Por trás da obra-prima

Trabalhos na mostra de Picasso ajudam a entender Guernica

Exposição em cartaz no CCB traz peças que explicam uma das criações máximas do pintor

Por: Rafael Teixeira - Atualizado em

Guernica
Guernica, um retrato do desespero provocado pelo bombardeio da cidade homônima por aviões alemães: pintado em menos de dois meses, em 1937, o óleo está no museu Reina Sofía, em Madri, desde 1992, e de lá não sai, pelo bem de sua preservação (Foto: Divulgação)

Durante a II Guerra Mundial, vivendo em uma Paris sob ocupação da Alemanha nazista, Pablo Picasso (1881-1973) foi, certa vez, interpelado por um oficial do Führer a respeito de Guernica. Nela, que é uma de suas criações máximas, o artista retrata, à sua maneira cubista, o bombardeio da cidade homônima, ao norte da Espanha, por aviões alemães. Diante de uma reprodução do quadro, o militar perguntou: “Foi o senhor que fez isso?”. O pintor respondeu: “Não, foram os senhores”. Com 3,5 metros de altura por quase 8 de comprimento, o monumental painel não integra o acervo da exposição Picasso e a Modernidade Espanhola, em cartaz desde a semana passada no CCBB — e, no entanto, se faz presente em nove trabalhos (confira quatro deles no quadro ao lado). São, em sua maioria, estudos em técnicas variadas (óleo, grafite, guache, colagem, entre outros materiais, foram utilizados). Três deles são posteriores à conclusão da obra, mas relacionam-se diretamente com ela. Nas imagens, é possível identificar figuras emblemáticas da famosa pintura, como uma mulher em prantos, um cavalo assustado e uma pessoa tentando escapar das chamas. “Guernica é como a estrela maior de uma galáxia, em torno da qual os planetas giram. Mais do que esboços, alguns desses trabalhos podem ser apreciados independentemente”, afirma o curador espanhol Eugenio Carmona, para quem a mostra, que já passou por Florença e São Paulo, encontrou seu melhor palco no Rio.

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Criada sob encomenda do governo espanhol para a Exposição Internacional de Paris, em 1937, Guernica tornou-se um marco na trajetória de Picasso. “É uma síntese de tudo o que ele havia feito anteriormente, com referências à arte primitiva e negra, ao cubismo, à colagem, além de conter elementos que recuperam a memória clássica”, analisa o curador. Na época, o pintor estava interessado no tema da relação entre o artista e suas modelos, mas concluiu que o assunto não era apropriado para representar um país envolvido em um conflito bélico, a Guerra Civil Espanhola — deflagrada em 1936, após um fracassado golpe de Estado por parte de um setor do Exército contra o governo democrático do país. Em maio de 1937, ao ler uma reportagem sobre a destruição da cidade basca pelos nazistas, apoiadores do futuro ditador Francisco Franco, Picasso resolveu que esse seria o tema da pintura encomendada. A partir de um mergulho na própria imaginação e em figuras recorrentes de sua obra, a exemplo do minotauro, finalizou Guernica em menos de dois meses. Exibida primeiro na capital francesa, a obra foi levada depois a Nova York, onde ficaria por anos no Museu de Arte Moderna (MoMA). Por ordem de Picasso, a pintura só deveria voltar à Espanha quando esta se tornasse uma democracia. Em 1981, já devidamente convertida em um dos mais poderosos libelos artísticos contra os horrores da guerra, Guernica foi devolvida a seu país, inicialmente ao Museu do Prado, sendo transferida, em 1992, ao Museu Reina Sofía, de onde nunca mais saiu, pelo bem de sua preservação. “De acordo com os restauradores, a obra não pode mais ser transportada”, explica Carmona. Por aqui, ao menos, sua história pode ser admirada, nas palavras do curador, através dos “planetas” que giram em torno dela.

Fonte: VEJA RIO