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Carlinhos Brown: ‘Sou uma criança desenvolvida e não tive infância fácil’

Artista lança nesta sexta (21) mais um trabalho voltado ao público infantil e diz que sua criatividade vem, principalmente, 'do fôlego da vida'

Por Cleo Guimarães 19 ago 2020, 17h33

O isolamento tem sido uma fase das mais produtivas para Carlinhos Brown, que compôs a maioria das dez músicas do álbum “Paxuá e Paramim em: A floresta dos rios voadores” durante a quarentena. “Ficar isolado torna-se uma potência criativa quando há foco e concentração”, conta o artista a VEJA RIO. Com lançamento marcado para esta sexta (21), e uma live no dia seguinte ao lado da compositora e arte-educadora Milla Franco, o disco traz também uma faixa em parceria com o amigo tribalista Arnaldo Antunes e canções protagonizadas por rios, florestas, pássaros, índios, chuva e sol. “Faço um chamado sobre a responsabilidade de cada um no futuro do planeta”, afirma Brown, que concedeu a seguinte entrevista:

A maioria das faixas deste novo trabalho foi composta durante a pandemia. Acha que o isolamento contribuiu para potencializar a sua força criativa? O isolamento torna-se uma potência quando há foco e concentração no que se tem a fazer e também a dizer. Minha criatividade vem do fôlego da vida. E essa oportunidade reforça em mim a busca por outros respirares. E assim venho buscando potencializar as mensagens compositivas, que vão sempre no caminho do incentivo e da criatividade.

A quarentena mudou a sua vida de alguma forma? A quarentena trouxe mudanças não apenas em mim, mas acredito que em todos aqueles que conseguiram rever posições e elaborar readequações, dando espaço sobretudo ao essencial.

O que o motivou a fazer trabalhos voltados para as crianças? Trabalho desenvolvendo criações e possibilidades no campo da música, da cultura e da arte-educação com crianças há mais de quarenta anos. Sou uma criança desenvolvida que não teve uma infância tão fácil, embora tenha pais atentos que me conduziram da forma mais ética possível diante das dificuldades que tínhamos como enfrentamento de vida, para que eu viesse a ser um cidadão consciente. Por isso a criança que em mim habita reverencia as faltas. Principalmente por compreender as dificuldades como grandes aprendizados que formaram o homem que sou hoje.

Que mensagens pretende passar para o público infantil? A mensagem que quero passar é a da importância da curiosidade, do respeito aos mestres, do pertencimento e da esperança.

Como a sua criação ajudou na educação dos seus filhos? Aos meus filhos deixo o encorajar da busca, sempre alertando que nem tudo sei, de que pouco sei, mas sou um curioso, um buscador. Nasci em um ambiente de dificuldades. A luz elétrica, por exemplo, chegou na minha comunidade só quando eu já tinha 13 anos e, mesmo assim, apenas em algumas casas. Então cresci numa situação rural, digamos assim, dentro de uma cidade.

Qual a importância de incentivar uma consciência ecológica na atual fase pela qual o país vem passando? Vou contar uma história. Tínhamos um belo pomar e havia leis para extração. Era a chamada Roça do Bila, que terminou virando o Horto Florestal, em Salvador. E o Seu Bila, muito generoso, tinha já uma consciência ecológica que nos transmitia, pois ele fazia os plantios, mas não deixava de forma alguma que qualquer coisa fosse extraída fora do tempo. Ele ensinava: quer catar madeira? deixa que os galhos se ofereçam. E isso nos trouxe muita consciência, fazendo com que mais tarde, quando virei líder comunitário, levasse esses ensinamentos adiante. Então essas e outras lições da ancestralidade, trago permanentemente comigo como base, principalmente a grandiosidade da natureza viva e suas possibilidades.

Como vê o Brasil atual? O que te tira do sério? Violência doméstica em todos os sentidos, contra criança, idosos… e os separatismos que ainda persistem. Pelo olhar da miscigenação, precisamos nos unir mais para dar o merecido valor às nossas riquezas naturais e também culturais, fruto das miscigenações, na potência das misturas.

 

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