FITNESS

A dieta da maromba

Em busca do corpo magro e sarado, cariocas aderem a rígidos hábitos de alimentação

Por: Lais Botelho - Atualizado em

Eles batem ponto na academia quase diariamente e compartilham um dialeto específico. Passam horas no supermercado olhando, produto a produto, o porcentual de gorduras, carboidratos e proteínas de cada alimento. Para onde vão, carregam a própria comida, toda feita em casa, sem nenhum grama de glúten ou lactose. Mais um pré-requisito é fundamental para fazer parte desse grupo: cada passo na esteira ou garfada na marmita deve ser registrado em fotos publicadas nas redes sociais. Eles são os marombeiros da geração Y, uma turma que, através da alimentação regrada e de exercícios intensos, está em busca de um corpo magro, sarado e capaz de receber muitas curtidas no Instagram. "Há pouco tempo diagnosticaríamos esse tipo de comportamento como transtorno obsessivo-compulsivo, o famoso TOC. Mas para essa geração isso é sinônimo de vaidade", avalia a psicóloga Joana Novaes, coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social da PUC-Rio.

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(Foto: Redação Veja rio)

A fórmula para obter um corpo delineado por músculos e com a sonhada barriguinha tanquinho, no entanto, não mudou em nada. Além do treino intenso, com poucas repetições e cargas mais pesadas, a base para a hipertrofia, é preciso aumentar o consumo de proteínas de alto valor biológico, como carne vermelha, frango, peixe, ovos e leite, que ajudam na construção de músculos. Não que as frutas e um pãozinho no café da manhã saiam de cena. "As gorduras insaturadas, presentes no azeite e no abacate, também devem compor o menu, além dos carboidratos de baixo índice glicêmico", diz o endocrinologista Luciano Negreiros. Com base nesse tripé, a turma da maromba já elegeu seus favoritos. O frango com batata-doce é um deles, graças ao baixo índice glicêmico da raiz e à quantidade reduzida de gordura da carne. Fazia tanto sucesso no cardápio do casal Rodrigo Purchio, de 23 anos, e Roberta Pacheco, de 22, que eles abriram uma conta no Instagram com esse nome. Em quatro meses mostrando o passo a passo de outras receitas que faziam em casa para consumo próprio, como é o caso do macarrão de abobrinha, da torre de panquecas proteicas e do salgado maromba, a dupla alcançou 20 000 seguidores e se prepara para abrir um bistrô fitness a partir de agosto dentro da academia Pró Forma, no Leblon.

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(Foto: Redação Veja rio)

Existe um quarto ingrediente que não costuma faltar na alimentação dessa turma: os suplementos. "Eles são muito usados porque ajudam a atingir a meta de forma mais rápida e eficiente", defende a nutricionista esportiva Julia Engel. O assunto, porém, é motivo de discussões no meio: "Se a pessoa tem uma genética boa e se alimenta bem, eles não são necessários. É muito marketing para pouco resultado", rebate o diretor técnico do grupo Bodytech, Dudu Netto. A cada mês, Raquel Uzai, de 29 anos, gasta pelo menos 200 reais com produtos como whey protein, proteína do soro do leite usada nos shakes que ela toma no café da manhã e após a malhação. Moradora da Barra, a empresária fez uma mudança radical após voltar dos Estados Unidos com 8 quilos extras. Livrou-se de todos os chocolates que havia trazido na mala, cortou o açúcar, o sal e a farinha branca do cardápio e passou a malhar seis vezes por semana, tudo devidamente acompanhado pelos 15?000 seguidores no Instagram que conquistou ao longo do processo. "Em um mês já tinha emagrecido 2 quilos", conta. A barriga tanquinho não esconde sua disciplina, que inclui até levar marmita de frango com batata-doce para o cinema se a sessão estiver marcada para a hora do jantar. Tal hábito acabou despertando muitas críticas das amigas. "Elas diziam que eu estava neurótica, ficaria com o corpo de homem, mas hoje várias já entraram na onda comigo", revela. Os julgamentos não são o único problema de quem escolhe esse estilo de alimentação ? e de vida. Acompanhar o pessoal do trabalho no barzinho depois do expediente pode acabar virando um momento de tortura quando a primeira porção de batata frita soterrada em bastante cheddar e bacon chega à mesa. "Ter vida social ficou muito mais difícil", admite a sarada Raquel.

Fonte: VEJA RIO