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Casa sobre rodas: cariocas trocam o endereço fixo pela vida na estrada

Que vida convencional que nada... O que cada vez mais cariocas sonham é viver e trabalhar a bordo de um motorhome

Por Carol Zappa Atualizado em 13 jul 2022, 23h09 - Publicado em 15 jul 2022, 08h00
A última aventura de Ivan e Camila: setenta dias até a Patagônia com os quatro cachorros -
A última aventura de Ivan e Camila: setenta dias até a Patagônia com os quatro cachorros – Alice Linck/Divulgação

Quem nunca teve aquele estalo de largar tudo e sair viajando planeta afora? Quando Livio Hoffmann, 33 anos, e Daniella Gutterman, 36, contaram para amigos e família que haviam decidido trocar o endereço fixo e os escritórios em que trabalhavam por viver, literalmente, na estrada, muitos disseram que estavam loucos. O casal se conheceu poucos meses antes da pandemia. Ele terminava um mestrado, ela já não estava satisfeita no emprego.

“Todo mundo tenta construir a vida para se aposentar, ter dinheiro e viajar. Esse momento de reflexão nos fez perceber que queremos ser felizes agora, longe do confinamento de um escritório”, conta Daniella. Depois de muito planejamento — gastaram seis meses (e cerca de 80 000 reais) para converter uma van em uma casa completa —, partiram rumo ao Ushuaia, na Patagônia argentina, passando pelo Sul do Brasil e pelo Uruguai. Até agora, já conheceram mais de setenta cidades, algumas até difíceis de achar no mapa, com o projeto que batizaram de Sonhando Acordado. A meta é chegar à Colômbia até fevereiro.

Nômades modernos: Josi atende pacientes pela internet e Julio faz shows por onde passa -
Nômades modernos: Josi atende pacientes pela internet e Julio faz shows por onde passa – ./Arquivo pessoal

A escolha do casal de advogados acompanha a de uma turma de nacionalidade variada, egressa de países como Estados Unidos, Canadá e Nova Zelândia, onde a cultura do motorhome está bem sedimentada. A ideia é que seus donos se lancem na estrada levando a estrutura básica de uma casa (e muitas vezes de um escritório), implantando um novo estilo de vida. Um indicador de que essa é uma via (com o perdão do trocadilho) em alta é o aumento de empresas de aluguel desse tipo de veículo e o de montadoras especializadas, como a Estrella Mobil, cuja demanda cresceu 80% nos últimos dois anos.

O movimento ainda é mais visível no Sul do país, que conta com melhor estrutura para receber esses viajantes, mas também muitos cariocas vêm abraçando rotinas itinerantes na busca de mais liberdade, aventura e contato com a natureza. “Os pedidos de customização desses veículos subiram 30% no Rio ao longo deste período”, calcula Rafael Lemos, cofundador da Estrella. No Camping Clube do Recreio, que serve de parada, o número de associados avançou cerca de 25% em tempos recentes.

arte Motorhome

A pandemia, como não poderia deixar de ser, deu um empurrão e tanto ao movimento, já que chacoalhou as relações de trabalho de forma duradoura. Os chamados nômades digitais, profissionais que exercem suas funções remotamente enquanto põem o pé na estrada, já são 35 milhões no mundo. E o grupo pode chegar a 1 bilhão de pessoas em 2035, segundo o Relatório Global de Tendências Migratórias da Fragomen, especializada em migração. Desse contingente, 21% vivem em seus carros, vans ou trailers.

Essa forma de existência ganhou os holofotes no filme Nomadland, vencedor do Oscar em 2021 — após ficar viúva, uma ex-professora sexagenária (vivida magistralmente por Frances McDormand) se muda para um trailer e se joga em uma jornada sem rumo certo à procura de trabalho. Enquanto o mundo gira, o perfil dos aventureiros vai mudando. “Há cinco anos, nosso público era sobretudo de aposentados, acima dos 65 anos. Hoje, é de jovens casais com filhos pequenos e influenciadores digitais”, diz Paulo Zanim, sócio do Pura Vida, uma espécie de Airbnb dos motorhomes, que une donos de veículos a locatários em diferentes estados.

Integrantes do rol dos nômades modernos, a psicóloga Josi Araújo e o músico Julio Mallaguthi, ambos de 34 anos, há pouco mais de um ano saíram de Saquarema, na Região dos Lagos, e adaptaram seus esquemas de trabalho para rodar o Brasil no motorhome Bitelinha. E a vida ficou assim: ela atende pacientes pela internet e ele costuma tocar nos bares das cidades em que param.

“Sempre tivemos essa vontade, mas achávamos que íamos fazer isso mais velhos, aposentados. Com a pandemia, vimos muitas vidas se perdendo e decidimos não deixar nada para depois”, relata Julio. Ficou tudo mais simples. “Aprendemos a desapegar e fomos nos dando conta de que não precisávamos de tanto”, completa Josi. O alto custo de vida pesou na decisão do casal, embora nem sempre trocar uma casa de quatro paredes por um lar sobre rodas seja sinônimo de economia.

