cultura

Preciosidades reveladas

Exposição que reúne setenta obras garimpadas em sete acervos particulares do Rio de Janeiro mostra a variedade e a opulência de tesouros que fariam bela figura em qualquer museu do mundo

Por: Daniel Hessel Teich e Sofia Cerqueira - Atualizado em

Renato Velasco
(Foto: Redação Veja rio)
Auguste Rodin

A estatueta O Beijo, de 1900, é uma miniatura de 40 centímetros da obra original, que tem 1,90 metro

Apaixonados por arte que se aventuram pelos principais museus da cidade dificilmente saem decepcionados no que diz respeito a peças barrocas ou registros de pintores como Taunay, Rugendas e Debret, os chamados viajantes do início do século XIX. Mas quem procura criações dos grandes mestres europeus fica bastante desapontado, sem quase nada para ver. Isso não significa que o Rio seja pobre em obras que representam o cânone artístico ocidental. Longe dos olhos da multidão, em mansões e apartamentos elegantes da Zona Sul, estão guardadas preciosidades que poderiam figurar nas melhores galerias do mundo. Prova inequívoca disso é a exposição Paixões Privadas ? Arte Europeia nas Coleções Particulares do Rio de Janeiro, que exibe um punhado dessas joias a partir de quinta-feira (29), nos salões do Centro Cultural Correios. São setenta trabalhos, entre pinturas a óleo, desenhos, aquarelas e esculturas com o que há de mais significativo em sete acervos particulares. ?Cheguei a levantar 100 obras dignas de ser exibidas, mas trinta delas ficaram de fora por limitações de espaço, custo do seguro ou recusa dos proprietários em cedê-las?, conta Romaric Sulger Büel, ex-adido cultural do Consulado da França e organizador da mostra.

Marc Chagall

Óleo sobre tela, de 1972, é parte da coleção

do jornalista e empresário Roberto Marinho, morto em 2003

reprodução cristiana isidoro
(Foto: Redação Veja rio)
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(Foto: Redação Veja rio)
Pierre-Auguste Renoir

Batizada de Busto de Coco, a obra representa com louvor o impressionismo francês na exposiçãoPierre-Auguste Renoir Batizada de Busto de Coco, a obra representa com louvor o impressionismo francês na exposição

Mesmo com algumas baixas, a seleção que virá a público é espantosa. Ela começa com raridades greco-romanas, como uma ânfora de 2?500 anos, uma cabeça de Alexandre, o Grande, e uma estatueta de mármore chamada Alegoria da Fortuna, essas duas últimas produzidas entre os séculos I e III a.C. Toma o caminho dos mestres flamengos do século XV e segue até o século XX, com criações de Wassilly Kandinsky, Fernand Leger e Marc Chagall, passando por uma tela de Pierre-Auguste Renoir (Busto de Coco, retratando seu filho Claude) e uma escultura de Auguste Rodin (uma miniatura do célebre O Beijo, de 1900). Entre tantos trabalhos de primeiríssima linha, surpreende um do pintor flamengo Hieronymus Bosch (1450-1519), famoso por seus quadros e trípticos religiosos repletos de figuras grotescas e bizarras. Batizada de Cabeça de um Executor, a pintura a óleo sobre madeira lembra muito outra do artista, Cabeça de Alabardeiro, do acervo do Museu do Prado, em Madri. ?Mostrar um Bosch é um privilégio. Não sei de nenhum outro quadro em coleções particulares no Rio ou no resto do Brasil?, diz Büel. Ele mantém o nome de colecionador em absoluto sigilo, condição para o empréstimo. Mas revela que se trata de um ávido frequentador das casas de leilão Sotheby?s e Christie?s.

fotos reprodução renato velasco
(Foto: Redação Veja rio)
Fernand Léger

O desenho Rodas de Carrinho, de 1943, foi produzido pelo cubista francês em uma viagem ao Canadá

