cultura em conta

Dez boas peças em cartaz por até R$ 30

Preparamos uma seleção com dez espetáculos em cartaz na cidade que valem a pena e cabem no bolso

Por: Thaís Meinicke

Gonzagão - A Lenda
Gonzagão - A Lenda: musical inspirado em Luiz Gonzaga está em cartaz com ingressos a partir de R$ 20 (Foto: Leo Aversa/Divulgação)

Comemorado anualmente no país no dia 19 de gosto, o Dia do Artista de Teatro é uma forma de homenagear todos os profissionais que fazem da arte dos palcos sua forma de vida. Entre eles, estão não só atores e diretores, mas também os responsáveis pela sonoplastia, iluminação, figurino e outras funções que não costumam ficar evidentes aos olhos da plateia. 

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Para reverenciar estes profissionais que a cada sessão nos presenteiam com seu talento e, de quebra, mostrar ao público carioca que existem muitos espetáculos de qualidade a preços acessíveis nos mais variados palcos da cidade, preparamos uma lista com dez peças em cartaz no Rio que merecem os aplausos e podem ser assistidas sem prejudicar o orçamento. Confira nossas dicas e programe-se!

 

 

  • Apresentado pela primeira vez na edição de 2013 do Festival de Avignon, um dos mais celebrados eventos de artes cênicas do planeta, o drama da companhia Dos à Deux conquistou aplausos do exigente público do evento. Os méritos cabem a André Curti e Artur Luanda Ribeiro, brasileiros fundadores do grupo radicado em Paris: além de integrar o elenco, a dupla responde por dramaturgia, direção, coreografia e cenário do espetáculo. Marca da trajetória dos dois, o teatro gestual fundamenta a encenação. A história dos três irmãos do título (Curti, Ribeiro e Daniel Leuback) e de sua mãe (Raquel Iantas) é contada sem uma linha de diálogo, mas cheia de poesia. Não convém esmiuçar a trama, sob pena de estragar a tocante revelação do final. Em cena, o rigor espartano com que os atores desempenham um minucioso jogo de movimentos não se sobrepõe à emoção, amplificada graças ao visual deslumbrante da montagem.
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  • Monólogo

