TEATRO

Tragédia de tintas líricas

Impulsos indomáveis do ser humano estão no cerne de Desalinho, drama cheio de poesia em cartaz no Espaço Sesc

Por: Rafael Teixeira

AVALIAÇÃO ✪✪✪

Virgínia Boechat/divulgaçÃo
(Foto: Redação Veja rio)

Na primeira cena de Desalinho, um casal de jovens (vividos por Carolina Ferman e Gabriel Vaz) brinca alegremente de piq­ue-pega. Não fica claro imediatamente qual é a relação entre os dois, mas é óbvio o afeto profundo que nutrem um pelo outro. Na sequência, Mariana, a moça, encontra-se internada em um hospital psiquiátrico. Aos cuidados de uma enfermeira (papel de Kelzy Ecard), ela se vê às voltas com aparições fantasmagóricas do rapaz, cujo nome não é mencionado. Como logo se entenderá, trata-se de seu irmão - a quem, tudo indica, Mariana matou, apesar (ou por causa?) do amor quase incestuoso entre eles. Posto assim, o drama de Marcia Zanelatto poderia passar por uma tragédia oriunda de uma relação proibida, mas vai além: impregnado de poesia, o texto sugere uma reflexão sobre os impulsos indomáveis do ser humano, que nem séculos de civilização podem represar. A direção de Isaac Bernat, afinada com a dramaturgia, extrai lirismo de cenas simples na enxuta montagem, como aquela em que Mariana caminha sobre livros. No elenco, Carolina e Vaz se mostram convincentes na simbiótica relação dos irmãos. Ela, especialmente, exibe maturidade suficiente para não resvalar na caricatura de louca internada. Ótima como de hábito, Kelzy se equilibra entre o rigor e a emoção (65min). 16 anos. Estreou em 6/5/2014.

Espaço Sesc - Teatro de Arena (240 lugares). Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, ☎ 2548-1088. → Terça e quarta, 20h30. R$ 20,00. Bilheteria: a partir das 15h (ter. e qua.). Até 11 de junho.

Fonte: VEJA RIO