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Sem meias palavras

Às vésperas da estreia de Fina Estampa, sua próxima novela das 9, o autor Aguinaldo Silva destila comentários afiados, divertidos e certeiros sobre tudo e todos

Por: Sofia Cerqueira - Atualizado em

Fernando Lemos
(Foto: Redação Veja rio)

A cena é digna dos melhores folhetins. Os alunos de um tradicional colégio religioso estão agitados, envolvidos na eleição anual da rainha da primavera. Quando todos os estudantes aguardam em um auditório pela apuração do resultado, o professor encarregado da contagem emudece ao abrir o primeiro voto. Amassa a cédula e a joga fora, sem dizer uma palavra. Pega outro papel e, de novo, o descarta. Assim faz sucessivamente, até que, indignado, decide cancelar o escrutínio. A essa altura, todos os olhares e cochichos têm como alvo um garoto tímido e sensível sentado a um canto da plateia. O menino percebe que toda a escola havia votado nele, numa brincadeira cruel orquestrada pelos colegas de sua classe. De tão envergonhado, não volta para casa. Vai para uma praça, onde chora compulsivamente.

O relato acima poderia ser um ótimo ponto de partida para um filme ? ou novela ? sobre bullying juvenil, mas é real. Aconteceu em 1957 no Colégio Americano Batista, no Recife. O garoto em questão é o hoje escritor Aguinaldo Silva, 67 anos, um dos mais festejados autores do país. Por mais de meio século, ele escondeu a história de familiares e conhecidos. Recentemente contou o episódio a um amigo e, desde então, decidiu que não havia mais espaço em sua vida para velhos rancores, mágoas ou recalques. A confissão de um trauma de infância coincide com uma fase nova na trajetória do dramaturgo. De uns tempos para cá, ele resolveu dizer tudo o que passa pela sua cabeça. ?Quando você chega a uma certa idade, tem de optar: ou continua a ser hipócrita, ou fala o que pensa?, explica. ?Vivemos numa época em que as pessoas só se preocupam em se preservar. Para quê? Para a tumba?? Às vésperas de estrear sua 13ª trama, Fina Estampa, no próximo dia 22, Aguinaldo Silva transformou-se em uma das personalidades mais ferinas da TV. Sem medo de se envolver em polêmicas, delicia seus admiradores com comentários afiados sobre tudo e todos. Mesmo que isso signifique atrair o ódio de suas vítimas.

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Em um universo como o da televisão, em que as palavras são medidas e todos fingem fazer parte de uma grande família, ele se destaca pelo comportamento sui generis. Atores, atrizes, nomes consagrados da música, celebridades internacionais como Justin Bieber e Lady Gaga, políticos ? não há assunto que escape dos seus petardos. Para ele, Gilberto Braga, autor de Insensato Coração, atual cartaz das 9 que será sucedido por Fina Estampa, faz gênero cada vez que declara não gostar de escrever novelas. Dispara também contra o apresentador Zeca Camargo, do Fantástico, ao comentar que ele criou um tipo garotão que não condiz com sua idade (48 anos). É especialmente cruel com o ator Murilo Benício, que despontou para o estrelato em uma novela sua (Fera Ferida, de 1993). ?Não entendo o que ele diz. Esse rapaz precisa fazer um curso de dicção?, ataca. O queridinho Fábio Assunção é outro alvo de sua metralhadora giratória por ter abandonado as gravações de Insensato Coração alegando problemas com drogas. ?Por que então aceitou o convite e começou a gravar??, pergunta.

joão miguel júnior/tv globo
(Foto: Redação Veja rio)

Suas opiniões ácidas proliferam com especial vigor na internet. Ali, no ambiente virtual, elas servem de combustível para apimentar reportagens em sites de celebridades e fofocas em geral. Desde que descobriu o Twitter, há um ano, tem alimentado seu microblog com mensagens polêmicas e provocações variadas. São notórias suas caneladas em Chico Buarque. Em novembro passado, escreveu que a safra de escritores andava ?fraquinha?, já que o compositor havia recebido o Prêmio Jabuti pelo livro Leite Derramado. Em fevereiro, voltou à carga: ?Gênios da literatura como Chico Buarque de Hollanda existem a dar com pau. Agora, autores capazes de escrever novelas das 8 são só cinco!?. Em entrevista a Veja Rio, completa: ?Sou fã do Chico como compositor, mas ele não é esse grande escritor que as pessoas dizem. Escreve a mesma história há quatro livros?. Também não poupa os defensores do bom-mocismo. ?Agora vivemos numa democracia, mas existe uma ditadura ainda maior que nos tolhe a criatividade: é a do politicamente correto. Nessa ditadura, anão é cidadão verticalmente prejudicado, negro é afrodescendente. Ninguém bebe, ninguém fuma, qualquer ofensa é malvista. E vocês ainda se perguntam por que a televisão anda tão chata??Tamanha sinceridade decorre do status conquistado dentro da TV Globo nos últimos anos. Na última década, nenhuma outra novela foi capaz de igualar Senhora do Destino em audiência. Exibida entre 2004 e 2005, ela registrou uma média de 54 pontos, contra os 35 de Insensato Coração. Mesmo considerando-se que os hábitos dos telespectadores mudaram muito nos últimos seis anos, o que tem derrubado os indicadores, trata-se de um feito notável. Embora o autor não revele cifras, sabe-se que um dramaturgo do seu porte ganha por mês entre 400?000 e 500?000 reais, valor que pode aumentar com os contratos de merchandising. ?Aguinaldo alcançou um patamar que lhe permite certos privilégios, entre eles o de dizer o que quiser?, comenta José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que comandou a emissora até 1997. Há quem veja sua verborragia, no entanto, como uma estratégia de marketing. ?Ele sabe como poucos usar essa ferramenta de extrema visibilidade junto a um público formador de opinião para difundir a sua obra e chamar atenção para sua personalidade polêmica?, diz Luiz Léo, professor de mídias globais do curso de comunicação social da PUC.

