MÚSICA

Enfim, a harmonia

Com o acordo selado entre os músicos insurgentes e a fundação a que está subordinada, a OSB encontra a paz para buscar seu objetivo de ser reconhecida como uma das melhores orquestras da América Latina

Por: Rafael Teixeira - Atualizado em

Fernando Frazão
(Foto: Redação Veja rio)

Ao término do primeiro concerto desta temporada sob a regência de Roberto Minczuk, no dia 27 de agosto, a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) recebeu aplausos efusivos da plateia no Theatro Municipal. No meio da ovação, uma senhora na primeira fila se levantou para entregar uma rosa ao maestro, que prontamente foi até a beira do palco apanhá-la. Era a apresentação de estreia do conjunto em 2011 sob a batuta do titular, após seis récitas comandadas por um convidado, o franco-americano Lorin Maazel. Carregado de simbolismo, o gesto pareceu demarcar o fim de um dos conflitos mais renitentes nos 71 anos de história do grupo. Ao pegar a flor, Minc­zuk sinalizou que deixava para trás uma crise de grande proporção para se reconciliar com o público ? e, de certa forma, com seu próprio conjunto. Afinal, ele tinha sido o pivô da pendenga que resultou no afastamento, de uma só tacada, de 36 instrumentistas, numa resposta à rebelião de parte dos músicos contra o recém-instituí­do sistema de avaliação de desempenho. Na semana seguinte ao espetáculo e após arrastada negociação, os dois lados envolvidos assinaram um acordo que revogou todas as demissões, e a OSB, por sua vez, pôde recobrar a tranquilidade para trabalhar. Feliz com a harmonia de volta, o público agradece à sua maneira, lotando plateias, balcões e galerias do centenário teatro, com manifestações entusiasmadas ao final. "Estamos muito contentes com a qualidade apresentada", diz Eleazar de Carvalho Filho, presidente da fundação (não confundir com seu pai, de mesmo nome, que regeu com louvor a OSB e a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, Osesp). "Com o decorrer dos ensaios, a tendência é que o entrosamento se encaminhe para o ideal."

Os novos tempos de paz possibilitam que a entidade volte a focalizar seu ambicioso projeto para os próximos cinco anos: o reconhecimento da OSB como uma das melhores orquestras da América Latina. A julgar pela trajetória recente, é uma meta com boas perspectivas de se concretizar. Desde que assumiu o posto de regente titular, há pouco mais de seis anos, o paulista Roberto Minczuk tem sido fundamental para o amadurecimento da orquestra. Nesse período, o grupo deu um salto em diversos patamares. O salário dos músicos, o faturamento anual e a quantidade de concertos se multiplicaram. Sem falar na musicalidade, da mesma forma em franca evolução. Se tudo parecia ir tão bem, por que a sinfônica desandou neste ano? O imbróglio que deixou a OSB paralisada teve origem num problema de relacionamento entre o maestro e parte de seus subordinados. Ele era visto como um déspota, e os insurgentes, por sua vez, foram tachados de corporativistas e descompromissados. Ao menos no papel, a desavença está superada, com motivos para ambos os lados comemorarem. Pelo acordo firmado há três semanas, 26 músicos foram reintegrados à fundação. Eles farão parte de um segundo corpo orquestral, que não terá contato com Minczuk. Pouco se sabe concretamente sobre o funcionamento dessa "OSB do B", digamos assim. A gestão dessa dissidência ficará sob a alçada da direção artística da fundação, ocupada pelo produtor Fernando Bicudo e pelo compositor Pablo Castellar desde julho, quando Minczuk se desligou do cargo para se dedicar exclusivamente à regência. O pacto estabelece ainda que, salvo por motivo excepcional, como disciplinar, os readmitidos terão contrato de trabalho até agosto de 2013 e estão livres de ser submetidos a qualquer avaliação de desempenho.

[---FI---]

A missão que une agora maestro e direção artística é a recomposição do corpo orquestral. Dos 82 músicos que ocupavam as estantes da OSB na temporada passada, quarenta passaram incólumes pela crise e permaneceram. A eles se somaram onze instrumentistas contratados em regime temporário e seis brasileiros aprovados nas audiências realizadas neste ano, totalizando 57 pessoas. Há ainda treze estrangeiros que tiveram seu visto liberado apenas na semana passada e devem ser integrados até o fim do ano. Mesmo com esse reforço, o total de setenta componentes é considerado baixo, e não há novas audições programadas. Para efeito de comparação, a Orquestra Petrobras Sinfônica reúne 81 integrantes em seus naipes. Outras similares nacionais também possuem contingentes maiores que o da OSB: a Filarmônica de Minas Gerais tem 85 instrumentistas, e a Osesp, 108. Com seu atual número de músicos, a OSB não está apta a executar nenhuma das sinfonias de Mahler, por exemplo, nem grande parte do repertório do século XX. Mesmo com a possibilidade de contratar os chamados "cachês", para apenas um concerto, pode pesar a falta de entrosamento. Alguns naipes foram seriamente desfalcados, como o dos violinistas, que tinha 25 pessoas e hoje tem quinze. O grupo perdeu também seu spalla, peça-chave que atua como líder nas estantes e é o interlocutor entre o regente e os músicos. Alguns instrumentistas da própria OSB e outros convidados têm se revezado na função.

No processo de reformulação, o maior desafio é mesmo adquirir entrosamento. "O problema agora não é técnico, pois a OSB tem muita gente de qualidade", diz André Cardoso, diretor da Escola de Música da UFRJ. "A grande arte vai ser conciliar as eventuais divergências em nome de objetivos comuns." Um vídeo postado recentemente no YouTube insinua que o clima é amistoso. Minczuk, diretores da fundação e músicos aparecem tocando Cidade Maravilhosa no restaurante Amarelinho, na Cinelândia, logo após o primeiro concerto do Theatro Municipal. "A relação nos bastidores está muito tranquila. O maestro tem muitos amigos entre os músicos", assegura o regente assistente Leandro Carvalho. O futuro parece de fato alvissareiro. Até 2012, há previsão de que a orquestra se mude para a Cidade das Artes (ex-Cidade da Música), na Barra, que passará a ser sua sala oficial de apresentações e ensaios. "Aqueles que ficaram se imbuíram de um enorme espírito de superação e de uma vontade de mostrar que a orquestra está viva", afirma Eleazar Carvalho.

Fonte: VEJA RIO