teatro

Ídolos da moçada

A comédia Garotos vira sucesso de bilheteria entre as adolescentes e estende sua temporada até o fim do ano na Gávea

Por: Carlos Henrique Braz - Atualizado em

Fernando lemos
(Foto: Redação Veja rio)

É um fenômeno com dia e hora marcados para se repetir. Aos sábados e domingos, logo depois do almoço, um movimento incomum toma conta do Shopping da Gávea. Turminhas de três, quatro ou mais adolescentes circulam ansiosas pelos corredores. De preferência, sem pai nem mãe. Do contrário, seria um tremendo mico. Faltando uma hora para o início da peça que está em cartaz desde junho no Teatro das Artes, uma pequena multidão de meninas com idade entre 12 e 17 anos se posiciona defronte à entrada da sala. Fica praticamente impossível andar por ali. Também se torna complicado tentar conversar naquelas redondezas. Assim como em um grande show de rock, quando chega a hora da abertura dos portões começa o empurra-empurra. A correria é grande. Mas quem chega na frente garante um bom lugar na plateia de Garotos, o novo fenômeno entre a meninada carioca. Considerado a versão masculina de Confissões de Adolescente, megassucesso nos anos 90 escrito pela atriz Maria Mariana com base em seus diários, o espetáculo já foi visto por 20?000 espectadores. ?A alegria deles é contagiante e o texto é maravilhoso?, avalia Carolina Guimarães, de 12 anos, que diz já ter assistido ao espetáculo ?quarenta vezes? . ?Eles também são lindos, né??, completa.

A sensação de bisbilhotar o que os rapazes conversam quando estão longe das moças é um dos principais motivos apontados para o sucesso da montagem. Mas a (rasa) dramaturgia não é a única razão de tanto interesse. Os cinco integrantes do elenco são rostos conhecidos do público juvenil por terem atuado em diferentes temporadas da novela Malhação e em outros programas da Rede Globo. De fato, parecem todos saídos da mesma fôrma. Com carinha de bons rapazes, físico esguio e sarado e vestindo o look sensação da temporada (camiseta com gola em V, blusão xadrez aberto, calça jeans e tênis coloridos), os atores Ivan Mendes, Gabriel Chadan, José Loreto, Caio Bucker e Rael Barja ? substituto temporário de Ícaro Silva, da formação original ? provocam um verdadeiro frisson entre as garotas. Algo parecido com o furor causado pelas típicas boy bands, a exemplo dos porto-riquenhos Menudos, nos anos 80, e, mais recentemente, dos ingleses do McFly e dos coloridos integrantes do Restart. Artigo infalível na arte da conquista feminina, todo o elenco se reveza ao violão para executar números cantados e dançados em um eclético repertório que vai de Carta ao Tom, de Toquinho e Vinicius de Moraes, a uma animada releitura de Rehab, de Amy Winehouse.

Fernando Lemos
(Foto: Redação Veja rio)

Recomendada para maiores de 14 anos, a peça escrita pelo roteirista Leandro Goulart aborda a fase das descobertas: sexualidade, paixões, perda da virgindade e imprevistos como a gravidez precoce da namorada de um dos personagens, o que, de fato, aconteceu com o ator Ivan Mendes, pai na vida real de Maria Clara, hoje com 6 anos. Ainda são levados ao palco assuntos polêmicos, como o abuso do álcool, o perigo das drogas e os conflitos com os pais durante esse período conturbado de transição entre a infância e a idade adulta. A montagem, porém, peca pelo excesso de realismo na reprodução dos hábitos desses rapazes. No texto há uma quantidade exagerada de expressões chulas, intercaladas, ao longo da encenação, por muitos gestos obscenos e brincadeiras de mau gosto. É bem verdade que isso é mais ou menos normal entre meninos em processo de autoafirmação. Mas, na hipótese de uma versão televisiva, as falas teriam de ser reescritas para se adequar à classificação etária dos telespectadores que atingem. Entre uma e outra demonstração do comportamento transgressor dos personagens, eles fazem desabafos sobre o fim do namoro ou elogios à garota amada. Conclusão: as jovens espectadoras suspiram e vão às lágrimas.

Fernando Lemos
(Foto: Redação Veja rio)

O sucesso do espetáculo, que foi prorrogado até dezembro na Gávea e ganhará sessões às quintas e sextas no NorteShopping, é comprovado novamente ao seu final. Na esperança de tocarem em um dos meninos, elas armam outra grande confusão nos corredores. ?Minha namorada fica observando de longe, não dá nem para chegar perto nessa hora?, afirma o ator José Loreto, que interpreta o personagem gay da trama e, junto com seus companheiros de palco, acaba rodeado por eufóricas mocinhas para uma interminável sessão de autógrafos e fotografias. Durante a apresentação no último domingo (28), ele fez uma leve reprimenda às espectadoras que sabem o texto de cor e repetem as falas junto com os protagonistas. ?É emocionante essa interação, mas acaba tirando a concentração do elenco?, justifica. A menina advertida tinha 13 anos e já viu a peça ?pelo menos umas quinze vezes?. Mesmo com a bronca e as repetições, ela garante que volta.

Fonte: VEJA RIO