Viagem

Programa dois em um

Intercâmbios no exterior agora misturam o aprendizado do idioma a outros interesses, que vão da economia à arte

Por: Rachel Cardoso

Vancouver
(Foto: istockphoto)

Há cinco anos, o marítimo carioca Raimundo da Cruz, funcionário da Petrobras, decidiu que era hora de reciclar o inglês. Partiu de mala e cuia rumo a Toronto, no Canadá, onde passou quatro semanas hospedado numa casa de família, enquanto fazia aulas do idioma. “Aproveitei para reconhecer o terreno, pois já pensava em, mais tarde, enviar o meu filho à mesma cidade, quando completasse 18 anos. Dito e feito. Ele ficou três meses por lá e adorou”, conta. Não satisfeito por completo, em 2013 Raimundo embarcou para Londres, com o objetivo de fazer novas aulas. Dessa vez foram cinco semanas. “Em um país estrangeiro, você é obrigado a falar a língua local e acaba aprendendo na marra”, diz. O filho de Raimundo, Paulo Fellipe, hoje com 21 anos e estudando engenharia de produção na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), também tomou gosto pela coisa: acaba de voltar de Nova York, nos Estados Unidos, onde fez um curso de três anos em sua área de graduação. A dupla é um exemplo de uma atividade que só faz crescer: o intercâmbio no exterior. E os números desse mercado surpreendem. No ano passado, o setor movimentou 1 bilhão de dólares.

Quadro viagem
(Foto: Veja Rio)
Canadá
(Foto: Arquivo pessoal)

Nos últimos dez anos, os intercâmbios têm registrado uma evolução de 5% a 10% (ano após ano, sempre com números crescentes), segundo dados da Belta, sigla em inglês da Associação Brasileira de Organizadores de Viagens Educacionais e Culturais, entidade que reúne as principais empresas de intercâmbio. E já se percebe que, hoje em dia, todo tipo de gente busca uma oportunidade lá fora: o caso da família Cruz mostra que o intercambista não é apenas aquele jovem que procura uma experiência diferente no exterior enquanto aprende outro idioma. Uma nova tendência no mercado são os cursos que agregam algo mais à viagem. Para além do aprendizado da língua, programas mais modernos de intercâmbio podem juntar projetos culturais, cursos de gastronomia (com cor local) e até especialização profissional.

Nesse item se enquadra o executivo Luis Soares de Campos Júnior. Depois de deixar, em dezembro de 2013, o emprego de diretor de infraestrutura de uma empresa da área de saúde, Soares, de 49 anos, percebeu quanto uma falha grave de formação dificultava sua recolocação profissional: ele tinha um inglês paupérrimo. Para resolver o problema com a máxima urgência, investiu 20 000 dólares para fazer um programa de intercâmbio de trinta dias em Chicago, nos Estados Unidos. Escolheu um curso que conciliava as lições do idioma com um conteúdo de economia e negócios. “Voltei de lá mais fluente no inglês e enriquecido pela troca cultural com os alunos”, conta.

Quadro viagem
(Foto: Veja Rio)

Soares engrossa, assim, um mantra disseminado no setor: aprende melhor quem pratica com mais prazer. “É muito mais eficaz falar inglês dissertando sobre temas que são do seu interesse”, afirma José Carlos Hauer Santos Junior, presidente do Student Travel Bureau (STB), referência nesse mercado, com cerca de setenta endereços espalhados pelo país, e a cada ano procurado por um público mais variado: de 2012 para cá, a empresa registrou um aumento de 40% no número de clientes com mais de 40 anos, que podem, por exemplo, passar duas semanas em Tenerife, a maior ilha do arquipélago das Canárias, enquanto mergulham no aprendizado da língua espanhola. O custo é de 600 dólares e cobre apenas o curso — ou seja, o aluno precisa pagar passagens e hospedagem.

Feira de estudantes
(Foto: Divulgação)

Uma das principais concorrentes do STB é a Central de Intercâmbio (CI), que também oferece pacotes semelhantes. Um curso de inglês de duas semanas combinado a aulas de dança em Nova York sai por 2 000 dólares. Nesse caso, estão embutidas no preço as taxas de matrícula e uma acomodação em casa de família, com quarto individual e café da manhã. A Europa, por sua vez, também faz brilhar os olhos dos estudantes. Por 5 000 dólares é possível frequentar a Universidade de Artes de Londres em um módulo para estrangeiros que reúne aulas de idioma e de arquitetura. Dura cerca de um mês, e o preço inclui a matrícula e a hospedagem. “Os programas podem ser também customizados para todos os bolsos e gostos”, afirma Celso Garcia, sócio-­diretor da CI, com sessenta endereços espalhados pelo Brasil. “Essas viagens sempre rendem experiências únicas”, diz. Canadá, Estados Unidos e Inglaterra são campeões de procura, mas destinos como China e Nova Zelândia começam a ganhar espaço. “Um dos motivos para este bom momento é que as famílias brasileiras de classe média estão criando o hábito de fazer uma poupança para mandar os filhos para o exterior”, completa Santos Junior, do STB. 

Santos Junior
(Foto: Rodrigo Dionisio)

Central de Intercâmbio. Avenida Rio Branco, 181, Centro, Rio, ☎ 2524-7949, www.ci.com.br.› STB. Avenida Nilo Peçanha, 50/sala 3 103, Centro, Rio, ☎ 3526-7700, www.stb.com.br.

Fonte: VEJA RIO