DIVERSÃO

Atrás das cortinas

Obcecada por horários e organização, a coordenadora artística dos principais musicais da cidade se tornou uma especialista em pôr ordem no caos

Por: Rafael Teixeira - Atualizado em

Foto Fernando Lemos
(Foto: Redação Veja rio)
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(Foto: Redação Veja rio)

Com 32 espetáculos no currículo, a dupla Charles Möeller e Claudio Botelho tornou-se a maior referência no teatro musical brasileiro. No momento, eles têm nada menos do que três montagens em cartaz simultaneamente, todas sempre com sessões lotadas: O Mágico de Oz e Milton Nascimento ? Nada Será como Antes, em São Paulo, e Como Vencer na Vida sem Fazer Força, no Rio. Um dos ingredientes mais importantes na receita desse sucesso, mas praticamente invisível aos olhos do público, atende pelo longo nome de Anna Christina Salles Coelho de Araujo Pinho ? ou simplesmente Tininha. O diminutivo do apelido é mais condizente com sua estatura de 1,62 metro, mas inversamente proporcional ao tamanho de sua responsabilidade. Como coordenadora artística das produções da dupla, essa carioca de 45 anos, solteira ? "casada com o trabalho", segundo a própria ?, zela por absolutamente tudo que diz respeito às encenações. "Ela é a minha patroa", resume Möeller, com o endosso do colega.

Produzir um espetáculo com dezenas de atores-cantores em cena, música ao vivo, cenários elaborados e um batalhão de funcionários nos bastidores é uma tarefa de extrema complexidade. No caso das produções dos diretores Möeller e Botelho, há nítidas impressões digitais de Tininha em todas as etapas do processo ? da gênese da ideia à peça finalizada. De saída, é parte de suas funções auxiliar na escolha da equipe, desde os técnicos e músicos até os integrantes do elenco. Foi por intermédio dela, por exemplo, que a dupla de realizadores conheceu há seis anos a atriz Tatih Köhler, atualmente em cartaz em Milton Nascimento ? Nada Será como Antes. Na ocasião, os dois ficaram tão impressionados que criaram especialmente para ela um personagem em 7 ? O Musical, espetáculo que montaram em 2007. Também é Tininha quem supervisiona o trabalho de todas as áreas envolvidas na montagem ? orquestra, coreografia, figurino, cenografia, entre tantas outras ?, funcionando como elo entre elas. De uma peruca esquisita a um instrumentista desafinado, ela resolve (veja o quadro ao lado). "Tininha é o maestro até mesmo do maestro", diz Gregorio Duvivier, que encarna o protagonista J.P. Finch em Como Vencer na Vida sem Fazer Força.

De todos os seus talentos, entretanto, nenhum é tão lembrado quanto o de planejar horários. No primeiro dia de ensaios, Tininha já tem organizado todo o cronograma até a estreia. Ao contrário do que ocorre na maioria das produções teatrais, o regime implantado por ela é de pontualidade britânica. "Tudo tem hora para começar e para terminar. Assim, todo mundo se sente mais respeitado", explica Tininha, conhecida por gerir mil e um problemas sem levantar a voz em momento algum. Nessa silenciosa organização, cabe a ela administrar questões mais específicas, como intercalar ensaios de dança e canto, para não forçar demasiadamente os músculos ou a voz do elenco. E ainda pensar nos atores com demandas especiais, como aqueles que têm outros trabalhos enquanto ensaiam. Tal competência originou até uma piada no meio. "Quando atores que já trabalharam com a gente estão em produções menos organizadas, eles dizem que está faltando Tininha", lembra Botelho.

A relação de Tininha com a dupla começou há treze anos, por acaso. Filha de um advogado e uma dona de casa, ela se formou em engenharia de sistemas e fez mestrado em engenharia biomédica. Apaixonada por filmes e peças, começou a trabalhar em produção ao lado do cineasta Walter Lima Jr., com quem havia feito um curso. Migrou para o teatro pelas mãos da autora e diretora Karen Acioly. Foi em um musical infantil de Karen que conheceu a cantora e atriz Gottsha, parte do elenco de Cole Porter ? Ele Nunca Disse que Me Amava, encenada por Möeller e Botelho em 2000. "Fiquei louca quando vi o espetáculo e pedi o telefone do Charles para Gottsha. Liguei, ofereci-me para trabalhar com eles, e deu certo", conta. A relação profissional convive com uma profunda amizade ? ela é presença constante nos jantares dos parceiros e em viagens a Nova York e Londres, onde conferem dezenas de musicais. Fiéis ao bordão que a tornou conhecida, ambos reconhecem que na vida deles pode faltar tudo, menos Tininha.

Fonte: VEJA RIO