REALISMO ABSURDO

Peça renegada de Harold Pinter ganha montagem

Especialista no autor, Ary Coslov dirige encenação de A Estufa, escrita em 1958 e só montada pela primeira vez em 1980

Por: Rafael Teixeira - Atualizado em

AVALIAÇÃO ✪✪✪✪

a estufa
Mario Borges e Isio Ghelman: comédia de tintas absurdas (Foto: Guga Melgar)

Uma das primeiras peças do inglês Harold Pinter (1930-2008), escrita em 1958, esta comédia foi engavetada por seu autor, quea considerava fantasiosa demais até mesmo para os padrões de absurdo que ele viria a estabelecer em sua dramaturgia. A primeira montagem só sairia em 1980, dirigida pelo próprio Pinter — diante da complexidade da geopolítica mundial, com violações de direitos humanos tanto por ditaduras quanto por democracias, ele passou a julgar seu texto mais real. A história se passa em uma instituição cuja natureza é ambígua. Sabe-se somente que pessoas (identificadas apenas por números) estão internadas ali, mas não fica claro se são doentes, loucos ou prisioneiros políticos. Em um dia de Natal, o estressado Roote (Mario Borges, excelente), diretor do lugar, recebe do subalterno Gibbs (Isio Ghelman, contraponto perfeito em sua contenção) a notícia de que um interno foi encontrado morto e uma interna deu à luz um bebê. A partir daí, vaise tecendo um enredo de tintas tragicômicase algo absurdas. Longe de entregar respostas, como de hábito, Pinter sugere reflexões — aqui notadamente sobre burocracia, políticae poder. Especialista no autor, o diretor Ary Coslov (também responsável pela sugestiva cenografia descarnada) dá bom ritmo à montagem e preserva a sensação de estranheza já sugerida no texto, sem sublinhá-la além da conta. Completado por Marcelo Aquino, Paula Burlamaquy, Pedro Neschling e Thiago Justino, o bom elenco transita com segurança pelas ambiguidades da dramaturgia e de seus personagens (80 min). 12 anos. Estreou em 12/9/2014.

Casa de Cultura Laura Alvim — Teatro(245 lugares). Avenida Vieira Souto, 176, Ipanema, ☎ 2332-2015. → Quinta a sábado, 21h; domingo, 20h. R$ 40,00. Bilheteria:a partir das 16h (qui. a dom.). CI.Até 2 de novembro.

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Fonte: VEJA RIO