TEATRO

Relações enjauladas

Episódio do passado põe família em xeque no texto do venezuelano Gustavo Ott em cartaz no Espaço Tom Jobim

Por: Rafael Teixeira

AVALIAÇÃO ✪✪✪

Mayra Vaz/Divulgação
(Foto: Redação Veja rio)

Contratada como veterinária de um zoológico da cidade, a jovem Carol (Yndara Barbosa) recebe a visita dos pais, Pablo (Vitor Fraga) e Karen (Ana Paula Novellino), em seu local de trabalho. Durante o passeio pelas alamedas, um orangotango encarcerado à parte dos demais símios chama a atenção do casal. Quando o pai questiona a razão do isolamento, a filha explica que o animal molestara outro do mesmo sexo, e por isso fora colocado de castigo. O episódio traz à tona uma memória antiga e, até então, meio soterrada na mente de Carol: quando ela era criança, Pablo esteve na cadeia por quarenta dias e ainda teve de pagar uma multa, mas ela nunca soube o porquê. Inquirido, ele diz ter sido condenado por matar o cachorro de estimação da família a pontapés. Motivo: o cão tentava fazer sexo com outro, também macho ? a rigor, portanto, a mesma justificativa para a quarentena do macaco no zoológico. A partir dessa premissa, que demolirá as relações entre os três, o drama Dois Amores e Um Bicho, do venezuelano Gustavo Ott, vai tecendo uma malha de significados por vezes implícitos, mas nem por isso irrelevantes. Desenvolvido como um jogo verbal que vai e vem no tempo, o enredo se preocupa antes em levantar questões do que em expor uma tese. Por trás dos diálogos, parece se impor a questão da violência, seja ela literal, como nos pontapés que mataram o cachorro da família, ou manifestada na intolerância, nos traumas e na incomunicabilidade. A direção de Guilherme Delgado sugere um aprisionamento, como o dos animais em suas jaulas: o espaço cênico (absolutamente despojado, com somente alguns animais de pelúcia dentro de gaiolas) fica rodeado pelo público. Já o elenco, completado por Luis Paulo Barreto, em diversos papéis secundários, exibe marcações contidas e muitas vezes enuncia suas falas olhando diretamente para os espectadores. No palco, Vitor Fraga tira melhor proveito das possibilidades de seu papel, transitando entre a agressividade e a vulnerabilidade (60min). 14 anos. Estreou em 5/7/2014.

Espaço Tom Jobim ? Galpão das Artes (40 lugares). Rua Jardim Botânico, 1008 (Jardim Botânico), ☎ 2274-7012. → Sexta e sábado, 21h; domingo, 20h. R$ 40,00. Bilheteria: a partir das 14h (sex. a dom.). Até 10 de agosto.

Fonte: VEJA RIO