    BR-Trans
    Veja Rio
    Sem avaliação
    Entre os tantos méritos deste arrebatador monólogo, talvez o maior seja a capacidade de chamar a atenção do público para um assunto socialmente espinhoso — o preconceito e a violência física sofridos por travestis, transformistas e transexuais —, não se furtar a uma tomada de posição e, mesmo assim, preservar a sua integridade artística. O ator cearense Silvero Pereira está em cena e também assina a bem cerzida dramaturgia do espetáculo, uma reunião de histórias colhidas ao longo de uma pesquisa empreendida por ele em comunidades trans de várias partes do país. No palco, o artista recebe os espectadores na pele de seu alter ego, Gisele Almodóvar, para em seguida vivenciar esses relatos multiplicando-se por personagens cuja vida de certa forma se confunde com a do próprio Pereira. Em pegada algo performática (encampada na cenografia e na luz), a encenação mescla linguagens, notadamente a música, com o ator escoltado pelo instrumentista Rodrigo Apolinário em canções como Geni e o Zepelim, de Chico Buarque, e Três Travestis, de Caetano Veloso. A direção da gaúcha Jezebel De Carli é na maior parte do tempo bem-sucedida na articulação das histórias, garantindo boa fluência. Decisiva para o êxito, porém, é a interpretação de Pereira, desenvolta, de modo a fazer o trabalhoso parecer fácil, além de tocante em sua entrega e coragem.
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  • Alvo de permanente polêmica, Nelson Rodrigues (1912-1980) certa vez se deu à pachorra de explicar a própria obra. "As senhoras me dizem: 'Eu queria que os seus personagens fossem como todo mundo'. E não ocorre a ninguém que os meus personagens são como todo mundo, daí a repulsa que provocam." Faz sentido, portanto, que as figuras criadas pelo autor para este drama estejam misturadas à plateia na montagem da Cia. Teatro Portátil. Ao longo do espetáculo, elas vão das cadeiras ao palco, e vice-versa, para contar a história de Edgard (Guilherme Miranda). O ex-contínuo recebe uma proposta que o fará subir na vida: para tanto, deve se casar com Maria Cecília (Julia Schaeffer), filha de seu patrão, o rico doutor Werneck (Edmilson Barros, substituindo Marcello Escorel nesta temporada). O rapaz, no entanto, é apaixonado por Ritinha (Elisa Pinheiro), moça pobre que faz de tudo para sustentar a mãe e as irmãs mais novas. A direção de Alexandre Boccanera reforça nos atores o uso da voz e despe um tanto a montagem de seu aspecto sexual ou escandaloso - o que evidencia ainda mais a reconhecida carpintaria dramática de Nelson. No elenco equilibrado (formado ainda por Ana Moura, Anderson Cunha, Diego de Abreu, Edmilson Barros, Ingrid Conte e Morena Cattoni), Elisa aproveita com gosto, mas sem histrionismo, as possibilidades do seu papel, de pureza aparente.
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  • Nas rubricas iniciais do texto de Cock, o autor, Mike Bartlett, indica como a peça deve ser montada: "Não há cenário, objetos, mobília nem mímica. Em vez disso, o foco é exclusivamente o conflito das cenas". Encampada à risca, tal proposta de despojamento é o primeiro detalhe a chamar atenção nesta montagem. Também "nus", de certa forma, estão os personagens. John (Felipe Lima) vive há sete anos com um homem (Luiz Henrique Nogueira, substituindo Márcio Machado nesta temporada), mas se vê dividido ao conhecer uma mulher (Débora Lamm, exuberante). Esses últimos vértices do triângulo amoroso não são nomeados. Tudo parece girar em torno de John e sua inabilidade para escolher o que é melhor para si - e, em última análise, saber quem é (tema, ressalte-se, caro a Bartlett). Todas as inseguranças do trio virão à tona em um jantar promovido por John, ao qual comparece o pai de seu parceiro (papel de Helio Ribeiro). Na ocasião, espera-se, o protagonista optará por ele ou ela. A direção de Inez Viana investe na dinâmica entre os atores, cujas falas são valorizadas ante a crueza da cena. 
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  • Em 2012, quando foi comemorado o seu centenário de nascimento, Luiz Gonzaga foi alvo de uma série de homenagens. Nada mais justo com o rei do baião, autor de clássicos incontornáveis do cancioneiro nacional como O Xote das Meninas e Asa Branca. Comovente e, ao mesmo tempo, divertido, o musical Gonzagão - A Lenda, é um dos mais acertados tributos prestados ao cantor, compositor e sanfoneiro. No maior trunfo do espetáculo, dirigido pelo também pernambucano João Falcão, pequenas subversões evitam o caminho fácil da biografia linear. Em cena, duas tramas se entrecruzam. Na primeira, uma companhia teatral nômade, situada em futuro indeterminado e local indefinido, propõe-se a contar o que seus integrantes chamam de "lenda do rei Luiz". A outra história é a de Gonzagão, narrada pelos personagens. Adrén Alves, Alfredo Del Penho, Eduardo Rios, Fábio Enriquez, Larissa Luz, Marcelo Mimoso, Renato Luciano, Ricca Barros e Thomás Aquino vivem os integrantes da tal trupe e se multiplicam por tipos que cruzam a trajetória do músico. Curiosidade: todos, em algum momento, encarnam o homenageado. Com carisma contagiante e boa performance vocal, apresentam mais de quarenta canções, escoltados por quatro afiados instrumentistas. Em outra bem-sucedida ousadia, os arranjos não emulam os originais, ao contrário, mas preservam inconfundível toque regional. Essa mesma qualidade é verificada nos figurinos e adereços estilizados: ambos fogem do óbvio sem deixar de evocar o Nordeste.
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  • Comédia

