência de microcefalia no Brasil, em 2016. As descobertas feitas no prédio de Botafogo, onde o Idor fica sediado, já superaram a marca de 1 300 citações em artigos no mundo todo, um sinal inequívoco de sua relevância para o avanço do conhecimento.

MEIO AMBIENTE
Mario Moscatelli

Mario Moscatelli
Mario Moscatelli – Maria Isabel Oliveira/Agência O Globo

Os anos 1990 batiam à porta quando o biólogo e mestre em ecologia Mario Moscatelli começou a ser avistado com frequência com a metade do corpo submersa na Lagoa Rodrigo de Freitas. A cena, um tanto atípica e impactante para o carioca, habituado a assistir ali a episódios de mortandade de peixes, fazia parte do início do relevante trabalho de Moscatelli, 57 anos, para recuperar os mangues do Rio. Pois o mergulho foi de cabeça: ele é responsável por coordenar o replantio de 5 milhões de metros quadrados de manguezais entre as baías de Guanabara e Ilha Grande — um esforço que ajudou a devolver aos moradores e turistas uma Lagoa mais bela e sem odor, além de exibir, em pleno coração da Zona Sul, a importância de seu ecossistema.

A cruzada de Moscatelli envolveu empenho máximo e não raro solitário. Ele trabalhava em Angra dos Reis e todo fim de semana trazia à Lagoa no “manguemóvel” — o Chevette Marajó de seu pai — mudas de mangue-vermelho, branco e negro de outras áreas. Também as produzia no apartamento dos pais, em Copacabana. Junto a associações de moradores, empresas privadas e o poder público, o biólogo segue até hoje, e com todo afinco, em sua cruzada. “Neste momento, estou focado no sistema lagunar de Jacarepaguá, o maior passivo ambiental da cidade”, conta ele, que há 25 anos criou e coordena o Projeto Olho Verde, para denunciar problemas que observa em voos de helicóptero. Muita gente que em décadas passadas não prestava atenção no assunto deixou-se tocar por Moscatelli e sua causa.

MODA
Kátia Barros

Kátia Barros
Kátia Barros – Raphael Lucena/Divulgação

Jockey Club, 1997, um estande de 4 metros quadrados na novíssima e concorrida Babilônia Feira Hype. Corta. Rio, 2021, dezesseis lojas na cidade, mais sessenta espalhadas por todo o Brasil e filiais em Paris, Miami e Nova York. Em um setor da economia em que longevidade é uma vitória com sabor especial, a trajetória ascendente da Farm é um feito em si. Mas há outro nesse florido enredo: a grife tornou-se a perfeita tradução do estilo da garota carioca-suinge-sangue-bom, um sinônimo da carioquice traduzida em estampas alegres e coloridas. “Gostamos do ar livre, do mergulho no mar, do samba, da bossa nova e do funk. Somos a mistura, a malemolência, um espírito que é objeto de desejo”, acredita Kátia Barros, fundadora e diretora criativa.

O que começou de forma intuitiva, lá naquela feirinha, aos poucos foi ganhando planejamento e envergadura. O trabalho de construção da marca começou em 2002, quando a Farm pesquisou a fundo o universo de seu público-alvo. “Fomos entender o que comiam, o que faziam no dia a dia, e assim conseguimos estabelecer o elo com a cidade”, lembra Kátia. Nesse percurso, prestes a completar 25 anos de estrada, a Farm também se notabilizou por ações que ganharam a simpatia dos cariocas fora das lojas. Em 2020, abriu uma casa na Lagoa com uma série de atividades, de aula de arranjos florais a ioga. Neste ano, deu início ao projeto de uma fábrica de árvores, em Guaratiba, que fornecerá mudas para plantio em espaços urbanos. O verde é certamente a cor da moda.

MÚSICA
Zeca Pagodinho

Zeca Pagodinho
Zeca Pagodinho – Guto Costa/Divulgação

Conhecido por ampliar os limites do samba de fundo de quintal, aquele que vira arte na mais alta informalidade, Zeca Pagodinho conseguiu sensibilizar ouvidos para o ritmo que ele embala como poucos em todas as camadas sociais. Mas é modesto ao tratar do fenômeno que sacudiu a cena musical: “Antes, o samba ficava na senzala e, com os anos, foi ganhando respeito. Mas não gosto de pensar que eu sou o cara. Teve muita gente bacana contribuindo para isso”, frisa. Zeca lembra que a virada em sua carreira ocorreu quando ele foi para a PolyGram, hoje Universal, e contou com o apoio de Max Pierre na direção artística de seus discos. Ali, o instrumental caprichado tornou-se uma marca de suas composições, que trazem a malandragem carioca no espírito, no melhor sentido.

