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Na cidade do vale-tudo

Marcada para o próximo sábado (27), a disputa do Ultimate Fighting Championship no Rio é o retorno da modalidade ao seu berço. Foi daqui que o violento esporte saiu para conquistar o mundo

Por: Carla Knoplech - Atualizado em

James Law/Zuffa LLC via Getty Images
(Foto: Redação Veja rio)

Certeiro na precisão com que atinge o queixo do rival, o chute frontal foi aprendido com o ator Steven Seagal. A joelhada voadora veio dos treinos de muay thai, enquanto a chapa giratória, movimento rápido que visa a acertar o oponente com o pé, é herança das rodas de capoeira. Os três golpes, desferidos sempre com eficácia e rapidez devastadoras, são especialidades do lutador brasileiro Anderson Silva, 36 anos, 1,89 metro de altura e 84 quilos de puro músculo. Em suas disputas mundo afora, distribuindo socos e pontapés, ele tornou-se a principal estrela do MMA (abreviação de mixed martial arts, tradução que os americanos encontraram para o nosso vale-tudo). No próximo dia 27, perto de 15 000 fãs do esporte ? e da pancadaria que o envolve ? terão o privilégio de ver ao vivo, no HSBC Arena, na Barra da Tijuca, o astro em combate contra o japonês Yushin Okami. Privilégio porque todos os ingressos colocados à venda em 16 de junho, com preços entre 275 e 1?600 reais, se esgotaram em menos de duas horas. O confronto é a atração principal da 134ª rodada do Ultimate Fighting Championship (UFC), o maior campeonato da modalidade, que será disputado pela primeira vez na cidade. ?Para nós é muito importante estar aqui no Rio de Janeiro, onde o esporte é muito popular?, diz Dana White, presidente da entidade que controla o evento.

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A programação de doze lutas que se desenrolará na Barra não deve decepcionar o público. Além de Silva, o superstar da noite, estarão presentes nomes de primeiríssima linha como o paranaense Maurício ?Shogun? Rua (categoria dos meios-pesados), o baiano Antonio ?Minotauro? Nogueira (pesos-pesados), o inglês Ross Pearson e o americano Forrest Griffin. Segundo país em número de participantes, os Estados Unidos trarão cinco representantes. O Brasil terá catorze. Não se trata de mera coincidência ou de uma forcinha aos donos da casa. Somos mesmo uma potência no esporte. Ao todo, o UFC conta com 37 brasileiros, o que torna o país a segunda maior força em número de atletas, atrás apenas dos EUA, que têm 159. A qualidade dos nossos lutadores, porém, é maior. Das oito categorias do torneio, duas têm os títulos nas mãos dos ?brazucas? ? Anderson Silva, entre os pesos médios, e José Aldo, entre os pesos-pena. Detentores de cinturões, ambos são considerados campeões mundiais. ?Ter o UFC Rio é um motivo de orgulho para nós. Treinei muito tempo na cidade e parte de minha família vive aqui. Foi onde tudo começou?, afirma Silva, que, apesar do corpanzil, tem a voz fina.

Fernando Frazão
(Foto: Redação Veja rio)

De fato, a estrutura milionária e a cenografia espetacular das lutas de MMA são tipicamente americanas. O esporte, no entanto, tem uma ligação umbilical com o Brasil e mais especificamente com o Rio. A origem de tudo, como diz Silva, está no chamado brazilian jiu-jitsu, criado por Helio Gracie (1913-2009) no início do século XX. Adaptado da arte marcial original, o estilo dava a homens franzinos habilidades para enfrentar oponentes bem mais pesados e musculosos. Helio e demais membros do clã, como seu sobrinho Carlson (1933-2006), comprovavam a superioridade de sua técnica em disputas com oponentes de outras artes marciais. Ficaram famosos os combates que não tinham hora para terminar e só eram encerrados depois que um dos participantes se rendia. Até presidentes da República, como Getúlio Vargas, compareciam às disputas, e o jornal O Globo costumava noticiar, em letras garrafais, os resultados dos confrontos: ?Vitória de Helio Gracie?.

Fernando Frazão
(Foto: Redação Veja rio)

Embalados pelo sucesso, os representantes da família treinaram várias gerações de lutadores. Aos poucos, a fama cresceu e eles começaram a difundir o método pelo mundo, principalmente nos Estados Unidos. Na década de 90, o momento da confirmação. Rorion Gracie, filho de Helio, criou o UFC, e os americanos, incrédulos, começaram a assistir aos triunfos dos brasileiros sobre os brutamontes locais. Rapidamente transformada em franquia e vendida sete anos depois a uma empresa de cassinos, a competição ganhou corpo e fãs. Foi nesse princípio que despontaram para o estrelato lendas da modalidade como Royce Gracie, irmão de Rorion e tricampeão no certame, e o carioca Vitor Belfort. Em 1997, com 20 anos, Belfort ganhou seu primeiro cinturão em uma disputa espetacular. Em apenas 53 segundos, desferiu 26 socos no rosto do americano Tank Abott, 10 centímetros mais alto e 30 quilos mais pesado. ?Cada vez que ganhávamos, a mensagem era simples e de grande apelo: o mais fraco pode vencer o mais forte?, conta ele, hoje com 34 anos. Apesar de ser um dos principais nomes do ranking, Belfort ficará de fora dessa etapa da competição e atuará somente como comentarista.

