DIVERSÃO

Dose dupla

Referência no design contemporâneo mundial, os irmãos Campana exibem em duas mostras no Rio suas peças bem boladas e divertidas

Por: Carlos Henrique Braz - Atualizado em

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(Foto: Redação Veja rio)

Sua fama se espalhou pelo mundo, e, dependendo do país onde estão, eles são chamados de brothers, frères ou hermanos. O fato é que a dupla de designers paulistas Humberto, 58 anos, e Fernando, 50, conhecidos por aqui como os irmãos Campana, atingiu um status internacional raramente concedido a um profissional brasileiro que não seja um jogador de futebol ou uma supermodelo. Eles usam retalhos de tecido, madeiras aglomeradas, cordas emaranhadas e metais retorcidos para dar forma a cadeiras, móveis, esculturas e até joias. Suas criações foram alçadas à condição de obra de arte, algo que pode ser comprovado em duas mostras prestes a desembarcar no Rio. Anticorpos é uma retrospectiva com 200 peças que chega ao Centro Cultural Banco do Brasil na terça (28), após passar pela Alemanha e por Vitória, Brasília e São Paulo. O acervo foi selecionado por Mathias Schwartz-Clauss, curador do alemão Vitra Design Museum, onde esteve em cartaz inicialmente. Dois dias depois, na quinta (1º), será aberta A Arte de Sentar com Arte - Irmãos Campana, que vai reunir catorze poltronas na Luciana Caravello Arte Contemporânea (veja mais na pág. 57). Esses objetos vêm da Firma Casa, galeria paulistana que representa a dupla. São cadeiras esculturais que mais parecem tronos. ?É difícil conceituar nossas obras?, diz Humberto. ?Elas ficam numa fronteira entre as artes plásticas e o design.?

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O trabalho dos irmãos Campana tem três marcas fortes: versatilidade, inventividade e bom humor. Os dois já assinaram diversos modelos de sandálias, uma edição de camisas Lacoste, cenários para desfiles de moda e espetáculo de balé, além de mobiliários e desenhos. No portfólio cabem ainda vultosos projetos de arquitetura, como o do Café Campana, dentro do Museu d?Orsay, em Paris (veja o quadro), e a remodelação do hotel-butique New Syntagma, em Atenas. Eles sempre acumulam várias matérias-primas em suas criações. Impossíveis de passar despercebidas pelo observador, as peças chamam atenção pela beleza e excentricidade. Duas das atrações do conjunto à mostra no CCBB são o sofá Diamantina, produzido com vime incrustado de pedras preciosas, e o pufe Kaiman Jacaré, um assento todo desconstruído formado por pedaços de couro sintético semelhantes ao corpo do animal. Não poderia faltar a cadeira Vermelha, feita com um trançado de cordas repetido milimetricamente em todos os modelos. Lançada em 1993, a peça escancarou-lhes as portas do mercado internacional - uma delas, inclusive, integra a coleção do Museu de Arte Moderna de Nova York. Com tamanho valor agregado, um exemplar desse item não sai por menos de 40?000 reais.

Essa trajetória bem-sucedida teve início com um voo-solo de Humberto. Em 1977, formado em direito pela USP, mas sem a menor vocação para exercer a profissão, ele começou a procurar maneiras de extravasar a criatividade. No ano seguinte, mudou-se para a cidade baiana de Itabuna, onde passou a fazer objetos de artesanato ornamentados com pequenas conchas. De volta a São Paulo, no início dos anos 80, ele chegou a produzir em escala suficiente para abastecer grandes lojas de departamentos. Em paralelo, dedicou-se a criar vistosas esculturas abstratas de terracota, bronze e ferro, além de coloridos desenhos geométricos. Enquanto isso, às vésperas de se graduar em arquitetura, o caçula, Fernando, fez um estágio na 17ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1983. Logo que se formou, foi ajudar o mano mais velho a dar conta das encomendas. ?Introduzi funcionalidade aos trabalhos dele, que eram mais intuitivos?, conta Fernando. ?Assim se deu a magia do negócio.?

Montado no bairro paulistano de Santa Cecília, o Estúdio Campana abriga uma equipe de dez funcionários e contabiliza 61 linhas de produtos industrializados, que são confeccionados por diversos parceiros da dupla. Parte do mobiliário bolado por eles é fabricada pelas empresas italianas Edra e Alessi. A manufatura francesa de porcelanas Bernardaud também deu forma a uma série de produtos, entre castiçais, fruteiras e pesos de papel. Na divisão do trabalho, cada um tem a sua tarefa, embora muitas vezes elas se entrelacem. ?O Humberto tem habilidade artística e é mais conceitual. Eu me concentro mais nos projetos técnicos, apesar de já me pegar também desenhando joias?, diz Fernando, que passa metade da semana na cidade de Brotas, a 150 quilômetros da capital paulista, onde ambos cresceram. Sobrenome de referência no design contemporâneo, os irmãos Campana são uma prova de que talento vem do berço.

Fonte: VEJA RIO