PERFIL

A estrela do festival

Aos 31 anos, Leandra Leal desponta como uma das grandes atrizes de sua geração ao protagonizar quatro filmes na principal mostra de cinema do Rio

Por: Ernesto Neves - Atualizado em

Tomás Rangel
(Foto: Redação Veja rio)

Fora do circuito frequentado pelos turistas que abarrotam Nova York, o Bowery Ballroom é uma sala de concertos voltada para um público intelectualizado e descolado. Na noite de segunda-feira (16), quem se apresentava ali era a artista plástica, cantora e compositora Yoko Ono, viúva do ex-beatle John Lennon. Entre tantas cabeças pensantes nova-iorquinas, a atriz carioca Leandra Leal aproveitava uma rara brecha em uma fase particularmente agitada de sua vida. Dias antes, na quarta-feira (11), ela havia sido aplaudida pela plateia do Scotiabank Theater na estreia mundial de O Lobo Atrás da Porta, exibido no Festival de Toronto. No filme, do diretor estreante Fernando Coimbra, Leandra tem o papel de amante de Milhem Cortaz, que por sua vez é casado com Fabíula Nascimento. Assim que desembarcou no Galeão, no dia 18, ela já começou a se preparar para outra epopeia. Leandra é o maior destaque do Festival do Rio, que começa na quinta-feira (26), estrelando quatro produções indicadas a premiação. Além do filme exibido no Canadá, há a comédia romântica Mato sem Cachorro, em que é par de Bruno Gagliasso; o experimental O Uivo da Gaita, projeto de baixo orçamento em que faz uma sequência tórrida com Mariana Ximenes; e O Rio Nos Pertence, obra independente produzida por ela própria. "Não está fácil, pois no ano passado tive apenas quinze dias de férias e neste foram cinco", diz ela. "Mas não reclamo. Como esta é uma profissão de altos e baixos, tenho de aproveitar o máximo possível as boas fases."

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(Foto: Veja Rio)

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Aos 31 anos, Leandra de fato vive um momento profissional notável. Com seu ar debochado de menina espevitada, ela colhe os frutos de uma longa trajetória que se estende por mais de duas décadas. Sua primeira aparição na televisão foi em 1990, no último capítulo da novela Pantanal, o maior sucesso da extinta Rede Manchete. Ela era a filha da personagem Juma Marruá, vivida por Cristiana de Oliveira. Sete anos depois, debutou no cinema em A Ostra e o Vento, em que contracenava com Lima Duarte e Fernando Torres numa fita que chegou a ser indicada ao Leão de Ouro no Festival de Veneza. Desde então, transita com absoluta desenvoltura entre a telona e a telinha, com incursões esporádicas pelos palcos. Seu currículo, comparado ao de colegas de sua faixa etária, impressiona. Ela já atuou em dezenove longas-metragens e 24 produções para a televisão, entre novelas, minisséries e seriados. Leandra, no entanto, não é apenas uma atriz prolífica. Ela é talentosa. E uma das mais laureadas de sua geração. Conquistou até agora dezoito prêmios, o último deles o de melhor atriz no Festival de Gramado, em agosto, por Éden. Na ocasião, encantou os jurados com sua pungente interpretação de Karine, uma jovem grávida cujo marido foi assassinado e que se envolve com um pastor evangélico do subúrbio carioca. "É provavelmente um dos personagens mais marcantes de minha carreira", afirma.

Papéis densos como a viúva de Éden não a intimidam. Na verdade, são seus trunfos em uma carreira em que é clara a alternância de tipos marotos e populares com os de alta voltagem dramática. Na televisão, tal versatilidade fica mais evidente para o grande público: é só comparar a empreguete Rosário, de Cheias de Charme, novela de 2012, com a combativa Zélia Vilar, de Saramandaia, remake da novela de Dias Gomes, cujo último capítulo vai ao ar na sexta-feira (27). "Leandra é o tipo que mergulha completamente em um personagem e não tem medo de correr riscos", diz a atriz Mariana Ximenes, sua amiga há quinze anos. Não que isso seja fácil. O filme O Lobo Atrás da Porta, por exemplo, quase se transformou em um tormento. "Era muito diferente de tudo o que eu tinha feito: complexo, intenso, um grande desafio", lembra. "Fiquei praticamente dois meses sem dormir, com insônia. Foi uma história que me afetou muito."