Convencer um colecionador a se separar de suas amadas e valiosas peças, nem que seja por poucas semanas, é geralmente complicado. Seja em Paris, Nova York ou no Rio, isso pode exigir longas negociações e muita lábia. Organizador de mostras bem-sucedidas como a de Claude Monet, de 1996, e Picasso ? Os Anos de Guerra, em 1999, Büel tem talento para tanto. Para organizar Paixões Privadas ele levou quase quinze anos. Sua inspiração foram duas exposições nos mesmos moldes realizadas na França. A primeira aconteceu em Marselha, há 25 anos, quando o museu público da cidade reuniu diversos proprietários de obras de arte em torno de um evento batizado de Ils Collectionnent (Eles Colecionam, em português). No início dos anos 90, o Museu de Arte Moderna de Paris, com curadoria de Suzanne Pag, montou um encontro parecido com o título de Passions Privées (Paixões Privadas), que Büel, como fez com os quadros cariocas, tomou emprestado. ?Trata-se de uma chance única, com várias obras expostas pela primeira vez. É uma forma também de incentivar o gosto pela arte e despertar novos colecionadores?, afirma ele.

fernando frazão
(Foto: Redação Veja rio)

O projeto foi se tornando realidade a partir de meados de 2009. Foi quando ele passou a formalizar os pedidos propriamente ditos. Para isso, valeu-se de uma vasta rede de relacionamentos na sociedade ? foi, por exemplo, amigo íntimo de Lilly Marinho, viúva do fundador das Organizações Globo, Roberto Marinho, até sua morte, em janeiro. ?Quando comecei, já conhecia praticamente todas as coleções?, explica. Para selecionar as obras, visitou pelo menos cinco vezes cada acervo, até chegar ao número ideal para a mostra. Em alguns casos, foram semanas de telefonemas, inúmeros e-mails e demoradas conversas pessoais. Alguns aceitaram ceder as peças porque acharam importante para a vida cultural da cidade ? caso do proprietário do Hieronymus Bosch. Outros, bem mais pragmáticos, sabiam que aparecer num bom catálogo ajuda a valorizar a obra. ?Mas houve aqueles que não quiseram nem conversar, de tão apegados?, diz Büel.

Fernando Lemos
(Foto: Redação Veja rio)
Renato Velasco
(Foto: Redação Veja rio)

As peregrinações do curador pelo grand monde carioca comprovaram a opulência dos acervos particulares. Ele recorda que o dono do Renoir cedido à exposição possuía várias telas do impressionista francês em casa. É obvio que Büel tentou conseguir o maior número possível delas, mas as negociações acabaram restritas a uma só ? e ponto final. Entre as obras selecionadas de outro colecionador, havia uma pintura do cubista Fernand Léger, um dos mais importantes representantes do movimento que teve Picasso como seu maior expoente. O problema é que, avaliado em cerca de 30 milhões de reais pelo proprietário, o quadro exigiria um seguro tão alto que se tornou inviável levá-lo para a mostra.

Na falta desse, será possível ver um trabalho do artista de valor, digamos, mais acessível, o desenho Rodas de Carrinho, de 1943. ?Meu pai o comprou em uma galeria de São Paulo em 1977. Depois de ser avaliado na França, acabamos descobrindo que foi feito no Canadá, onde Léger adorava passar o verão?, relata a museóloga Jacqueline Finkelstein, herdeira do criador da coleção, o joalheiro Lucien Finkelstein, que morreu em 2008. Também são do acervo da família as relíquias greco-romanas e mais nove obras, entre elas a tela Paisagem de Montmartre sob a Neve, de Maurice Utrillo. ?Decidimos participar porque achamos interessante a proposta de compartilhar parte de nossa coleção?, diz Jacqueline. Em meio às negociações que conduziu, Büel lamenta mesmo não ter conseguido um Van Gogh. ?Não houve argumento que convencesse o proprietário a cedê-lo.?