Seus quatro prêmios Grammy Latino dão o tom de sua repercussão mesmo fora do Brasil. “Quanta coisa eu já fiz”, diz, e completa em seu inconfundível modo de se expressar: “Gosto de fazer coisas boas no meio de gente decente. Sou do bem e quem não é do bem não fecha comigo”, esclarece. E assim muitos bate-papos de botequim viraram sambas antológicos e encontros musicais floresceram, para a alegria da plateia: Chico Buarque, Roberto Carlos e Cauby Peixoto estão entre eles. Radicado em Xerém, na Baixada Fluminense, e ligado às raízes, o cara reverenciado por crítica e público por tornar o samba mais pop conclui: “Nasci em Irajá, fui criado em Del Castilho e depois fui para o mundo”.

NEGÓCIOS
José Isaac Peres

José Isaac Peres
José Isaac Peres – ./Divulgação

Não é exagero dizer que era tudo mato quando José Isaac Peres decidiu erguer um shopping center na Barra da Tijuca. Na época, o bairro tinha apenas 40 000 habitantes e alguns condomínios de casas e prédios, e ele decidiu apostar todas as suas fichas ali, desbravando a área que se tornaria um agitado aglomerado de pessoas e opções de serviço e lazer. Inaugurado em 1981, o complexo de 120 lojas batizado de BarraShopping passou por dez expansões nos últimos trinta anos, tornou-se peça-chave no desenvolvimento da região e ajudou a moldar um estilo de vida em que o shopping virou uma espécie de extensão da casa das pessoas. “Se você não cria serviços, as pessoas não se mudam, e foi isso o que eu fiz, entendendo para onde a cidade caminhava”, diz o empresário de 81 anos.

O shopping fincado na Barra é uma espécie de pedra fundamental de um império que hoje compreende mais de 300 prédios construídos (muitos no bairro, como não poderia deixar de ser) e quase vinte templos de consumo no Brasil. O vigésimo, o ParkJacarepaguá, tem inauguração prevista para novembro e acompanha o modelo que começou a ganhar forma no BarraShopping, convertido em um grande polo de entretenimento e serviços, com centro médico e até faculdade. “Nem sei mais o que falta. Talvez algo na linha da autoajuda, que vamos oferecer a preços simbólicos no shopping de Ribeirão Preto e, em breve, pretendo trazer para cá”, planeja Peres, que acabou se mudando para o bairro que carrega sua marca registrada depois de sessenta anos na Zona Sul, onde nasceu.

SAÚDE
Paulo Niemeyer Filho

Paulo Niemeyer Filho
Paulo Niemeyer Filho – Gilberto Tadday/Divulgação

Há oito anos, o médico Paulo Niemeyer Filho, pai de dois filhos, ganhou mais um, como ele costuma dizer: o Instituto Estadual do Cérebro, um complexo de 7 000 metros quadrados no Centro, especializado em cirurgias ligadas a doenças cerebrais de alta complexidade — um exemplo de excelência na combalida rede pública de saúde. Virou referência na área para todo o Brasil, atendendo pessoas de outros estados. “Era para ser um hospital, mas mudei para instituto porque, além de fazermos 1 000 cirurgias por ano, o objetivo era investir em pesquisa e formação”, explica o médico, que se prepara para ampliar, até o fim do ano, o número de leitos, todos de CTI — de 44 para 100. Isso permitirá dobrar as operações realizadas anualmente.

Com uma equipe formada por 180 médicos, além de enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e psicólogos, o IEC era um sonho antigo dele, que, desde a adolescência, observava o trabalho do pai, Paulo Niemeyer, sentado num canto do centro cirúrgico. Paulo filho acabou decidindo seguir a carreira de Paulo pai, tornou-se o ocupante da cadeira 33 da Academia Nacional de Medicina (espécie de ABL dos médicos) e, ao longo de quase cinco décadas voltadas para a neurocirurgia, passou pela chefia da Santa Casa da Misericórdia e da Beneficência Portuguesa, coordenou a pós-graduação da PUC-Rio, além de manter seu consultório na Gávea. Quantas cirurgias carrega no currículo? “Acredito que umas 5 000, mas não sei ao certo. Já perdi as contas”, admite ele, que se dedica a fazê-las à luz da melhor ciência.

SEGURANÇA
Zeca Borges

Zeca Borges
Zeca Borges – Marcelo Theobald/Extra/Agência O Globo

Foi o medo que levou o executivo do mercado financeiro José Antônio Borges Fortes, o Zeca Borges, a mudar de ramo e criar o Disque-Denúncia, no auge da dramática onda de sequestros que abateu o Rio em 1995. “Eram mais de 8 000 homicídios por ano, o pior momento da história do crime na cidade”, lembra, sem saudade. Como seus temores em relação à segurança pública eram compartilhados por outros empresários cariocas, eles se uniram em torno da ideia de pôr em funcionamento um serviço telefônico para registrar denúncias da população, semelhante ao que já havia em alguns países. “A polícia não podia ser deixada só”, diz Zeca, que desde então coordena o projeto. Com ele, qualquer cidadão passou a poder dar sua contribuição anônima às autoridades — um canal valioso para o exercício da cidadania e o combate à bandidagem.

