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Maria Ribeiro: “Bandeira e coração”

"Queria uma Anvisa particular pra cada um de nós. Já pensou? Uma agência de vigilância que fosse um misto de mãe ideal com superego", escreve a atriz

Por Maria do Amaral Ribeiro Atualizado em 17 set 2021, 10h25 - Publicado em 17 set 2021, 06h00

Quando a Anvisa entrou no campo da Neo Química Arena, no último dia 5, em São Paulo, pra retirar os jogadores da Argentina que se preparavam pra jogar contra o Brasil, eu chorei.

Era apenas uma partida de futebol pelas eliminatórias sul-americanas da Copa do Mundo de 2022, mas parecia a minha vida. Era apenas o cumprimento de uma regra sanitária, mas parecia o impeachment. Era apenas um “não”, mas parecia o amor.

Emiliano Martínez, Emiliano Buendía, Giovani Lo Celso e Cristian Romero não sabem, mas, ao desrespeitarem a quarentena que deveriam ter feito ao chegar da Inglaterra, me devolveram um pedaço do país que supunham burlar.

E, de quebra, para minha alegria, me fizeram chorar por todos os dias desses intermináveis dezoito meses.

Chorei porque sou brasileira, porque sinto saudades do meu pai, porque meu filho mais velho não pôde se despedir da escola, porque as crianças na minha janela ainda correm de máscara e, sobretudo, chorei porque queria uma Anvisa particular pra cada um de nós.

Já pensou? Uma agência de vigilância que fosse um misto de mãe ideal com superego, um seguro antipartidas arriscadas, um Deus com representantes vestidos com coletes chamativos e com número de CNPJ.

Eu não sou ligada em futebol. Ainda mais na seleção. Ainda mais nessa seleção. No máximo, visto a camisa do Fluminense, identidade herdada e portanto indiscutível (e como é bom uma ausenciazinha de liberdade, não é?).

O time das Laranjeiras é uma espécie de parceiro da vida inteira. Volta e meia, sua trajetória irregular me dá aquele toque de 1 milhão de dólares que às vezes a gente esquece: a vida tem mesmo zero garantia.

O tal poder do agora, antes de best-seller, já era um velho conhecido dos tricolores. É só por hoje e olhe lá. E o fechamento é incondicional. Não importa a fase, não vale separar. É hino com contrato de casamento, na alegria e na tristeza. Melhor curso de noivos, não há.

Mas se, por um lado, eu não acompanho os incontáveis campeonatos dos zilhões de ligas e copas de futebol que atraem torcedores do mundo todo, por outro, sou mãe de dois amantes fiéis do esporte inglês, e minha casa costuma ter, no mínimo, três domingos por semana.

E eu amo aquele barulhinho, especialmente se estou em outro cômodo… De modo que, sim, eu estava com a tevê sintonizada no fatídico jogo que durou cinco minutos.

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“O time das Laranjeiras é uma espécie de parceiro da vida inteira. Não importa a fase, não vale separar. É hino com contrato de casamento, na alegria e na tristeza. Melhor curso de noivos, não há”

Cinco minutos que podem parecer nada diante dos noventa de um jogo regular, mas que foram suficientes para me levar de volta a um desamparo que, vez ou outra, dá as caras por aqui.

Das assistências que não recebi, das faltas cometidas e não cobradas, dos passes em vão, da vida adulta, onde somos todos goleiros, da natureza fugaz e sem sentido da nossa passagem por aqui.

Escrevo este texto poucos dias depois dos atos antidemocráticos do 7 de Setembro. E não, não achei pouco o tanto de gente que foi para a rua defender o presidente. E nem achei divertido dizer que o evento “flopou”.

São meus conterrâneos? Não sei. Um país é mais um modo de pisar a terra do que a terra propriamente dita, e a brutalidade não vem só de jogadores argentinos. Tampouco eu estou livre de cometê-la.

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E na falta do Deus Anvisa, peço aos meus amigos a coragem de interferir nas jogadas cujas regras eu estiver violando. Quero fazer o mesmo com eles.

Nos gramados, nos grupos de WhatsApp, nas relações amorosas, nas de pais e filhos. No país, no trabalho, com os vizinhos, com quem você ama, se importa, acha que pode ajudar. Vista um colete, peça a palavra, meta a colher, chame a polícia, interfira, levante um cartão.

Fale firme, se for preciso.

Fale com amor, se for possível.

A vida é feita de consertos e remendos.

Somos mais de 580 000 mortos, e estamos há quase dois anos em casa. Talvez seja hora de parar o jogo, beber um pouco de água, tomar um tanto de sol — ou mesmo chorar um pouco.

Há que se refazer a bandeira e o coração.

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