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As vitórias de Royce e Belfort ajudaram a popularizar o estilo brasileiro em todo o planeta ? e transformaram o jiu-jítsu em orgulho e paixão do carioca. Por aqui, academias surgiram por todos os cantos a ponto de chegar ao espantoso número de 400 unidades no fim da década de 90. Transmitidas por canais a cabo, as disputas ganharam um público fiel e inspiraram todo um estilo de vida ligado ao esporte. De um momento para o outro, viam-se pelas ruas, praias e boates hordas de meninos com a cabeça raspada, orelhas esfoladas e gírias próprias. Muitas vezes, acompanhados por cachorros da raça pit bull. Não demorou para que o fenômeno degenerasse em bagunça e selvageria. Os ?pitboys?, como ficaram conhecidos, trataram de denegrir a imagem da modalidade ao espancar incautos pelas noitadas. ?Os caras passavam uma semana na academia e saíam nas ruas para brigar. Isso prejudicou quem fazia um trabalho sério?, lamenta André Pederneiras, treinador e dono da academia Upper, no Flamengo.

A questão, na verdade, era um pouco mais complexa. Nos Estados Unidos, os ringues de vale-tudo, uma estrutura octogonal cercada de grades, começaram a ser comparados a rinhas, tamanha a brutalidade dos embates. A mensagem de violência estava bem clara no sangue vermelho vivo que, não raro, manchava ? e ainda mancha ? o tatame das lutas. A mudança desse panorama teve início em 2001, quando a liga passou por uma reforma radical. Primeiro, proibiram-se golpes baixos como dedo no olho, mordidas, cabeçadas, cotoveladas, cusparadas e chute nos rins. Depois, adotou-se a configuração em rounds, com limitação de tempo. Por fim, batizaram a modalidade de MMA. A pancadaria, porém, ainda come solta.

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Sede dos principais centros de treinamento do esporte no país, o Rio continua sendo um polo exportador de profissionais para os ringues internacionais. No entanto, em vez dos jovens criados na Zona Sul do passado, os lutadores que buscam hoje as academias cariocas têm origem mais modesta. Nascido em Duque de Caxias, o peso-galo Johnny Eduardo, 32 anos, estreia no UFC contra o pernambucano Raphael Assunção. ?Já treinei sem um tostão no bolso e saltei do ônibus sem pagar?, conta. ?Ainda sonho em ganhar dinheiro.? Para isso, esfalfa-se oito horas em exercícios e combates, seis dias por semana. O peso médio leve Luis Beição Ramos, que nasceu em Itaguaí, trocou o futebol pelo jiu-jítsu com a perspectiva de um dia morar nos Estados Unidos. Há um mês soube que estrearia na rodada carioca do UFC contra o capixaba Erick Silva. ?Para mim é como jogar numa final de campeonato em um estádio lotado?, compara.

Disputado doze vezes ao longo do ano, o UFC se transformou num grande negócio. Cada etapa rende à organização entre 15 milhões e 50 milhões de dólares, com quase 600 milhões de telespectadores ao redor do planeta. A aura de espetáculo armado em torno das disputas, com seu jeito de apresentação de rock, tem ajudado a mesmerizar novos espectadores com sua grandiosidade. O octógono montado na Barra da Tijuca, por exemplo, é composto de 5 toneladas de equipamentos de som e luz trazidos da Inglaterra. Telões armados sobre o palco transmitirão closes dos confrontos para a plateia. ?Sou contra a violência, mas é bom lembrar que ali há um controle rígido, com regras e uma sólida preparação técnica. É um verdadeiro show de socos e imobilizações?, entusiasma-se a ginasta Daniele Hypólito, fã do esporte. A atriz Heloisa Perrissé, outra surpreendente admiradora, se diz atraída pela maneira como os lutadores conduzem a sucessão de golpes. ?O que mais admiro é a estratégia de cada um. Parece um esporte bruto, mas a inteligência faz a diferença dentro do ringue?, afirma. Para quem gosta de uma farta exposição de supercílios rompidos, olhos inchados e lábios estourados, o UFC Rio será diversão na certa.

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(Foto: Redação Veja rio)

Fonte: VEJA RIO