Em 26 anos, o 2253-1177 já recebeu 2,7 milhões de registros, que trouxeram expressivos resultados: através deles, a polícia prendeu e autuou 21 000 marginais. Em 2002, por exemplo, 109 dias após o assassinato do jornalista Tim Lopes, as forças de segurança prenderam, por intermédio do Disque-Denúncia, o traficante Elias Maluco, sem disparar um tiro. Outro caso de grande repercussão foi a prisão dos assassinos do menino João Hélio Fernandes, que, durante o roubo do carro de sua família, foi arrastado por 6 quilômetros, dependurado no veículo. “A letalidade das operações policiais com base em informações do Disque-Denúncia é muito menor. Não há como ter um policial em cada esquina, mas ali sempre haverá um trabalhador, uma dona de casa, um estudante que podem levar bandidos à prisão”, ressalta Borges, firme em seu propósito de contribuir para frear o crime no Rio.

TEATRO
Marieta Severo

Marieta Severo
Marieta Severo – Leo Aversa/Agência O Globo

Com uma longa e bem-sucedida carreira nos palcos, no cinema e na televisão, Marieta Severo, 74 anos, tinha vontade de atuar para além do papel de atriz. Certa vez, comentou isso com sua comadre Andréa Beltrão e, juntas, começaram a semear a ideia de montar um teatro na cidade. “Andréa foi logo olhar os classificados para procurar um lugar. Tinha de ser no Rio. Somos daqui, conhecemos tudo aqui”, recorda a eterna Dona Nenê, de A Grande Família. O ponto escolhido foi em Botafogo, e ali elas inauguraram as duas salas do Teatro Poeira, batizado não apenas numa referência aos pequenos cinemas de rua, os cine-poeiras. “O sentido maior é que a gente quer transformar o mundo, mas se conseguirmos transformar uma pessoa já é bacana, já é uma poeira”, diz Marieta, para quem o contato com a arte será sempre transformador, mesmo que se proponha a ser só entretenimento.

Em meio a inúmeros teatros que fecharam nos últimos anos e resistindo às intempéries provocadas pela pandemia, o Poeira deve ser reaberto em janeiro de 2022, com uma grande exposição comemorativa de seus quinze anos — que precisou ser adiada e ocorrerá quando o teatro estiver prestes a completar dezessete. Será uma retrospectiva do que foi realizado por lá, incluindo um projeto permanente de formação, intercâmbio e extensão, que atrai profissionais das artes cênicas de todos os cantos do Brasil. “Fora a programação artística, esse é o maior legado de nosso espaço. Ele lança sementes e contribui para a expansão do mundo das artes”, avalia a atriz. Vida longa ao Poeira.

TELEVISÃO
José Roberto, Roberto Irineu e João Roberto Marinho

José Roberto, Roberto Irineu e João Roberto Marinho
José Roberto, Roberto Irineu e João Roberto Marinho – ./Divulgação

A Rede Globo estava no ar havia pouco menos de um ano quando, em 1966, o Rio sofreu uma das piores enchentes de sua história. Em cinco dias, foram 200 mortos e 50 000 desabrigados. Até que o pesadelo findasse, o diretor-geral da emissora, Walter Clark, decidiu manter uma câmera ligada, dia e noite, para mostrar a cachoeira que se formou após o rompimento de uma tubulação no Rio dos Macacos — enquanto ela seguisse forte, o horizonte seria sombrio. “Foi um recurso precursor do jornalismo em tempo real”, dizem dizem os irmãos Marinho, José Roberto, Roberto Irineu e João Roberto. “O público entendeu na hora o compromisso da emissora com a notícia e com a cidade, e nunca mais a abandonou.” Os herdeiros de Roberto Marinho (1904-2003), no entanto, ponderam: “Mesmo com todas as suas raízes aqui, a Globo, como todo carioca, já nasceu com a ambição de ser nacional”.

De lá para cá, muitas eleições e não eleições, altos e baixos da economia e chacoalhadas culturais depois, transformou-se na maior rede de TV da América Latina. Sua produção nas áreas de jornalismo, esporte e entretenimento atinge 99,6% da população brasileira e dita um padrão que se tornou referência para a concorrência. Só de prêmios Emmy Internacional — que reconhece produções televisivas feitas fora dos Estados Unidos —, a emissora conquistou dezessete. Sete deles foram de melhor novela, graças a um estilo de dramaturgia que tomou forma dentro dos Estúdios Globo, no Projac, espécie de Hollywood brasileira de onde não só tramas como uma linguagem que engaja e emociona se projetam para o mundo.

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