A Fera do Rock

Liminha, o nome por trás do melhor do pop-rock nacional

Baixista da banda Os Mutantes e produtor de mais de 180 discos, Liminha, 64 anos e três netos, tornou-se o faz-tudo da música pop brasileira

Por: Pedro Tinoco - Atualizado em

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O cenário foi montado na Cidade das Artes, em uma das salas do complexo. Sob o calor da iluminação e na mira das câmeras, os integrantes da banda tocavam com energia, como se diante deles houvesse uma plateia ensandecida. Solícitos, repetiam os números quantas vezes fosse preciso. Por quatro dias, em jornadas que chegavam a ultrapassar doze horas de duração, foi essa a rotina do conjunto capitaneado por um dos mais experientes músicos em atividade no país. Entre colegas algumas décadas mais novos, como os guitarristas Rodrigo Nogueira, do grupo Suricato, e Thiago Castanho, ex-Charlie Brown Jr, ele se apresentava com a desenvoltura e o vigor de um garotão. Não bastasse a performance no palco, ao fim de cada canção, vencia de dois em dois os quase trinta degraus da escada que leva até um espaço anexo onde ficava a mesa de som. Precisava conferir o resultado: além de tocar no grupo, estavam sob sua responsabilidade os arranjos e toda a concepção musical da empreitada. No papel desse faz-tudo bem-disposto, Liminha, 64 anos, músico e produtor de mais de 180 discos desde o fim dos anos 70, encarava o desafio de traduzir para as novas gerações sucessos do pop rock nacional. Uma tarefa em que tem sido muito bem-sucedido.

Nova aposta do selo Musickeria, as gravações fazem parte do projeto Rock in Rio 30 Anos Box Brasil, que será lançado em setembro, às vésperas de nova edição do festival nascido na cidade, em 1985. As sessões registradas na Barra da Tijuca vão abastecer um DVD, dois CDs, fichários de partituras, faixas para venda digital e aplicativos, entre outros produtos. Ao todo serão trinta hits nacionais, um para cada ano de vida do Rock in Rio, interpretados por nomes que praticamente se confundem com a história do rock verde-amarelo. Reencontros, como o dos Paralamas do Sucesso com Inútil, do Ultraje a Rigor, que eles defenderam na primeira edição do Rock in Rio, dividem espaço com surpresas, a exemplo de Polícia, do Titãs, na voz de Marcelo D2, Tempo Perdido, da Legião Urbana, em interpretação emocionante de Paulo Ricardo, ou A Menina Dança, dos Novos Baianos, revisitada pela conterrânea Pitty. “Mudamos bastante os arranjos, mas nossa preocupação foi manter a pegada rock’n’roll”, diz o baixista e produtor, que na semana passada trabalhava nas faixas em seu estúdio no Humaitá.

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Frejat, Liminha e Thiago Castanho gravando o projeto Rock in Rio 30 Anos Box Brasil (Foto: Selmy Yassuda)

