DIVERSÃO

Nada se cria

Todo o mundo pop recorre ao sampler, usado para enxertar sons já gravados em novas composições

Por: Pedro Tinoco - Atualizado em

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(Foto: Veja Rio)

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Sabe aquela música da estrela pop do momento que você jura já ter ouvido? Culpa do sampler. Difundida a partir do fim dos anos 70, a maquininha, em linhas gerais, permite a gravação de sons e sua reprodução ? com variações de tom, um trecho repetido em loop, enfim, ao gosto do freguês. Adotado por DJs e produtores, e usado na criação de composições, o eficiente equipamento de ?recorta e cola? logo dominou gêneros como o hip-hop e a dance music. Hoje, está por toda parte. Tome-se a programação do Rock in Rio 2013 como exemplo. Atração mais aguardada na abertura, na última sexta (13), Beyoncé usa. Justin Timberlake, outra reluzente estrela do primeiro fim de semana do festival, também. Assim como a menos conhecida Orelha Negra, banda instrumental portuguesa convidada para o Palco Sunset.

Beyoncé trouxe para o Brasil a turnê The Mrs. Carter Show. No repertório, o hit Run the World (Girls), de 2011, ganhou um pedacinho de Poon the Floor, obra do projeto de música eletrônica Major Lazer criada dois anos antes. Suit & Tie, faixa de The 20/20 Experience, disco de Timberlake lançado em janeiro, traz trechos de duas canções: Show You How (2002), de Jay-Z, e Sho? Snuff (1973), do trio de soul music Sly, Slick and Wicked. Na soturna A Cura, a banda Orelha Negra cita Crazy Train, de Ozzy Osbourne. Esses são todos exemplos de uso discreto, e assumido, do sampler. ?Trata-se de um recurso que, bem utilizado, atrai a atenção de novos fãs para uma canção ou um artista mais antigos?, diz Zé Ricardo, curador do Palco Sunset, reduto de surpresas do Rock in Rio. ?Um refrão já existente ou uma frase de guitarra pode emprestar a força de que a música precisa. É um trabalho de colagem artística.?

Cria da segunda geração da bossa nova, Marcos Valle tem razões para aprovar a colagem. Nos anos 2000, o músico carioca foi sampleado por dois rappers americanos. Jay-Z recortou Ele e Ela, balada de 1970, e colou em Thank You, lançada em 2009. New God Flow, gravada por Kanye West no ano passado, emula Bodas de Sangue, de 1972. ?São belas versões?, avaliza o homenageado. Os casos de exportação do inimitável balanço brasileiro são muitos. A longa lista inclui, entre outros, Casa Bey, de Mos Def, que pegou emprestada a cozinha rítmica de Casa Forte, pérola de 1977 da banda Black Rio, e Don?t Forget? Em, de Consequence, outro astro americano do hip-hop ? por obra e graça da tecnologia, ele faz dueto com Milton Nascimento entoando a suave Catavento, faixa do LP Courage, do longínquo ano de 1968.

No túnel do tempo do sample, os jovens são apresentados à música de outrora, mas também acontece o contrário. Criada em 2005, a agência de DJs Bossa Carioca anima em média 150 festas por ano. São aniversários, casórios e eventos corporativos em lugares badalados, a exemplo do Copacabana Palace, com público de todas as idades. ?Temos de agradar a gregos e troianos. O convidado às vezes é um pouco mais velho e torce o nariz para os hits do momento, mas corre para a pista quando reconhece um sample no meio da música?, conta Bruno de Vicq, DJ e diretor da empresa. Nessas horas, fazem bonito gravações como a de Feel This Moment. Produzida pelo DJ Pitbull, de Miami, um dos atuais mestres do sampler, a canção pop une a voz imprópria para maiores da rebolativa Cristina Aguilera ao inconfundível solo de teclados de Take on Me. Não tem erro: a lembrança do (hoje) clássico do grupo norueguês A-ha empolga muita gente que em meados dos anos 80 tinha a idade dos atuais fãs de la Aguilera.

Na Rádio Ibiza o sampler também é recebido com bons ouvidos. ?É um recurso que liga o antigo e o novo de forma diferente, pode puxar uma recordação que a gente nem lembra de ter guardado em algum momento?, opina Levy Gasparian, DJ e diretor de programação da empresa especializada em criar trilhas sonoras personalizadas para espaços comerciais. Ele não acha que o debate sobre plágio, inspirado pelo uso do sampler desde o início, seja fácil de resolver. ?Podemos ver como um roubo, mas também como o resgate de uma música esquecida?, conta Gasparian. Um episódio recente ilustra bem a questão. Nascido na Bélgica e radicado na Austrália desde os 2 anos, o cantor e compositor Gotye usou um trecho de Seville, gravado em 1967 pelo violonista carioca Luiz Bonfá (1922-2001), em Somebody I Used to Know. Lançado em 2011, o single chegou ao primeiro lugar das paradas de mais de vinte países. O clipe da música no YouTube ultrapassou 400 milhões de acessos. Um processo movido pela família de Bonfá o levou a reconhecer a parceria na composição e repassar aos herdeiros 1 milhão de dólares, a título de direitos autorais. Como se vê, com o perdão do trocadilho, o assunto é sample, mas não é simples.

Fonte: VEJA RIO