Mudanças na Sapucaí têm o objetivo de profissionalizar o espetáculo

O acréscimo de uma noite de desfiles no Grupo Especial vai aumentar a arrecadação das escolas e trazer mais turistas, garante Gabriel David, presidente da Liesa

Por Marcela Capobianco
21 fev 2025, 06h48
Abre Carnaval
Carnaval de modificações: três noites de desfiles no Grupo Especial, mais tempo de Avenida e notas no mesmo dia (DHAVID NORMANDO/rio carnaval; Alexandre Vidal/rio carnaval; Sad Coxa/rio carnaval/Divulgação)
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Lá se vão 43 anos desde que o Império Serrano sacudiu a Marquês de Sapucaí, que ainda nem Sambódromo era, com o inesquecível desfile Bum Bum Paticumbum Prugurundum, levando o título de campeã da elite do Carnaval carioca pela nona e última vez. Já passava das 10 da manhã e o sol se fazia inclemente quando a escola de Madureira coloriu a pista. Com o abafado calor de fevereiro, diversos componentes se sentiram mal e abandonaram o espetáculo.

Naquela época, todas as agremiações do Grupo Especial se apresentavam numa única noite, e os frequentes atrasos esticavam a maratona manhã adentro, às vezes até a tarde. Foi com a inauguração da Passarela do Samba, em 1984, que os desfiles acabaram divididos em duas noites e assim seguiram nestas quatro décadas.

Pois em 2025 o maior show da Terra será diferente e ainda mais grandioso, com três dias de desfile — do domingo à terça-feira do calendário momesco. Deste modo, todos atravessarão a pista em paisagem noturna, podendo aproveitar ao máximo o moderno sistema de iluminação instalado ali.

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Gabriel David, presidente da Liesa: mudanças buscam profissionalizar a festa
Gabriel David, presidente da Liesa: mudanças buscam profissionalizar a festa (Daniela Dacorso/Divulgação)

A maior novidade da folia que já embala as ruas da cidade tem efeitos variados — e eles extrapolam o próprio show. “O impacto vai do aumento da arrecadação das escolas ao reforço na malha aérea da cidade para receber os turistas”, diz Gabriel David, 27 anos, o mais jovem presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio, a Liesa.

A estimativa é que o acréscimo de uma noite de desfiles trará um retorno financeiro de 17,4 milhões de reais aos cofres cariocas e um total de 22,4 milhões de reais ao estado.

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Para a festa propriamente dita, a extensão possibilita que as escolas passem mais tempo na Avenida — o momento em que os componentes esquentam os tamborins e as cordas vocais, em frente ao Setor 1, subiu de cinco para dez minutos, e a duração do desfile passou de setenta para oitenta minutos.

Esta janela expandida se ajusta a outra mudança na dinâmica do Sambódromo: como o espetáculo voltará a contar com quatro módulos para acomodar os jurados, dois de cada lado da Avenida, a adaptação no relógio é necessária para não afetar a evolução — os casais de mestre-sala e porta-bandeira, por exemplo, se exibem por dois minutos e meio em frente a cada um desses módulos. A cabine acrescentada às três que havia até 2024, aliás, foi a forma encontrada para solucionar um gargalo — uma delas concentrava dois grupos de jurados, o que poderia prejudicar as agremiações.

“Sabíamos que, se um erro acontecesse bem em frente àquela cabine, perderíamos pontos duplamente. Agora, faremos uma apresentação a mais da nossa dança”, celebra Marcella Alves, porta-bandeira do Salgueiro, cuja fantasia pesa 25 quilos e cujo currículo, ao lado do mestre-sala Sidclei Santos, soma vinte notas 10 nos últimos cinco anos, algo inédito.

A porta-bandeira Marcella Alves, do Salgueiro: uma apresentação a mais em 2025
A porta-bandeira Marcella Alves, do Salgueiro: uma apresentação a mais em 2025 (David Normando/Rio Carnaval/Divulgação)

Entre as renovações momescas, houve ainda mexidas no sistema de julgamento. Novos critérios de avaliação para cada quesito foram determinados e, pela primeira vez, os 36 jurados terão de fechar os envelopes com as notas a cada noite, e não mais no fim do derradeiro desfile de um conjunto de doze. A ideia é que a distância de mais de cinquenta horas que separa a primeira da última apresentação não pese na decisão.

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“O julgamento passa a ser menos comparativo. O júri, obviamente, sabe o que é uma boa exibição”, afirma o pesquisador Felipe Ferreira, membro do prêmio Estandarte de Ouro e professor da pós-graduação em história da arte na Uerj.

