DIVERSÃO

Vamos batalhar?

Inspirado nos velhos piões, o beyblade invadiu as escolas cariocas. O objetivo do jogo é o mesmo: quem conseguir rodopiar por mais tempo vence a disputa

Por: Carla Knoplech - Atualizado em

Fernando Lemos
(Foto: Redação Veja rio)

Se o seu filho é menino e tem entre 5 e 10 anos, é bem provável que você já tenha escutado a pergunta acima. Dita na maioria das vezes com bastante entusiasmo, ela é um convite à brincadeira sensação da garotada, o beyblade. Para quem não conhece, trata-se da evolução colorida e turbinada do centenário pião. Até as regras são bem semelhantes. Aquele que permanecer rodando por mais tempo sagra-se o vencedor. A grande diferença entre ambos está no aparato que envolve a versão mais moderna.

Usado como arma pelos personagens de um desenho japonês homônimo, em cartaz no canal Disney XD, o brinquedo ganhou um vocabulário próprio, cerca de 300 modelos diferentes e dezenas de acessórios vendidos à parte, a exemplo de lançador para impulsionar o giro e arena onde se dão os rodopios ? na terminologia da garotada, as tais ?batalhas?. Conclusão: duas semanas antes do Dia das Crianças, já era quase impossível encontrar um exemplar à venda nas lojas da cidade.

Popular entre os garotos, e entre algumas garotas, o passatempo saiu rapidamente das telas para dominar os recreios das escolas cariocas. Do dia para a noite, pais e professores se viram rodeados por todo um universo de artefatos plásticos. Mãe de Guilherme e Arthur, de 8 e 5 anos respectivamente, a engenheira Flávia Freitas notou que havia algo de novo quando começou a ouvir frases pouco usuais pela casa. ?Demorei um tempo para desvendar esse mistério?, conta ela, referindo-se ao bordão ?let it rip? (numa tradução livre, algo como ?deixa rasgar?). A expressão, em inglês, volta e meia ecoava do quarto, de forma enfática, toda vez que os meninos iniciavam o jogo.

Divulgação
(Foto: Redação Veja rio)

Não raro, eles assistem ao seriado, que passa diariamente às 9 horas da manhã, com seus beyblades nas mãos. Três vezes por semana, a família enfrenta o mesmo problema: por causa da exibição dos episódios, a dupla reluta em ir à natação. Fanáticos, os irmãos colecionam dezoito versões do brinquedo, muitas trazidas pela avó de uma viagem ao exterior - por sinal, ele já se tornou um item recorrente na lista de encomendas de quem vai à Europa ou aos Estados Unidos. Por lá, cada unidade custa 8 dólares, enquanto o preço aqui varia entre 50 e 70 reais.

Não é de hoje que as animações com traços orientais - e seus subprodutos - ganham fãs entre nós. Já fizeram sucesso Os Cavaleiros do Zodíaco, Pokémon e, é claro, o inesquecível Tamagotchi. O bichinho virtual se tornou o segundo brinquedo mais vendido na história do Brasil, perdendo apenas para o boneco do Fofão, personagem do programa Balão Mágico, sucesso dos anos 80. ?O conceito japonês está dois passos à frente de qualquer outro porque ele desenvolve técnicas em que os meninos se sentem plenamente inseridos no desenho?, afirma Synésio Batista da Costa, presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos. No caso do Beyblade, a interação é desenvolvida da seguinte forma: ao ver os personagens executar manobras radicais na tela, os pequenos passam a imitar esses movimentos. Com as citações de golpes mágicos (há dezenas de frases específicas no seriado), somadas ao ato de atirar o pião para vencer as batalhas fora das telas, as crianças acabam incorporando os heróis do desenho animado.

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O que por aqui ainda é brincadeira despretensiosa, no exterior já ganhou estrutura oficial, com torneios e campeonatos. Em 2010, aconteceu no centro espacial da cidade americana de Houston um encontro que reuniu centenas de garotos. As disputas ocorriam em um palco com aparato técnico de última geração. Havia até torcida organizada. Nesses encontros, a brincadeira ganha ares profissionais graças ao ranking na internet, atualizado com o tempo da vitória de cada um. Lembrando, quem roda por mais tempo vence.

O controle só é possível porque a fabricante disponibiliza um código na embalagem de cada unidade. Ou seja, assim como uma obra de arte, cada pião é único. O pequeno Enzo, de 7 anos, não larga mão dos seus, sempre na mochila para onde quer que vá. Vigiado pela direção do colégio, assim como os outros meninos, ele só pode brincar no recreio. ?Jogava o dia inteiro se pudesse?, diz. A cada manobra que executa, ele grita o nome do personagem a que seu brinquedo se refere. Quando o nível dos jogadores é alto, caso de Enzo, eles às vezes apostam o próprio beyblade contra o dos coleguinhas. Não parece jogo de gente grande?

Fonte: VEJA RIO