Fernando Lemos
(Foto: Redação Veja rio)
Ânfora Grega

A peça, de mais de 2?500 anos, compõe o segmento de obras clássicas da mostra

renato velasco
(Foto: Redação Veja rio)

Entre os sete colecionadores que emprestaram seus tesouros, há personalidades tradicionais no mundo das artes. Da mansão da família Marinho no Cosme Velho, saíram o quadro de Chagall que aparece na abertura desta reportagem, um dos orgulhos do fundador da Rede Globo, e outros seis trabalhos. O colecionador Carlos Leal, dono da editora Francisco Alves e de mais de 500 obras, a maioria fotografias históricas, contribuiu com duas imagens originais do fotógrafo francês Felix Nadar, o mais famoso retratista da França do século XIX e início do século XX. O casal Geneviève e Jean Boghici, galeristas e donos de um acervo pessoal de mais de 1?000 peças, está entre os mais generosos colaboradores da mostra. Pertencem a eles a escultura Cabeça, de Amedeo Modigliani, bronze de uma tiragem de dez unidades feita a partir de um original de granito, a pintura a guache Bicho em Fundo Preto, do russo Kandinsky, de 1940, e a miniatura de O Beijo, de Rodin, uma das primeiras feitas pelo autor com base na escultura original, que tem 1,90 metro de altura.

divulgação
(Foto: Redação Veja rio)

A forma como a peça de 40 centímetros produzida pelo genial escultor francês chegou às mãos do galerista é um exemplo de quanto esse mercado é regido pela imponderabilidade. Ela foi oferecida a Boghici por um argentino de passagem pelo Rio, no início dos anos 70. Apesar de assinada, não dispunha de nenhum certificado de autenticidade. ?O preço não era alto, e eu confiei porque os traços eram muito característicos?, recorda o colecionador nascido na Romênia e naturalizado brasileiro. Depois da compra, ele pediu uma avaliação ao Museu Rodin, em Paris. A autenticidade foi certificada e os especialistas chamaram atenção para o carimbo de uma galeria argentina que havia em sua base. Lembraram que, no começo do século XX, Buenos Aires era um dos maiores mercados consumidores de arte do mundo, graças ao período de riqueza que o vizinho país vivia. ?Hoje uma estatueta como essa não sai por menos de 1 milhão de dólares?, avalia o marchand, de 83 anos.

[---FI---]

A exposição Paixões Privadas acontece em um momento particularmente alvissareiro. Mais do que nunca, o carioca tem demonstrado prazer e vontade de frequentar eventos desse tipo. A realização da ArtRio, idealizada com foco na venda por galeristas, atraiu 48?000 pessoas ao Cais do Porto, mais que o dobro do esperado. Em sua esmagadora maioria, elas foram até lá apenas para apreciar as peças nos estandes, sem nenhum interesse (leia-se dinheiro) em adquiri-las. A exibição temporária O Mundo Mágico de Escher, do artista gráfico holandês Maurits Cornelis Escher, trazida do Haags Gemeente-museum, na cidade de Haia, superou igualmente todas as expectativas, levando mais de meio milhão de visitantes ao Centro Cultural Banco do Brasil em janeiro. Em seus últimos dias, as filas para apreciar as 400 obras instaladas no local não levavam menos de duas horas, corajosamente enfrentadas.

Da mesma maneira que acontece com os shows de rock, o Rio parece, aos poucos, estar entrando na rota das grandes exibições internacionais. No ano passado, desembarcaram por aqui mostras de natureza e tamanho diferentes, mas todas com ótimo público. No Centro Cultural da Caixa, o carioca teve a oportunidade de ver trabalhos de Keith Haring, pintor americano dos anos 90 fortemente influenciado pela cultura pop. No CCBB, puderam ser conferidas peças de rara beleza na exposição Islã, que trouxe à cidade obras com treze séculos de história. Esse fenômeno é um sinal de que o Rio consome arte, basta que seja de qualidade?, diz Marcelo Mendonça, diretor do CCBB do Rio. No caso de Paixões Privadas, é o que tem de sobra.

Fonte: VEJA RIO