PERFIL

Um bicão na alta-roda

Pierre Thomé de Souza vive de frequentar festas e apresentar pessoas famosas umas às outras. Mas seu grande talento mesmo é tirar fotos com celebridades

Por: Sofia Cerqueira - Atualizado em

Fotos: Leo Aversa, arquivo pessoal
(Foto: Redação Veja rio)

O carioca Pierre Thomé de Souza, 30 anos, tem um talento raro. Quarto filho de um casal de corretores de seguros, ele desenvolveu uma notável habilidade para se avizinhar de poderosos e celebridades, seja em festas, seja em eventos protocolares. Há pouco mais de um mês, surgiu ao lado do ator e ex-governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger durante uma visita à cidade. No Carnaval, instalado na varanda do Hotel Fasano, deu tchauzinho para os fotógrafos junto do astro americano Will Smith e do cantor Naldo. Em março do ano passado, correu ao lado do príncipe Harry no Aterro do Flamengo. No mês anterior, havia passeado de barco com Jennifer Lopez pela Baía de Guanabara. Por último, mas não menos importante, quando o presidente Barack Obama esteve no Rio em 2011, sugeriu frases em português para o discurso que o americano fez no Theatro Municipal do Rio. "Sou conectado mundialmente. Sem querer ser egocêntrico, com um ou dois telefonemas chego a qualquer pessoa do planeta", afirma o rapaz, que diz fazer do relacionamento pessoal seu meio de vida.

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Explicar o ganha-pão de Pierre, suas poderosas conexões e até sua existência não é tarefa simples. Sem diploma superior e com um curso rápido de especialização em marketing, ele se define como autodidata (na verdade, um gênio autodidata). Mesmo sem bagagem formal, segundo sua própria definição, atua como consultor de networking, marketing e mentoring nas áreas de inteligência, estratégia e logística. Seu leque de atuação, ainda de acordo com descrição própria, se estende por áreas como economia, política, meio ambiente, negócios e filantropia. Na prática, o que ele faz mesmo é ser um relações-públicas e apresentar pessoas entre si, dos mais diversos graus de importância. Ou seja: é uma mistura de lobista com promoter e arroz de festa. Em dezembro, nos shows de Madonna no país, por exemplo, cuidou da lista de convidados vips. Um ano antes, participou do encontro da presidente Dilma Rousseff com o líder do U2, Bono, no Palácio da Alvorada. Ele tem, de fato, amigos influentes. Seu smart­phone lista os nomes de 9?600 figurões ? entre empresários, ministros, xeques, agentes de celebridades de Holly­wood ­? e o de Anderson Dorneles, assessor pessoal de Dilma, a quem chama de "irmão" (procurado por VEJA RIO, Dorneles não retornou as ligações). Trata-se de uma rede de contatos cuidadosamente cons­truí­da nos últimos anos sob inspiração do empresário paulista Mario Garnero, dono de uma colossal agenda repleta de potentados da política e dos negócios internacionais. "Não saberia dimensionar o peso da sua influência, mas acredito que ele tem uma boa rede", atesta o empresário, que frequenta com desenvoltura os salões dos bilionários texanos e da velha aristocracia europeia.

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Muita da visibilidade do Talentoso Pierre, apelido que ganhou em referência ao personagem Tom Ripley, criado pela escritora Patricia Highsmith, decorre de sua destreza na utilização das redes sociais. Quem entra em sua página no Facebook se impressiona com o mosaico de fotos de famosos ao seu lado (algumas delas nitidamente retocadas para ter o impacto ampliado). Há registros com os ex-presidentes americanos Bill Clinton e George Bush pai, a rainha Sílvia da Sué­cia, o cantor Justin Bieber, a atriz americana Kate Hudson, o ex-presidente Lula, entre outros. Mas nenhum é tão intrigante quanto um flagrante ao lado de Barack Obama. Pierre conta que o clique foi feito em um evento de captação de recursos em Nova York, em 2009. Mas ao olhar atento causa estranheza a regularidade da sombra que contorna as silhuetas ? parece montagem meio malfeita. Para o perito Ricardo Molina, um dos maiores especialistas do ramo no país, algum editor de imagem passeou mesmo por ali. "Há registro de alterações nos dados e a proporção de altura entre eles não bate, uma vez que Obama tem mais de 1,80 metro e Pierre, 1,67 metro", analisa o técnico. Pierre se explica: "Havia um grande investidor atrás de nós que não podia aparecer, por isso a foto foi alterada. Mas eu estava lá, sim", garante.

Não há dúvida, no entanto, de que ele circula por alguns dos salões mais coruscantes e exclusivos do planeta. É figurinha fácil nos bailes de gala da BrazilFoundation e fica em hotéis luxuosos como o Bellagio, de Las Vegas, e o Hôtel de Paris, em Mônaco. As despesas correm por conta dos clientes ? empresários daqui que querem ser apresentados a nomes de peso ou artistas. "Encontro com ele em tudo que é evento, aqui e fora do país. É um fofo", derrete-se a apresentadora Luciana Gimenez. Ele também é dono de uma memória e lábia prodigiosas. Diz ler textos do cientista britânico Charles Dar­win (1809-1889), mas gosta mesmo é de desfiar frases que remetem a banalidades dos livros de autoajuda ? "Revolução gera evolução" ou "O que você sente você atrai; o que você acredita torna-se realidade". Seu cartão de visita é a presidência da Casa Thomé de Souza, organização que criou em 2006 para realizar projetos de caridade, palestras, seminários e afins e que, segundo ele, está presente em 34 países. Pierre diz pertencer à 11ª geração do primeiro governador-geral do Brasil, Tomé de Sousa, fidalgo português morto em 1579. Especialistas no assunto são reticentes quanto à história, principalmente porque Pierre se recusa a exibir documentos que provem a linhagem. "É óbvio que não vou mostrar, isso é assunto de família", dispara ele. Alguns profissionais que orbitam o mundo do poder encaram as histórias e a presença de Pierre com desconforto, conforme explicita um assessor do alto escalão do governo estadual: "Ele vai se insinuando, diz que resolve coisas e vive caçando pessoas importantes para aparecer ao lado. Mas é apenas um papagaio de pirata de luxo". Pierre não se abala. Em seu feito mais recente, marcou presença na tribuna presidencial do Maracanã, a poucos metros de Dilma e do governador Sérgio Cabral, na reinauguração do estádio, em abril. Ninguém sabe quem o convidou. Mas que ele estava lá, estava.

Fonte: VEJA RIO