    2500 por Hora
    Veja Rio
    Sem avaliação
    Escrita pelos franceses Jacques Livchine e Hervée de Lafond, a comédia 2 500 por Hora parte de uma ideia tão simples quanto aparentemente hercúleo é o trabalho de desenvolvê-la: condensar, como sugere o título, 2,5 milênios de história do teatro em sessenta minutos (na verdade, uma troça só revelada em dado momento do espetáculo, que dura meia hora a mais). Cenas de Eurípides, Shakespeare, Tchekov e Beckett, entre tantos outros, são alinhavadas e pontuadas pela exposição de momentos-chave dessa trajetória — um tanto didáticas, o que a direção de Moacir Chaves abraça e equilibra com injeções de humor. Na adaptação de Monica Biel (também no elenco com Henrique Juliano, Claudio Gabriel, Joelson Medeiros e Júlia Marini, com destaque para os três últimos) acrescenta-se ao desafio original a inclusão, bem-sucedida, diga-se, da história do teatro brasileiro, representado por nomes como João Caetano e Nelson Rodrigues. A ausência de um ou outro ícone das artes cênicas pode eventualmente ser sentida por conhecedores, sem que isso comprometa o prazer do público.
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  • O drama de Marcia Zanelatto se passa em uma favela do Rio, onde um pai, traficante na década de 80, e sua filha, que seguiu seu caminho, se reencontram depois de muitos anos. Geandra Nobre, Jaqueline Andrade, Phellipe Azevedo, Rodrigo Souza e Wallace Lino estão no elenco. Direção de Isabel Penoni.
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  • Nos últimos anos, com a recorrência de musicais biográficos no circuito, tornou-se um clichê dizer que alguns atores mimetizam e até incorporam os homenageados. Protagonista de Amargo Fruto – A Vida de Billie Holiday, Lilian Valeska percorre outro caminho: salvo por algumas inflexões e timbres particulares da diva do jazz, a atriz foge do expediente ao mesmo tempo sedutor e virtualmente desastroso de imitar o inimitável. No entanto, canções como God Bless the Child, Speak Low, Summertime e, claro, Strange Fruit (o belo hino antirracismo que empresta nome à peça) são interpretadas com tamanha alma que, para o espectador, é quase como se Lady Day em pessoa estivesse em cena. Desenvolvido em conjunto por Jau Sant’Angelo e a diretora Ticiana Studart, o texto apresenta a trajetória de Billie (1915-1959) com pegada mais narrativa, diluindo um tanto o potencial dramático de sua vida – a infância miserável, o estupro sofrido aos 10 anos, a experiência como prostituta, as relações nem sempre harmoniosas com músicos e gravadoras, os casamentos falidos e a autodestruição pelas drogas. Vilma Melo e Milton Filho, multiplicados em vários papéis, se empenham com relativo êxito na tarefa de dar mais substância à dramaturgia. Nada disso, entretanto, parece importar quando Lilian (escoltada por um exímio quarteto de jazz, vestida com os lindos figurinos de Marcelo Marques e emoldurada pelo acertado cenário de Aurora dos Campos e a deslumbrante luz de Paulo César Medeiros) solta a voz.
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  • Mulher aparentemente acima de qualquer suspeita (papel de Débora Falabella) participa de entrevista com uma assistente social (Anapaula Csernik) para conseguir adotar um bebê. A situação seria banal, não fosse a presença de um lobo de postura ereta, vestido de terno e gravata (vivido por Diego Dac), trabalhando no lugar. A essa esquisitice acrescenta-se o comportamento um tanto errático, por vezes francamente nonsense, da candidata, o que obriga a convocação de seu marido (Jorge Emil). Indicado ao Prêmio APCA pelo texto de Silvia Gomez, o drama Mantenha Fora do Alcance do Bebê abraça sem reservas o surrealismo para refletir sobre o desespero humano escondido sob a necessidade de domesticação dos sentimentos e padronização das atitudes. A direção de Eric Lenate não foge à proposta em uma encenação de humor estranho, nervoso e árido. Com interpretações apropriadamente frias e pontuadas por rasgos de fúria, o elenco entra no jogo iluminado pelo embate entre Anapaula e Débora, dois lados igualmente desolados de uma mesma moeda.
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Fonte: VEJA RIO