A HORA DA ESTRELA

Com sucesso no cinema, Regina Casé se reencontra como atriz

No longa Que Horas Ela Volta?, apresentadora do Esquenta! vive a empregada Val. O filme já rendeu importantes prêmios internacionais e está cotado para disputar o Oscar

Por: Sofia Cerqueira e Pedro Moraes

Regina Casé
(Foto: Léo Aversa)

Nas primeiras sessões internacionais do filme Que Horas Ela Volta?, a performance de Regina Casé como a empregada Val chamou atenção pela espontaneidade. De tão realista, alguns jornalistas chegaram a acreditar que o longa-metragem de ficção era um documentário que retratava a vida de uma doméstica de verdade. O espanto foi ainda maior quando souberam que a protagonista era uma atriz tarimbada, com mais de quatro décadas de carreira e um programa semanal fixo na maior emissora de televisão brasileira, o Esquenta!, da TV Globo. “Tenho cara de nordestina mesmo, de mulher do povo. E representar esse tipo de personagem para mim é uma honra”, diver­te-se Regina ao relatar o episódio. Gestado por quase uma década pela diretora Anna Muylaert, o filme retrata a delicada relação entre uma família de classe média alta e a babá, depois convertida em empregada da casa. Ela acompanha o crescimento do filho dos patrões e vê sua vida e convicções virando do avesso com a chegada da própria filha, uma jovem idealista e de personalidade forte, que deixara ainda criança em Pernambuco. Mesmo abordando um conflito sob uma perspectiva tipicamente brasileira, a produção, que estreou nos cinemas nacionais no último dia 27, foi aclamada pela crítica europeia e americana, com resenhas entusiasmadas no The Wall Street Journal e no The Los Angeles Times, entre outros. A repercussão foi tamanha que está levando a própria Regina, aos 61 anos, a reavaliar sua carreira de atriz, hoje ofuscada pelo trabalho como apresentadora e comediante. “Tem uma geração que me assiste no Esquenta! e não sabia que eu atuava. Acho uma maldade comigo”, afirma, para então fazer uma pausa e completar a frase num tom sem falsa modéstia: “E com o público também”.

Infografico filme
(Foto: Equipe Veja Rio)

Antes mesmo de entrar em cartaz no circuito nacional, Que Horas Ela Volta? já causava burburinho. A fama da produção brasileira foi alavancada pelo site americano Indiewire — respeitada referência do cinema independente internacional — e pela revista britânica Screen, que a apontaram como forte concorrente ao próximo Oscar de melhor filme estrangeiro. “Tocante, engraçado, perspicaz e simples”, elogiou a publicação inglesa. Há ainda a aposta de que Regina seja indicada ao prêmio de melhor atriz, igualando o feito de Fernanda Montenegro, em 1999, com Central do Brasil. “Minha avó dizia que, quanto maior o coqueiro, maior é o tombo. Faço tudo para não criar muita expectativa, mas seria lindo”, diz ela. O Ministério da Cultura divulgará na quinta (10) o representante brasileiro na corrida ao prêmio. A expectativa se justifica. Que Horas Ela Volta? arrebatou o júri do Sundance Festival, nos Estados Unidos, a ponto de ser criado um prêmio especial de melhor atriz, concedido a Regina e Camila Márdila (intérprete de Jéssica, a filha de Val). Entre outras honrarias, foi o eleito do público na mostra Panorama, do Festival de Berlim, na Alemanha. A previsão é que a produção seja exibida em 22 países. Por aqui, o longa teve um tímido desempenho nas bilheterias no seu primeiro fim de semana, com 26 100 espectadores em 91 salas — a comédia Linda de Morrer, com Gloria Pires, cravou a marca de 234 000 pagantes em sua estreia, em 522 telas, segundo o site Filme B. Os números comprovam que não se trata de um blockbuster. O roteiro percorre o espinhoso terreno da relação entre patrões que não pegam nem um copo d’água e empregados em ascensão, que viajam de avião. A direção de Anna Muylaert deixou o elenco livre para improvisar os diálogos. “Regina não é uma atriz fácil de trabalhar, é inteligente e questionadora. Eu a considero um gênio comparável a Chaplin”, afirma.

