TEATRO

Fim de Partida

Ótima montagem de um clássico de Samuel Beckett (1906-1989) está em cartaz na cidade

Por: Rafael Teixeira - Atualizado em

AVALIAÇÃO ✪✪✪✪

Lu Pitta/divulgação
(Foto: Redação Veja rio)

Ter uma ótima montagem de um clássico de Samuel Beckett (1906-1989) em cartaz na cidade já seria, por si, notícia digna de júbilo. No caso desta produção da companhia Alfândega 88, entretanto, há algo a mais para celebrar. Sob direção de Danielle Martins de Farias, uma das fundadoras da trupe,

o espetáculo resiste a desvios de rumo - não há a intenção de fazer experimentações temerárias a partir da obra nem de tornar a encenação mais palatável para o público. Trata-se, portanto, de um Beckett puro, fiel àquele da estreia, em abril de 1957. Escrito sob o clima do pós-guerra, o texto apresenta quatro insólitos personagens confinados no que parece ser um abrigo, isolados não se sabe exatamente do quê. Cego e preso a uma cadeira de rodas, Hamm (Leonardo Hinckel) é uma espécie de líder nesse inóspito lugar, cada vez mais carente de alimentos e remédios. Clov (Rafael Mannheimer), seu criado, é acometido por alguma doença que o impede de sentar-se. Por fim, seus pais, Nagg (Silvano Monteiro) e Nell (Adriana Seiffert), são velhos decrépitos que vivem dentro de galões de ferro. Em se tratando de Beckett, nome-chave do teatro do absurdo, não cabe aqui entrar em pormenores do enredo. Basta dizer que, por trás de diálogos de tintas surrealistas, se vislumbram sentidos e se estimulam reflexões muito contundentes sobre o fracasso da existência humana.

O alegado hermetismo da obra encontra contrapeso adequado no bom ritmo imposto pela direção e no excelente elenco (com destaque para Mannheimer). Atuações minuciosas reforçam o clima de esterilidade e desolação reinante (90min). 14 anos. Estreou em 12/2/2014.

Teatro Ipanema (222 lugares). Rua Prudente de Morais, 824, Ipanema, ☎ 2267-3750. → Terça e quarta, 21h. R$ 30,00. Bilheteria: a partir das 15h (ter. e qua.). Até 26 de março.

Fonte: VEJA RIO