DIVERSÃO

Doce lembrança

Livro de arte realça as suntuosas e centenárias fazendas do ciclo da cana-de-açúcar, que transformam o norte fluminense em atraente destino turístico

Por: Letícia Pimenta - Atualizado em

Alicerce econômico da colonização portuguesa no Brasil entre o século XVI e o XVII, o ciclo do açúcar legou um belo patrimônio arquitetônico ao país. Como um dos seus principais produtores no período, o estado do Rio concentra parte desse conjunto de edificações históricas. São casarões de engenhos no norte fluminense construídos há até 200 anos para servir de morada aos senhores e sua família. A pacata cidade de Quissamã reúne a maioria deles, seguida pelos municípios de Campos e São Fidélis. Ficou para trás a fase áurea dos grandes canaviais, mas parte dessas sedes permanece conservada e aberta à visitação pública. No passado, algumas delas receberam pessoas famosas, como o duque de Caxias e a princesa Isabel. Em 1847, dom Pedro II e sua comitiva estiveram em Quissamã, onde o imperador foi padrinho de um casamento. "Por representarem uma fase importante da história do Brasil, os casarões precisam ser preservados", afirma o advogado Tasso Fragoso Pires, coautor do recém-lançado Engenhos de Açúcar na Colônia e no Império (Edições Fadel), composto de fotos e textos referentes a essas propriedades, localizadas em Pernambuco, na Bahia, em Alagoas e no Rio de Janeiro.

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(Foto: Veja Rio)

Situada a 210 quilômetros da capital do estado, entre Macaé e Campos, e com 20?000 habitantes, Quissamã é um dos municípios litorâneos bafejados pelos royalties do petróleo. Herança dos tempos coloniais, os engenhos são seu principal atrativo turístico. Ao começar o passeio pelo Museu Casa Quissamã, o visitante estará diante do marco inicial das luxuosas casas de engenho da região. A residência foi construída em 1826, por José Carneiro da Silva, o visconde de Araruama, filho de um dos sete capitães que receberam terras naquela área como recompensa por serviços prestados à coroa. Depois de hospedar dom Pedro II, o imóvel ficou fechado durante quase todo o século XX. Arrendado pela prefeitura na década passada, foi transformado em museu em 2006. A reforma manteve intactos detalhes originais da fachada e o majestoso jardim, onde assomam na paisagem uma alameda de palmeiras-imperiais e um enorme baobá trazido da África. Os móveis e objetos dos cômodos foram doados por descendentes do visconde. Perto dali há pelo menos mais quatro casarões localizados em fazendas particulares que merecem ser conhecidos. Todos foram erguidos por filhos de José Carneiro da Silva e permanecem há várias gerações sob a posse da família. "Nosso plano agora é incrementar a estrutura de atendimento ao turista", conta a secretária de Governo de Quissamã, Ana Alice de Barcelos. Outra parada obrigatória para quem quer conhecer o berço do ciclo açucareiro da região é a Fazenda Mato de Pipa, a mais antiga do local, datada de 1782. Ao redor dela cresceria o povoado que deu origem ao município. Tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), o casarão chama atenção pela simplicidade de seu desenho, em oposição aos suntuosos solares que seriam erguidos depois. Entre eles se destaca a casa-grande da Fazenda Santa Francisca, que mantém o paisagismo da época da construção, em 1852, e cômodos originais, como a capela da varanda principal.

Em larga medida, o mérito da preservação deve ser creditado às gerações de familiares que sucederam os primeiros proprietários. Fazem parte dessa lista dos casarões bem conservados as fazendas São Manoel e São Miguel. A primeira, de 1886, exibe arcos góticos na fachada, que marcam um período de transição arquitetônica do estilo neoclássico para o ecletismo do fim do século XIX. A outra, cuja primeira casa foi erguida em 1858, por José Caetano Carneiro da Silva, o visconde de Quissamã, é uma representante do fim do ciclo do açúcar. Sua sede atual, de 1927, está aberta à visitação. Em meio a tantas construções preservadas, o lado negativo é a sede do engenho Mandiquera, deslumbrante mansão em estilo neoclássico que, embora tombada, está em ruínas. Existem projetos para sua restauração, mas sem previsão de sair do papel. Seria uma atração a mais para enriquecer um roteiro tão precioso.

Fonte: VEJA RIO