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A toda a velocidade

Hiperativa, a produtora Luisa Jucá organiza a principal prova ciclística do país

Por: Felipe Carneiro - Atualizado em

Fernando Lemos
(Foto: Redação Veja rio)
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(Foto: Redação Veja rio)

A agitação é filosofia de vida, e não algo circunstancial, para a produtora Luisa Jucá. Baiana de Salvador, ela vai de encontro ao estereótipo eivado de preconceito que associa seus conterrâneos à lentidão no modo de agir. Envolvida em dois eventos de porte e diante da urgência de ambos, ela não sossega nem quando se senta à mesa para comer. O primeiro deles é o Tour do Rio, competição ciclística internacional que terá largada na próxima quarta (27), na Barra da Tijuca, e previsão de chegada para o domingo seguinte, na Quinta da Boa Vista. Dezenove equipes de seis países vão encarar o percurso de 813 quilômetros por estradas que cruzam vários municípios fluminenses (veja o mapa na pág. 30), numa prova seletiva para a Olimpíada de Londres. Em outra frente de trabalho igualmente desgastante, a irrequieta Jucá, como é conhecida, esmera-se na produção do Back 2 Black, festival programado para o fim de agosto na estação da Leopoldina, que tem como atrações principais a cantora Macy Gray e o ídolo pop Prince. "Adoro a minha terra, mas não existe a menor chance de voltar a morar lá", diz ela, com forte sotaque, apesar de radicada no Rio há mais de vinte anos. "Ficaria maluca com aquele ritmo de vida."

Tal qual a disputa ciclística que agora organiza, a carreira de Jucá é cheia de curvas, chegadas e partidas. Prestes a completar 50 anos ? seu aniversário coincide com o dia da largada da prova ?, ela já rodou um bocado, e por circuitos bem diversos. Foi professora universitária, funcionária do Ministério da Saúde, trabalhou em museu e, durante um bom tempo, atuou como empresária de grandes cantoras nacionais. Para narrar essa trajetória, é preciso retroceder até sua juventude, em Salvador. Indecisa entre as faculdades de sociologia, administração e direito, que cursava simultaneamente, ela acabou optando por uma guinada radical, precipitada pela morte do pai: largou tudo e, ainda menor de idade, se mandou para uma temporada em Londres, de onde partia em viagem por toda a vizinhança, a fim de "botar a cabeça no lugar". Depois de um ano e meio de giro europeu, retornou ao Brasil e foi estudar sociologia em Brasília. Ao se formar, trabalhou com José Gomes Temporão, médico que se tornaria ministro da Saúde, com quem percorreu a Região Norte numa campanha de prevenção contra a aids. Foi em Brasília que ela conheceu o advogado carioca Marcos Jucá, à época executivo de uma gravadora. Esse encontro iria ocasionar uma nova reviravolta em sua vida: a mudança definitiva para o Rio de Janeiro, em 1989.

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(Foto: Redação Veja rio)

Aqui, um conhecido de seu pai, o então secretário de Cultura Sergio Rouanet, convidou-a para ajudar na elaboração da lei de apoio à cultura no governo Collor. Ela logo se enturmou com o pessoal do setor e foi trabalhar no Museu da República. Saiu de lá para abrir uma microempresa, que funcionava em sua própria casa. "Eu me fazia passar por uma secretária e marcava as reuniões para a patroa", diverte-se ao lembrar. Aos poucos ganhou nome no mercado, a ponto de ser contratada pela cantora Gal Costa para agenciar sua carreira. Dona de um temperamento forte, Jucá rompeu com a artista devido a uma desavença que tinha tudo para ser banal: Gal queria fazer um disco acústico, mais simples, porém a empresária não concordava com isso e bateu o pé. "Jucá tem essa coisa grandiosa, tudo com ela é ambicioso", afirma Gal. Com alguma experiência no ramo, Jucá partiu para outra e firmou parceria profissional com Maria Bethânia. Numa excursão com ela pela Eslovênia, em 1997, a empresária, que até então pedalava obcecadamente mas apenas nas aulas de spinning, decidiu alugar uma bicicleta para conhecer melhor a região. Nasceu assim sua paixão pelo esporte, que, tempos depois, resultou na concepção do Tour do Rio, realizado pela primeira vez no ano passado.

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(Foto: Redação Veja rio)

Considerada a principal prova de estrada do continente, a corrida fluminense foi inspirada no Tour de France, o maior evento mundial da modalidade, cuja última etapa será disputada neste domingo (24), com chegada triunfal à Champs-Elysées parisiense. A competição francesa é um espetáculo à parte. Realizada pela primeira vez em 1903 e só interrompida no período das duas guerras mundiais, ela reuniu 15 milhões de espectadores e teve transmissão para mais de 180 países no ano passado. Para realizar a versão brasileira da prova, Jucá precisou não apenas conquistar patrocinadores como também superar outro obstáculo: o mau estado de nossas estradas. Para isso, fez reivindicações ao governo estadual e às prefeituras envolvidas. Entre um telefonema e outro disparados de sua cobertura no Leblon, onde mora com o marido e os dois filhos, Jucá resolve problemas urgentes, mas já pensa longe. Quer promover encontros musicais no complexo do Cine Lagoon e já capta recursos para produzir um documentário sobre a história sonora do Rio. Ela organiza ainda o festival Indie Rock, mais alternativo, e coordena um instituto que visa a moldar talentos esportivos para a Olimpíada de 2016. Haja fôlego.

Fonte: VEJA RIO