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O casal Livio e Daniella: 80 000 reais para converter uma van em casa -
O casal Livio e Daniella: 80 000 reais para converter uma van em casa – ./Arquivo pessoal

Para começar, os valores dos motorhomes variam muito de acordo com os acabamentos e o projeto. A disparada nos preços do combustível também é um empecilho. A tática de Julio e Josi para driblar o custoso obstáculo é passar mais tempo em cada lugar. Mas tem gente que se debruça sobre o mapa e traça extensos roteiros. Há um ano, a jornalista Flavia Trece e o engenheiro Thiago Almeida, de 34 anos, se preparam para cruzar o hemisfério, do Rio até o Alasca.

Eles montaram sua van com as próprias mãos, da instalação elétrica e hidráulica ao isolamento térmico e os móveis (aí, a experiência de Thiago com a construção civil veio bem a calhar). A decisão envolveu o pedido de demissão de Flavia, enquanto Thiago continua tocando projetos a distância. A dupla vendeu quase tudo o que tinha. “O desapego material foi até fácil, estar longe das pessoas que amamos é que será o mais duro”, pondera Flavia.

Do Rio ao Alasca: Flavia e Thiago se preparam há um ano para a viagem -
Do Rio ao Alasca: Flavia e Thiago se preparam há um ano para a viagem – Laura Paiva/Divulgação

Especialistas acreditam que o fenômeno da existência nômade veio para ficar. “A pandemia trouxe uma revisão do ambiente corporativo e naturalizou a cultura do home office. Hoje muitas empresas já definiram que não terão escritórios e incentivam a flexibilidade”, frisa Carlos Pellon, coordenador do MBA em gestão de recursos humanos da Escola de Negócios da PUC-­Rio. Para ele, os benefícios são mútuos, uma vez que o profissional amplia suas referências culturais, o que é valorizado especialmente em áreas criativas.

Em muitos casos, o próprio projeto da vida num motorhome, que inclui elaboração de conteúdo para as redes em todas as suas etapas, desde a montagem da nova morada sobre rodas até o roteiro, acaba se transformando em um trabalho paralelo — ou às vezes o principal. Para registrar sua experiência, Flavia e Thiago criaram no Instagram o perfil Vivendo Lá Fora, que já tem mais de 45 000 seguidores, isso antes mesmo de partirem. Pellon alerta que é preciso doses de equilíbrio na empreitada: “Pode soar como um mundo ideal, mas para se adaptar mesmo é necessário estabelecer uma rotina de produção, prazos e entregas, conciliando vida pessoal e profissional”, lembra o especialista.

arte Motorhome

Às vezes, o motorhome traz uma confortável trégua para quem vive pingando de um destino a outro. Tutores de Bono, o cão surfista que estrela um programa homônimo no Canal Off, o empresário Ivan Moreira e a publicitária Camila Tani já não aguentavam mais tirar e colocar tudo no carro, dormindo em diferentes hotéis onde se desenrolavam as gravações. Decidiram então alugar sua própria casa ambulante para expedições que, no último ano, se estenderam por 200 dias — tudo ao lado de mais três cachorros, além de Bono.

A última aventura da Família Surf Dog, até a Patagônia, durou setenta dias. A vida na estrada com os integrantes de quatro patas dá trabalho: “Em cenários de chuva e lama, é mais complicado limpar todos eles antes de entrar no carro e tem de brincar muito do lado de fora para gastar a energia”, fala Ivan, que divide as tarefas com a companheira — ele cuida da parte externa, como limpar o toldo, encher mangueira e caixa de água e esvaziar o banheiro químico (ou “porta potty”), enquanto ela fica encarregada da alimentação da família e da preservação do interior. Deu tão certo que já pensam em ter um veículo próprio. “A liberdade de poder ir para onde e quando quisermos vale muito a pena”, conclui ele.

Há, porém, grandes desafios envolvidos na passagem da vida sedentária à nômade. O espaço reduzido e novas rotinas, como o controle de água, energia e da internet em locais remotos, exigem tempo e atenção. Livio Hoffman e Dani Gutterman enfrentaram toda sorte de perrengue, como a falta de água em uma região desértica e uma abundante seca na Argentina: “Não tinha água para vender, fomos a todos os mercados, a uma empresa dessalinizadora e até nos bombeiros”, rememora Dani.

Em comparação a outros lugares do mundo, que possuem fartura de campings públicos e pontos de apoio para descarte de esgoto e abastecimento de água, o Brasil ainda tem muito o que avançar no campo da estrutura e da segurança. Não raro, os aventureiros passam a noite em postos de gasolina ou em ruas tranquilas sem saída, ou ainda em uma praia paradisíaca — o chamado wild camping. Mas isso começa a mudar. E ter o mundo como quintal compensa, não importa o clichê. “Poder conhecer pessoas, lugares e culturas e se sentir em casa em qualquer canto é incrível. Hoje me parece impossível voltar ao que era antes, viver dentro de um apartamento no Rio”, afirma Livio. A estrada o aguarda.

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