Fernando lemos
(Foto: Redação Veja rio)

Jornalista de formação e antigo repórter policial, Aguinaldo estreou como roteirista na TV Globo em 1979, quando foi convidado para escrever a série Plantão de Polícia. A primeira novela, Partido Alto, viria cinco anos depois. O sucesso, porém, chegou em 1985, com a convocação para escrever Roque Santeiro, obra iniciada por Dias Gomes uma década antes. Naquela época, Aguinaldo já dava alguns sinais da sua personalidade apimentada. Quando faltavam algumas semanas para o final, foi chamado pela direção da TV e obrigado a ceder o lugar a Dias Gomes, que queria escrever os últimos capítulos. Oficialmente, seria uma homenagem. Ele, entretanto, se recusou a acobertar a história. A insubordinação não foi bem-vista, mas o episódio acabou sendo dado como encerrado. Em seguida, seu talento voltou a se confirmar com Tieta, em 1989, uma adaptação do romance de Jorge Amado. ?Ele tem uma curiosidade natural, que leva a uma dramaturgia rica, persistente e movimentada?, afirma o diretor Wolf Maia, responsável por Fina Estampa.

Escrever uma novela de sucesso vai além das fórmulas prontas. Há variáveis como a empatia do público, a verossimilhança dos personagens e o desempenho dos atores. No caso de Fina Estampa, Aguinaldo pretende investir firme no gênero popular e abusar do humor e da emoção. O enredo vai girar em torno de uma discussão: o que conta mais para o ser humano ? o caráter ou a aparência? Para criar os tipos, ele se inspirou nos jornais ? lê três por dia ? e em pessoas que conheceu nas ruas. A protagonista, Lília Cabral, será uma viúva portuguesa que faz pequenos consertos para sustentar os filhos. Surpresa: haverá um único personagem homossexual. Interpretado por Marcelo Serrado, ele idolatra sua patroa, interpretada por Cristiane Torloni. Beijo entre pessoas do mesmo sexo está fora de questão. ?O telespectador não quer?, justifica. ?Neste momento tem gay demais na televisão.?

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(Foto: Redação Veja rio)

Cada vez que começa a escrever, Aguinaldo mergulha em um regime de trabalho que define como ?cárcere privado?. Metódico e disciplinado, acorda religiosamente às 5h30. Uma hora e meia depois, está diante do computador. Antes, cumpre uma espécie de ritual. Vaidosíssimo, usa um creme para o corpo, outro para os olhos e mais dois para o rosto. Só trabalha perfumado e vestido com roupas de grife. No dia em que recebeu VEJA RIO, usava mocassins e echarpe Louis Vuitton, calça Ermenegildo Zegna e camisa Hugo Boss. Depois de pelo menos nove horas de trabalho, quando escreve 35 páginas (ou um capítulo), é ele quem prepara o próprio jantar. É quando consegue relaxar. Costuma assistir às suas novelas assim que vão ao ar e ainda tem o hábito de ver pelo menos meia hora de um filme ou um seriado ? que podem variar de clássicos como A Malvada, com Bette Davis, a séries como a americana Mad Men, sobre o mundo da publicidade nos anos 60. Tudo cronometrado. O confinamento segue até o derradeiro capítulo. Aguinaldo conta que enquanto Duas Caras esteve no ar, por exemplo, só saiu duas vezes do lar. É bom deixar claro que, quando fala em lar, ele pode estar se referindo a qualquer uma de suas cinco propriedades ? uma casa e um flat na Barra, um apartamento no Centro, um sítio em Itaipava e um imóvel em Lisboa.

irineu barreto filho/tv globo
(Foto: Redação Veja rio)

O sucesso como autor permite a Aguinaldo uma vida confortável ? e alguns caprichos. Sua mansão de cinco quartos e piscina na Barra é repleta de obras de arte nos estilos art nouveau e art déco. Quando está entediado, costuma realizar o que chama de viagens camicases. Como é uma pessoa independente e mora sozinho, arruma uma malinha, vai para o Galeão e escolhe a esmo um destino no painel. Só então compra a passagem e embarca. Já viajou assim para Buenos Aires, Madri e Orlando ? ele adora os parques da Disney, para onde já foi oito vezes. ?Gosto de ficar andando no meio de toda aquela gente do mundo inteiro?, revela. Esteja onde estiver, não para com suas provocações. ?Alguém aí ainda aguenta as Ritas, Gadus e Carolinas cantoricando a mesma musiquinha sem graça durante seis meses??, escreveu ele no Twitter, em julho, referindo-se a canções feitas para as aberturas de novelas. ?Apesar de ser uma pessoa tranquila, ele enfrenta a vida com o atrevimento de um jovem. Não tem medo de se expor?, define a atriz Susana Vieira, uma de suas melhores amigas e também famosa pela língua afiada. Aguinaldo, de fato, não se incomoda com os críticos: ?Dizem que eu falo demais, mas os outros é que falam de menos?.

Fonte: VEJA RIO