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(Foto: Veja Rio)

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Para um artista em formação, só existe uma coisa mais difícil do que alcançar o estrelato: manter-se nele. E quando se começa cedo, como estrela infantil, são grandes as possibilidades de um brilho efêmero (veja o quadro). Leandra escapou dessa armadilha. Filha da atriz Ângela Leal, conviveu desde pequena com o meio artístico. Aos 5 anos, vencia com dificuldade os degraus do palco do Teatro Rival, arrendado pelo avô Américo Leal, para representar enredos imaginários, uma de suas brincadeiras preferidas. "Antes mesmo de aprender a ler, ela queria passar o texto comigo", lembra Ângela. Aos 12 anos, Leandra viveu uma experiência traumática com a morte do pai, o advogado Júlio Braz, vitimado por uma crise de hipertensão fulminante. Foi quando decidiu que faria tudo para ser atriz, mesmo que isso implicasse sacrifícios. Dois meses depois da tragédia, como em um estranho sinal do destino, um telefonema causou perplexidade na casa de Leandra. Do outro lado da linha, um funcionário da TV Globo procurava pelo doutor Júlio. Ele queria conversar sobre a fita de vídeo que o advogado havia deixado no banco de talentos da emissora. Júlio não contara a ninguém que havia inscrito a filha em um teste. Nem mesmo Ary Coslov, diretor responsável pela seleção, sabia do parentesco da candidata com Ângela. "A notícia fez Leandra sorrir pela primeira vez desde a perda do pai", rememora a mãe. Selecionada, ela foi aceita para o papel da cigana Yanka, em Explode Coração. "Desde garotinha, ela sempre foi muito aplicada. Quando começou no cinema, então, passou a estudar com enorme afinco seus personagens, um aprendizado que levou para a televisão", explica o cineasta Walter Lima Júnior, diretor de O Vento e a Ostra.

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(Foto: Veja Rio)

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Quem vê Leandra pela primeira vez se espanta com sua espontaneidade e seu estilo rebelde, muito distante do glamour hiperproduzido, tão comum em quem ganha a vida à frente das câmeras. O cabelo curtinho, tingido de louro-claro, as roupas em tons sóbrios e uma grande tatuagem de um coração nas costas dão o tom de uma personalidade forte. Ansiosa, é fumante inveterada. Tentou parar seguidas vezes, mas ainda não conseguiu. "Na última delas, fiquei dez meses longe do cigarro, mas não aguentei e tive recaída", confessa. Desde muito jovem briga com a balança e recentemente adotou treinos de musculação de alta intensidade para manter a forma. Discreta quanto à exposição de sua vida pessoal, prefere não comentar seus relacionamentos amorosos. Entre 2003 e 2010 viveu com o cantor Lirinha, ex-vocalista do grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado. Naquele período, mudou-se para São Paulo, aproveitando a temporada para fazer cursos de dança e atuação. Desde 2010, namora o produtor Alê Yousseff, sócio da boate Studio RJ. Frequentadora dos shows realizados na casa, não só gosta de música como mergulha a fundo no assunto. Tanto que se tornou uma embaixadora informal da música nordestina no Rio ao criar o projeto Rival Mais Tarde, em que abriu espaço para iniciantes e promoveu encontros da MPB. Ela se sente à vontade, para valer, nos lugares simples, como em botecos da Zona Sul ou no salão do Cordão do Bola Preta. "Quando a conheci eu tinha 16 anos e ela, 12. Naquele tempo ela já gostava de samba", conta Taís Araújo, com quem trabalhou em Cheias de Charme. "Íamos à quadra da Mangueira e, depois, passávamos no Bob?s, de madrugada, para comer."

Além do gosto pela cultura popular, Leandra herdou da mãe a personalidade contestadora. Das passeatas que varreram o país em junho aos direitos dos homossexuais, não se esquiva de levantar bandeiras em público e fala sem pudor sobre suas posições políticas. Não tem medo de provocar polêmica. Em 2006, criou o blog Alice Me Persegue, em que publicava textos nos quais exercitava seu aguçado senso crítico para avaliar o desempenho de colegas da TV Globo e até mesmo de autores da casa. Obviamente, os comentários causaram mal-estar na emissora. Nos últimos tempos, reduziu sua atuação na internet e em redes sociais. "Não tenho mais tempo nem interesse em fazer o blog", explica. Com talento para mostrar no cinema e na televisão, nem precisa.

Fonte: VEJA RIO