A ordem das escolas foi definida por sorteio, em maio passado (veja os enredos, sambas e destaques das agremiações na edição especial de Carnaval). Abrindo o Carnaval no domingo, 2 de março, a Unidos de Padre Miguel, vencedora da Série Ouro em 2024, vem seguida por três potências da Sapucaí: Imperatriz Leopoldinense, vice-campeã do Grupo Especial do mesmo ano, Viradouro, a campeã, e Mangueira, dona de vigorosa torcida.

Faltando pouco mais de uma semana para o início da festa, a Liesa divulgou que, ao final de cada noite desfiles, rodas de samba vão ocupar a Praça da Apoteose. Passarão por lá o Samba do Trabalhador, comandado por Moacyr Luz, a roda de samba do Beco do Rato, o Cacique de Ramos e o Terreiro de Crioulo. Dessa forma, a volta para a casa ficará mais tranquila, acredita Gabriel David.

Apaixonado pela folia, o professor e escritor Luiz Antonio Simas adentra os misteriosos labirintos da Sapucaí. “Historicamente, as escolas que passaram no segundo dia pela Avenida tiveram mais chances de vencer. Hoje não temos a menor ideia do que vai acontecer. Esse Carnaval será um laboratório”, diz.

As raízes do brilho e da grandiosidade do espetáculo que tanto encanta o olhar estão fincadas nos primeiros desfiles, que surgiram em meados do século XIX, com os ranchos e cordões. Foi apenas no início dos anos 1930, após o nascimento da Deixa Falar, tida como a primeira de todas as escolas de samba, que a festa se organizou.

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À época, os estandartes já representavam um elemento de identidade das agremiações, que agitavam a Praça Onze. A cultura das exibições momescas se estabeleceu de vez quando a recém-inaugurada Avenida Presidente Vargas se tornou endereço da folia. “O Carnaval está sempre se modificando e incorporando referências. Ele acompanha o zeitgeist, o espírito do tempo”, observa Felipe Ferreira. Mas a Sapucaí é um campo afeito a tradições, e muita gente envolvida na engrenagem do show anda revelando desconforto com as sacudidas na fórmula original.

Recentemente, o patrono da Vila Isabel e ex-presidente da Liesa por duas ocasiões (de 1987 a 1993 e de 2001 a 2007), Aílton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães, de 83 anos, subiu ao palco da celebração de aniversário de Jorge Perlingeiro — o vozeirão da apuração, que também já comandou a liga — e deu seu recado à jovem diretoria da Liesa.

“Nós somos modernos, mas não vamos descaracterizar o que o Carnaval tem de mais puro. Não chegamos ao ponto de ser o melhor espetáculo a céu aberto do mundo sem evoluir. Estamos na era da inteligência artificial, mas não vamos permitir a descaracterização dos desfiles das escolas de samba”, disparou ao microfone.

“Mexer com questões desta grandeza desperta alvoroço, mas eu tenho ido aos ensaios de todas as escolas e percebo a aceitação do público. Membros das velhas guardas, inclusive, vêm me agradecer por poderem ir embora para casa mais cedo”, conta Gabriel David, filho de Anísio Abraão David, presidente de honra da Beija-Flor.

A profissionalização de ligas esportivas internacionais, como a NBA e a Premier League inglesa, tem servido de inspiração para o atual trabalho da Liesa. “No início, os principais times de basquete dos Estados Unidos eram deficitários. Aquilo era coisa de milionário em busca de status. Hoje, são negócios que movimentam bilhões de dólares”, lembra Gabriel, voltando os olhos para o Sambódromo. “No passado, as escolas de samba também pertenciam a gente rica mirando prestígio. Entendo que a gente caminha agora para um futuro em que as agremiações possam ter uma boa gestão financeira”, fala ele, preocupado em injetar mais dinheiro no espetáculo e garantir maior previsibilidade no repasse às agremiações.

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Atualmente, a venda de ingressos responde por boa parte da receita, seguida pelas cotas de patrocínio e pelos direitos de transmissão. A Liesa retém 10% disso para arcar com os custos da festa. Já a subvenção do governo do estado, neste ano de 40 milhões de reais, e a da prefeitura, que reservou cerca de 26 milhões de reais, vão integralmente para as escolas — em 2025, estima-se que cada uma receberá cerca de 12 milhões de reais.

“O fluxo de caixa é realmente um calcanhar de aquiles para as escolas, e mudanças são bem-vindas, mas desde que o samba e os sambistas estejam sempre em primeiro lugar”, pondera Marcelinho Calil, diretor-executivo da Viradouro.

Outro ponto na mira do presidente da Liesa é “a farra das credenciais na Sapucaí”, que, segundo ele, está prestes a terminar. Neste ano, apenas bombeiros, profissionais do carro de som, fotógrafos e a equipe da TV Globo, responsável pela transmissão, terão acesso à pista.

