TEATRO

Bela surpresa

Pouco encenada por causa de sua dificuldade, a farsa rodriguiana Dorotéia ganha montagem apurada

Por: Carlos Henrique Braz - Atualizado em

AVALIAÇÃO ✪✪✪??

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(Foto: Redação Veja rio)

Escrita por Nelson Rodrigues (1912-1980) no fim da década de 40, Dorotéia é considerada na classe teatral uma peça de difícil execução -- e, não por acaso, ganhou poucas montagens até hoje. No palco, a história da mulher que abandona a prostituição após a morte do filho e busca a redenção de seus pecados na casa de três tias viúvas é contada com altas doses de humor. O tom burlesco, que beira o nonsense, norteia as ações da protagonista cujo pior defeito é sua beleza. Para ser aceita pela família, ela precisa ficar feia, a exemplo das parentes, que trocam elogios a cada ruga ou espinha que brota em suas faces.

Um rosto bonito requisitado em novelas, Alinne Moraes sai-se surpreendentemente bem no papel-título. De perfil complexo, a personagem tem emoções conflitantes. Alterna risos e lágrimas, momentos de altivez e baixa autoestima. Parte do mérito pode ser creditada ao diretor João Fonseca, por extrair da artista todo o seu potencial cômico e dramático. Outro acerto foi entregar ao tarimbado Gilberto Gawronski a interpretação de dona Flávia, a matriarca do clã. Com maior número de falas, é ela quem dita o destino de suas irmãs Carmelita (Alexandre Pinheiro) e Maura (Paulo Verlings), além de zelar pela castidade da filha Das Dores (Keli Freitas), a quem humilha como se a estivesse acalentando. Também chamam atenção a cenografia sóbria de Nello Marrese, com paredes delimitadas por centenas de fitas e colares de contas pretas e transparentes, e os rebuscados figurinos da estilista gaúcha Thanara Schönardie, criados para as cinco mulheres da família e a vizinha dona Assunta da Abadia (Marcus Majella). Trata-se de uma produção esmerada, que cairia bem no horário nobre do fim de semana.

Dorotéia (90min). 14 anos. Estreou em 20/6/2012. Teatro Poeira (130 lugares). Rua São João Batista, 104, Botafogo, ☎ 2537-8053. Terça e quarta, 21h. R$ 50,00. Bi-lhe-teria: a partir das 15h (ter. e qua.). IC. Até dia 25

Fonte: VEJA RIO