Frases Regina Casé
(Foto: Equipe Veja Rio)

A personagem multifacetada de Que Horas Ela Volta? foi uma oportunidade única para Regina. Depois de mais de dez anos fazendo só participações especiais e apresentando programas de auditório, ela está em uma espécie de encruzilhada profissional, em busca de novos desafios. Pouco antes de começar a rodar o filme de Anna Muylaert, havia estrelado Made in China, uma comédia dirigida por seu marido, Estevão Ciavatta — a produção passou apenas quatro semanas em cartaz e atraiu cerca de 300 000 espectadores, número modesto para as comédias nacionais. Para viver Val, Regina apresentou-se de cara lavada, como naquela brincadeira de internet em que as atrizes surpreendem os fãs com sua aparência livre de cosméticos. Durante as filmagens, ela não usou maquiagem, mas se valia de um spray que era borrifado sempre no rosto para deixá-lo com o aspecto de suado, vestia camisetas sobrepostas e um uniforme gigante, manequim 52. “Fico um pouco incomodada de me ver daquela forma”, confessa. Adepta de um estilo muito peculiar de se vestir, a atriz gosta de misturar grifes caríssimas, como Prada, com peças garimpadas no comércio popular. “A minha sandália preferida é uma de oncinha, que comprei no Saara”, conta. Nos pés, entretanto, ela trazia um chiquérrimo par de sapatos da marca francesa Hermès. Seguidora de uma dieta pouco ortodoxa, em que reserva uma semana por mês para se alimentar apenas com saladas e sopas, ela não se acanha em atacar um prato de pães de queijo. No entanto, se existe algo que azede seu bom humor é falar sobre seu peso. “Conhece alguma mulher no mundo que faça isso? Acho que nem a Kate Moss”, diz. 

  • Voltar ao início

    Compartilhe essa matéria:

  • Todas as imagens da galeria:

Na última semana, em meio à celebração da estreia nacional da produção, Regina tornou-se alvo de uma grosseria cometida pelos cineastas pernambucanos Lírio Ferreira e Cláudio Assis, em um debate realizado no Recife com a presença da diretora Anna Muylaert, após a exibição do filme. Visivelmente bêbados, os dois desfiaram comentários machistas a respeito da diretora, e Assis se referiu à atriz como “gorda”. O ataque repercutiu nas redes sociais e sites de internet voltados a celebridades e levou a direção da instituição que sediou o evento a banir os dois cineastas de sua programação pelos próximos doze meses. “Isso me entristeceu muito. Como pode uma coisa tão feia, tão baixa e tão pobre ganhar tanto destaque?”, questiona a atriz. Dona de uma personalidade forte e de uma espontaneidade desconcertante, Regina carrega um histórico de polêmicas. No mês passado, uma integrante da plateia do Esquenta! disse ter sido obrigada a devolver no fim das gravações um brinquedo que havia ganho de presente durante o programa. Segundo a produção, os brinquedos foram distribuídos à plateia para que os participantes encenassem uma doação a instituições de caridade. Alguns não teriam entendido a proposta e achado que os presentes eram para eles. “Os brinquedos não eram brinde, e sim parte de uma ação filantrópica”, justifica ela. Situação bem mais complicada aconteceu em novembro de 2014, envolvendo a mãe de um dançarino do programa assassinado no Morro do Pavão-Pavãzinho, em Copacabana. Na época do crime, a apresentadora chegou a ir ao enterro do rapaz, conhecido como DG, e recebeu a mãe, Maria de Fátima Silva, nos estúdios do Projac. Logo depois, Maria de Fátima passou a chamar a apresentadora de “farsante” e “mentirosa” em entrevistas. Disse que não pôde criticar a polícia em seu depoimento dado ao Esquenta! e que suas declarações foram cortadas. “Recebo em meu programa pessoas que não são artistas e não pertencem àquele ambiente da televisão”, argumenta Regina. “É natural que isso me deixe mais exposta e leve a situações que não são comuns em outras atrações”, acredita.