Até o ano passado, era comum avistar celebridades e convidados de camarotes passeando e posando para fotos ao longo da Avenida, não raro atrapalhando as escolas. Após todas as modificações que serão agora testadas, Gabriel David descarta aumentar para quinze o número de agremiações do Grupo Especial, como vinha se especulando nos bastidores do samba. Mas promete seguir sacudindo os pilares na Avenida.

Já para 2026, ele estuda implementar uma medida que tem tudo para atiçar o caldeirão das polêmicas: um teto de gastos para as escolas, já que umas acabam arrecadando muito mais do que outras. “É fácil você fazer um grande Carnaval com muito dinheiro. Difícil é ganhar a competição com todo mundo em pé de igualdade”, provoca.

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Quem acompanha a saga daqueles que vivem para pôr de pé seus desfiles sabe que é trabalho suado. “Uma escola de samba não existe porque desfila. É exatamente o contrário: ela desfila porque existe. Quem ama o Carnaval sabe que o início do espetáculo marca o fim de um processo de quase um ano”, lembra Luiz Antonio Simas, um dos compositores do samba-­enredo da Unidos da Tijuca, em parceria com Anitta, que estreia neste Carnaval repleto de novidades. Preparem-se para uma batida diferente.

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Localização privilegiada

Camarote VEJA faz sua estreia na Avenida

Camarote VEJA
(./Divulgação)

O ponto não poderia ser melhor: o Camarote VEJA ficará no Setor 4 da Marquês de Sapucaí, bem próximo a um dos módulos de julgamento. Dentro do Hospitality Center do espaço Rio Carnaval, que se espraia por três andares, o local irá receber a cada noite de desfiles 150 convidados, entre políticos, empresários e celebridades, que poderão assistir de camarote, e com todo o conforto, ao maior show da Terra.

Carnaval de novidades

O que mudou nos desfiles do Grupo Especial

> Serão três noites de folia, de domingo a terça-feira, com quatro escolas cruzando a Avenida por dia

> A duração de cada desfile subiu de 70 para 80 minutos

> O esquenta no Setor 1 terá 10 minutos, o dobro de 2024

> Voltará o sistema de quatro módulos de julgamento, dois de cada lado da Avenida, um a mais do que no ano que passou

> O júri entregará as notas concedidas às escolas ao fim de cada noite, e não mais quando todas tiverem se exibido, tirando o peso da comparação entre uma e outra

> Novos critérios de avaliação foram determinados para cada quesito. Na evolução, alas coreografadas, antes penalizadas, agora podem, por exemplo, andar para trás

Hora do show

O que promete este ano o espetáculo na Avenida

Conexão África-Brasil
(Dhavid Normando/Rio Carnaval/Divulgação)

Conexão África-Brasil

Campeã em 2024, a Viradouro tenta o bicampeonato exaltando Malunguinho, entidade afro-indígena que se manifesta como Caboclo, Mestre e Exu Trunqueiro. Salgueiro, Unidos da Tijuca, Imperatriz Leopoldinense e mais cinco escolas também trazem enredos dedicados às religiões de matriz africana.

O Carnaval da despedida
(Dhavid Normando/Rio Carnaval/Divulgação)

O Carnaval da despedida

Aos 75 anos, cinquenta deles dedicados à escola de Nilópolis, Neguinho da Beija-Flor anunciou que este será seu derradeiro desfile como puxador. “A gente morre duas vezes. Quando morre de verdade e quando para”, declarou, ao anunciar a aposentadoria da Sapucaí.

Superala de compositores
(@fredothero/Divulgação)

Superala de compositores

A Tijuca coloca na pista o time mais célebre de 2025: Anitta divide a composição do samba-enredo com o professor Luiz Antonio Simas, o arquiteto Miguel Pinto Guimarães e o cineasta Estevão Ciavatta, além de quatro sambistas. O Salgueiro conta com Xande de Pilares e, na Vila Isabel, Raoni Ventapane, neto de Martinho da Vila, ajudou a criar o samba.

As donas do cetro
(Sad Coxa/Rio Carnaval/Divulgação)

As donas do cetro

Sabrina Sato, rainha de bateria da Vila Isabel, Viviane Araújo, do Salgueiro, Paolla Oliveira, da Grande Rio, e Erika Januza, da Viradouro, já são tradição na passarela do samba, mas neste ano a Sapucaí perdeu uma de suas titulares no cargo: a cantora Lexa, após o falecimento da filha recém-nascida. A Unidos da Tijuca decidiu não substituí-la e promete uma homenagem.

Salve Milton Nascimento
(Marcos Hermes/Divulgação)

Salve Milton Nascimento

A apresentação do enredo da Portela, Cantar Será Buscar o Caminho que Vai Dar no Sol, que reverencia a trajetória do cantor de 82 anos e sessenta de carreira, foi em agosto passado, na Cidade do Samba, e contou com a presença–surpresa de Milton, o homenageado, que é aguardado na Sapucaí, no último carro.

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