Seu QG, batizado como Nas Nuvens, é um casarão sossegado, que ele compartilha com Shadow, fêmea de labrador, e o simpático vira-lata Vanderlei. Dividido em dois espaços para gravação e mixagem, é um ambiente caseiro submetido eventualmente ao entra e sai de técnicos e músicos envolvidos nos trabalhos em andamento. Na semana passada, enquanto a sala do 1º andar era destinada à finalização do Box Brasil, a unidade do andar térreo abrigava o engenheiro de som que burilava canções gravadas em Nova York, no começo do ano, pelo Capital Inicial. Esse repertório entrará em um DVD ao vivo, o segundo acústico do quarteto brasiliense, com previsão de chegar às lojas em dois meses. Os dois projetos fecham uma agenda agitada que movimentou o estúdio encarapitado na encosta do Corcovado. Ali, acaba de ser concluído um CD que reuniu o brasileiro Moska e o argentino Fito Paez, a ser lançado pela Sony até o fim do mês. No início do ano, quem circulou por lá foi Paula Toller, que gravou seu quarto disco-solo, Transbordada. Com o trabalho, a musa do rock carioca dos anos 80 retomou uma velha parceria com o produtor — os dois não trabalhavam juntos desde Tomate, de 1987, um dos três álbuns do Kid Abelha produzidos por Liminha. “Queria um disco para cima, turbinar o show, e pensei no reencontro. Ele sugeriu fazermos as músicas juntos e tocou tudo em estúdio. Só não cantou porque eu não deixei”, faz graça a cantora. Mais recente, o projeto Exagerado 3.0, também da Musickeria, celebrou os trinta anos do sucesso-solo de Cazuza, com o registro original da voz do cantor, que morreu em 1987, inserido em novo arranjo, uma criação de Liminha, interpretada por ele, João Barone, Dado Villa-Lobos e Kassin. Lançada em junho, a música voltou ao topo das paradas. “Nas rádios, ficamos em segundo lugar no Rio e entre os dez primeiros em São Paulo, Brasília e Belo Horizonte”, lembra Luiz Calainho, dono do selo e idealizador do projeto. A agenda de 2016 já começa a ser preenchida. “Fui convidado para trabalhar na Olimpíada, ainda faltam algumas definições, mas a ideia é reunir uma banda e tocar direto, todos os dias, nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos”, conta o produtor, com os olhos verdes brilhando.

Tamanha empolgação resiste ao longo tempo de estrada do paulista Arnolpho Lima Filho. Sua mãe era pianista clássica, formada em conservatório. O pai, farmacêutico e um bamba das cordas: tinha em casa — e tocava — violão, viola, cavaquinho, bandolim e violino. Liminha, esse era seu apelido de infância, aprendeu um pouco com ambos. Dois anos mais velha, a irmã ainda contribuiu ensinando-lhe três ou quatro acordes no violão. A evolução musical foi de banda em banda, até o grupo Os Baobás, com o qual gravou pela primeira vez — os singles Light My Fire (The Doors) e The Dock of the Bay, sucesso de Otis Redding — e que acompanhou Caetano Veloso em curta temporada no fim dos anos 1960. Quando chegou a hora do vestibular, o jovem Arnolpho foi aprovado para economia, nas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), na mesma época em que aceitou o convite de Sergio Dias, Arnaldo Baptista e Rita Lee para integrar Os Mutantes, a mais influente banda de rock brasileira. “Foi a minha verdadeira faculdade”, conta. De 1969 a 1974, Liminha viajou um bocado com o lendário grupo — nas drogas e na música, mas também a Paris e Londres. “Cara, a gente tomava ácido direto nessa passagem por Londres, então a memória fica um pouco afetada”, confessa. Compôs, aprendeu com seus pares a improvisar usando a (pouca) tecnologia existente no Brasil à época e deixou seu nome nas músicas de discos históricos como Jardim Elétrico e Mutantes e Seus Cometas no País do Bauretz.

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(Foto: Arte Veja Rio)

O sonho parecia ter acabado em 1976. Após a separação dos Mutantes, Liminha estava sem banda e seu pai havia morrido. Veio para o Rio passar o réveillon e ficou. Recomeçou como músico de estúdio, na gravadora PolyGram, antes de surgir o convite para trabalhar como assistente na recém-criada filial brasileira da Warner. Na nova companhia, estreou como produtor na gravação de um disco com espevitadas garçonetes-cantoras de uma boate na Gávea, a Frenetic Dancin’ Days, point boêmio que marcou época em apenas três meses de existência. “Elas faziam um sucesso danado. Quando fechamos a casa, a Warner resolveu contratá-las”, conta Nelson Motta, um dos fundadores da boate. A Liminha coube transformar “seis mulheres completamente loucas, falando ao mesmo tempo, empolgadas naquele início de carreira”, segundo as palavras de Nelson Motta, em um conjunto. Frenéticas, lançado em 1977, tornou-se o primeiro disco de ouro da gravadora no Brasil, com mais de 100 000 cópias vendidas.