Que Horas Ela Volta?
Em cena no filme Que Horas Ela Volta? como a empregada Val (Foto: Divulgação)

Em meio ao torvelinho levantado pelo sucesso no cinema, Regina Casé tenta adequar novos planos profissionais à agitada vida pessoal. Mãe de Benedita, de 26 anos, sua filha com o artista plástico Luiz Zerbini, ela adotou, com o marido, há dois anos, o pequeno Roque. A chegada do bebê, na época com 4 meses, foi resultado de um longo processo iniciado em 2006 e interrompido dois anos depois. Na ocasião, Estevão sofreu um gravíssimo acidente: caiu de um cavalo num local próximo à casa da família em Mangaratiba, no exclusivo Condomínio Portobello. “Quando cheguei ao hospital, o médico disse que ele estava tetraplégico”, lembra. Durante seis meses, ninguém sabia se ele se recuperaria. Quatro enfermeiros passaram a fazer parte da rotina da casa, uma cobertura no Leblon. O projeto do segundo filho foi suspenso e retomado apenas quando Estevão começava a se recuperar. “A chegada de Roque foi uma surpresa, pois simplesmente me telefonaram dizendo que o bebê estava me esperando”, recorda. “Enquanto uma amiga ia buscá-lo, eu saí para a rua como uma doida para comprar berço, enxoval, roupinha.” Regina comemorou a chegada do caçula com uma festa de batizado para 600 pessoas na propriedade de Mangaratiba, que marcou também seus 60 anos. Na cerimônia, celebrada segundo os ritos de cinco religiões (católica, evangélica, judaica, budista e do candomblé), apenas o Parabéns a Você se estendeu por intermináveis quarenta minutos, cantado em várias versões e idiomas. “A Regina tem como lema ‘A felicidade é um compromisso terrestre’”, conta Estevão, citando uma frase dos tempos do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, no qual ela iniciou sua carreira.

  • Voltar ao início

    Compartilhe essa matéria:

  • Todas as imagens da galeria:

Nascida em Botafogo, filha do diretor de TV Geraldo Casé e neta de Ademar Casé, pioneiro do rádio no Brasil, Regina tornou-se uma celebridade nacional em 1986 com a novela Cambalacho, em que interpretava a tresloucada Tina Pepper. Encerrado o folhetim, passou a fazer parte do humorístico TV Pirata e em seguida do Programa Legal. Em meados dos anos 90, arriscou novos rumos como apresentadora dos programas Brasil Legal, Muvuca e Central da Periferia, em que entrevistava pessoas comuns em incursões pelos rincões do país e nos bairros pobres das grandes cidades. Apesar de ter mergulhado na pobreza do país, ela é categórica ao dizer que não gosta de favela. “Imagina, quem é que gosta? Um lugar difícil, sem saneamento nem segurança. Ninguém gosta. Mas isso não significa que não devemos dar voz a essas pessoas e sua cultura.” Com 21 filmes no currículo, a atriz conquistou o público em Eu, Tu, Eles, de 2001. No longa, dirigido por Andrucha Waddington e exibido na mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes, ela vive uma hilária sertaneja que tem três maridos. “A Regina é uma comunicadora, mas a base de tudo é o seu trabalho de atriz”, observa o amigo e diretor Guel Arraes, produtor de Que Horas Ela Volta?. Nos últimos anos, ocupada com seus programas de auditório e projetos de viagem, ela manteve essa faceta adormecida, a ponto de recusar convites como o feito pelo novelista João Emanuel Carneiro na época de Avenida Brasil. Agora, animada com o sucesso de Val, ela está disposta a aceitá-los.

Fonte: VEJA RIO