DIVERSÃO

Os famosos ganharam

Artistas consagrados assinam sambas-enredo da nova safra, ajudam a expor o nome das escolas e renovam a esperança de melhorar a venda do CD

Por: Sérgio Garcia - Atualizado em

Diego Mendes / Divulgação
(Foto: Redação Veja rio)

Em meio a alcunhas como Carlinhos Fuzil, Toni Vietnã, Me Leva e Arthur das Ferragens há alguns nomes de imediato reconhecimento entre os autores dos sambas para o próximo Carnaval. Nessa safra dão o ar da graça artistas com a carreira consolidada, que decidiram desbravar o emaranhado processo de disputa nas escolas. É o caso de Elymar Santos, que concorreu pela primeira vez no gênero e foi bem-sucedido: ele assina com parceiros o tema da Imperatriz. Outro autor com esse perfil é Dudu Nobre, que após duas décadas de retiro resolveu voltar a compor para o desfile e venceu a competição na Mocidade. Mais afeito a essas disputas, mas igualmente uma grife musical, Arlindo Cruz deixa seu jamegão pela terceira vez consecutiva na Vila Isabel. "Eu me sinto um pouco responsável por esse movimento de aproximação de artistas renomados com o Carnaval", diz Arlindo. "Nada mais natural que gente consagrada participe ativamente da maior festa do mundo."

É inegável que um nome de peso impressiona os jurados, dá musculatura à escola e atrai o público para as quadras numa época em que a festa ainda está distante. Porém, encarar uma votação de samba é uma experiência excruciante, para anônimo ou famoso. "É fascinante, mas não é para amadores", alerta Dudu Nobre, que ficou abismado com a proporção que as disputas tomaram de vinte anos para cá. Trata-se de um ambiente que ele conhece bem. Dudu começou a compor ainda criança para agremiações mirins. Quando era um jovem sambista de 20 anos, em 1993, tentou emplacar um trabalho na sua escola do coração, a Mocidade, sem sucesso. "Éramos eu e dois amigos cantando, e mais nada", lembra. Ao retornar, vinte anos depois, ele deparou com o gigantismo que passou a envolver a escolha do samba. No dia da final, em vez dos três gatos-pingados de duas décadas atrás, eram sessenta pessoas engajadas na apresentação, entre músicos, cantores e o pessoal da produção que, além de outras funções, ficou responsável pela recepção dos catorze ônibus de torcedores de aluguel. "Fiz uma superprodução de show", enfatiza Elymar, referindo-se à noite da escolha na Imperatriz. O artista levou para a quadra de Ramos 500 bandeiras, 1?000 coroas, 1?200 pompons e 1?000 leques ? boa parte feita por ele mesmo ?, além de doze máquinas de jogar papel picado.

Percio Campos / Extra
(Foto: Redação Veja rio)

Ao tomar a iniciativa de confeccionar os adereços, Elymar abateu uma parte das despesas, ainda que ínfima. Uma parceria que chega à final gasta ao longo do concurso 50?000 reais, valor que pode até triplicar. Daí que esses "condomínios" de autores são encorpados também com parceiros investidores. No fluxo oposto, uma canção vencedora pode render 400?000 reais de direitos autorais, mas a escola retém de 25% a 50% desse total. "Já será ótimo se conseguir recuperar o dinheiro que botei", afirma Dudu, que, a exemplo de Elymar, nesse período deu uma freada na agenda de shows, o que reduziu seu faturamento. Eles juram que falou mais alto a paixão pela escola, embora não se possam desprezar o cafuné no ego e a exposição que o triunfo proporciona. "Será glorioso ver a escola desfilar com a minha obra. Sou o único elemento popular que a Imperatriz tem", afirma Elymar. Ele desfila desde pequeno e aponta como fator de convencimento para concorrer desta vez o enredo, que exalta o ex-jogador Zico. "Nós dois somos suburbanos, de família pobre, que nos tornamos vitoriosos."

Até uma década atrás, a disputa do samba-enredo era limitada aos integrantes da ala dos compositores. Depois do fim dessa imposição, o embate viu crescer o número de concorrentes, com algumas escolas registrando mais de noventa inscritos. Ainda assim, poucos autores consagrados se arriscavam a competir. Uma exceção foi Martinho da Vila, que depois de conceber belos temas para sua escola até os anos 90, ficou um período afastado e só retomou a atividade em 2010, ao compor o samba que celebrava o centenário de Noel Rosa. Funcionou como um chamariz, atraindo até neófitos no assunto. No ano seguinte, Erasmo Carlos deixou as baladas de lado e se atreveu a concorrer na Beija-Flor, que homenageava o amigo de fé Roberto Carlos. Não passou das eliminatórias. Neste ano o movimento se acentuou ainda mais, com a inclusão de outros artistas populares. O reforço da turma que tem apelo comercial renova a esperança de dias melhores para o CD do Carnaval, que será lançado no dia 26 deste mês. Em 1979, o disco chegou a vender 2,2 milhões de cópias, número que despencou para 130?000 na última temporada. Aos poucos o gênero foi minguando nas rádios, festas e bailes. No ranking do Ecad não há nenhum compositor de escola de samba entre os vinte autores que mais faturaram no Carnaval passado. Produtor do CD há mais de quarenta edições, Zacarias de Oliveira culpa a pirataria pela queda nas vendas. Para o escritor Alberto Mussa, coautor de Samba de Enredo: História e Arte, existem outros fatores. "De 1995 para cá não há um samba que tenha entrado para a história", diz. "A qualidade só voltará quando houver rigor por parte dos jurados do desfile." Quem sabe a nova safra ajude a virar o jogo.

Fonte: VEJA RIO