Começou aí a carreira do produtor requisitado até hoje. Liminha emendou uma feliz sucessão de acertos (confira a lista na pág. 34). Delineou o rock nacional dos anos 1980, com discos de, entre outros, Blitz, Camisa de Vênus, Lobão, Lulu Santos, Paralamas, Ritchie, Titãs, Ultraje a Rigor. Com Gilberto Gil, produziu catorze álbuns, a partir de Luar (1981), e rodou o mundo. Nas viagens por Europa, Estados Unidos, onde viria a morar por onze anos, e Jamaica, aprendeu novas técnicas de gravação. Em 1984, criou o Nas Nuvens, junto com Gil. “Liminha é até hoje um grande amigo, parceiro. Na coisa musical, gosto da mistura de precisão com sensibilidade e bom gosto dele. Nas nossas viagens e como produtor, ele lidou com diversos gêneros, diversos artistas, ganhou erudição. Aprendemos muito, eu e ele”, diz o músico baiano.

De fato, Liminha se fartou nessas temporadas internacionais. “Lá fora, eu comprava livros de eletrônica, equipamento, buscava tirar o máximo. Fiquei viciado em equalização, frequências, o espectro das vozes feminina e masculina”, conta. Entre os suvenires que trouxe do exterior estão uma fenomenal coleção de microfones, alguns deles dos anos 1950, que hoje fazem parte do acervo do Nas Nuvens. Toques de colegas estrangeiros, como Humberto Gatica, que gravou Michael Jackson e Metallica, entre outros astros, completaram sua formação. “O produtor é um tradutor das ideias do artista. Liminha é um craque nisso. E ajuda o fato de ele ser um músico extraordinário”, elogia Charles Gavin, baterista dos Titãs. Trata-se de uma opinião isenta: Gavin já provou a ira do produtor durante as gravações. É famosa a cena do documentário Titãs — A Vida Até Parece uma Festa, de 2008, em que Liminha esculacha uma virada de bateria de Gavin com palavras duras. Ouvem-se as frases “Essa é uma banda de rock, cara” e “Isso aí parece o Yes”, proferidas pelo produtor, numa referência à banda inglesa de rock progressivo, execrada pelos adeptos de uma versão mais crua do gênero. “Hoje encaro a comparação com o Yes como um elogio”, faz piada Gavin. “Mas o fato é que eu estava tentando fazer uma coisa e não estava saindo. Estava empatando a gravação.” Em ensaio mais recente, o cantor Toni Platão foi alvo de um olhar fulminante ao confessar que não tinha preparado determinada música antes de se encontrar com o mestre. Foi o suficiente. “Rapaz, levei uma olhada que nunca mais esqueci. E nunca mais repeti o erro”, lembra.

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(Foto: Arte Veja Rio)

Se existe um ambiente em que produtores de primeira grandeza se sentem à vontade é o estúdio. Liminha não é exceção à regra, mas tem outros dois grandes prazeres na vida. Um é tocar. Esbanja destreza no baixo e na guitarra e diverte-se com sua coleção de quase setenta instrumentos. Com os amigos, inventa formações variadas. A lista vai do surf rock do The Silvas, ao lado de João Barone (bateria) e Toni Platão (voz), ao Shinkansen, com Toninho Horta (guitarra), Jaques Morelenbaum (cello) e Marcos Suzano (percussão). Investida mais recente, os Desumanos reúnem, além dele, o produtor Kassin, o baterista Stéphane San Juan, o cantor e compositor Felipe Cordeiro e seu pai, Manoel Cordeiro. O outro prazer é namorar. Galã hippie nos anos 1970, ele nunca se casou, teve três filhas de relacionamentos diferentes — a cantora Tita Lima, a produtora Nina Lima e a atriz Alice Assef — e já ganhou três netos. Vovô sarado, costumava viajar com o amigo Barone para esquiar. O produtor adora fazer musculação e pedalar quilômetros pela cidade. Há dois anos, foi arrastar um sofá em casa e... “Fez um croc na coluna, bateu a dor e pintou uma pequena hérnia de disco. No ano passado tive uma crise de coluna e agora estou meio devagar. Sou velho, cara”, diz. Tudo bem, Liminha. No palco, ninguém repara.

Fonte: VEJA RIO