CARNAVAL

Palco Iluminado

Além de ter produzido mudanças físicas que aumentaram sua capacidade e agora oferecem mais conforto ao público, a ampla remodelação na Sapucaí vai mexer com a concepção artística do desfile, que começa neste domingo

Por: Sofia Cerqueira - Atualizado em

carnaval-abre.jpg
(Foto: Redação Veja rio)

Quando a Renascer de Jacarepaguá despontar na Avenida Marquês de Sapucaí, às 9 da noite deste domingo (19), não estará em jogo apenas o título de campeã do Carnaval, disputado por treze escolas de samba. Começará naquele instante um novo capítulo da história dos desfiles cariocas. Após dez meses de obras, a passarela inaugurada há 28 anos ganha, enfim, seu desenho original, conforme o projeto de Oscar Niemeyer. A ampla reforma mudou radicalmente a configuração do complexo e concedeu uma nova dimensão ao palco do maior espetáculo do país. Demolido em abril, o horrendo paredão de concreto que se estendia ao longo da pista deu lugar a uma extensa faixa de frisas e quatro lances de arquibancada. Com as modificações, o Sambódromo pode receber agora 72?500 espectadores, um aumento de 20% em sua capacidade. "É o início de uma nova revolução no desfile", afirma Jorge Castanheira, presidente da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa).

Com razão, a expectativa é enorme. Para começar, as mudanças estruturais puseram um fim na desproporção do conjunto. Anteriormente, sete dos nove setores de arquibancada ficavam no lado esquerdo. Assim, a maioria dos sambistas atravessava a passarela olhando apenas para um lado da pista. Além de darem um novo aspecto ao Sambódromo, as modificações prometem influenciar diretamente a concepção artística do show, a exemplo do que já ocorreu no passado, com o erguimento da estrutura de concreto, há quase trinta anos. Uma das consequências da elevação das arquibancadas, bem mais altas que as armações tubulares usadas até então, foi o gigantismo que tomou conta das alegorias a partir de meados dos anos 80. Desta vez, a tendência se reforça. Os módulos de assentos construídos recentemente aumentaram a distância entre a plateia e os componentes lá embaixo. Em razão disso, os carnavalescos trataram de adaptar suas criações à configuração atual. Conhecida por conceber carros menores e de acabamento impecável, Rosa Magalhães, da Vila Isabel, pentacampeã do Sambódromo, resolveu apostar em um monumental abre-alas, dotado de uma estrutura hidráulica que permite atingir até 16 metros de altura. "Este ano vai ser de observação, mas a tendência é que as alegorias no futuro cresçam ainda mais", opina a experiente profissional, que desenvolveu um enredo sobre Angola. "A parte alta dos carros ficou bem mais exposta", acrescenta Cahê Rodrigues, responsável pelo Carnaval da Grande Rio, cujo tema é a superação.

Depois de uma cirurgia plástica em que contou com um mutirão de até 800 operários na reta final, a Passarela Professor Darcy Ribeiro (seu nome oficial, que ninguém usa) foi formalmente reinaugurada no domingo passado, exibindo outra aparência (veja o quadro). Perdeu o aspecto claustrofóbico de antes, quando a fachada de três andares de camarotes ficava a 1 metro da pista. Além de tornar o Sambódromo mais arejado, a obra alterou para valer os sistemas de luz e som. Como a Sapucaí ficou simétrica, com blocos espelhados de arquibancadas, a iluminação terá o mesmo posicionamento nos dois lados da avenida. Serão 41 torres de luz com 512 projetores, um acréscimo de 25% em relação ao sistema anterior. Um ganho de intensidade e também de sutileza. Antes das mudanças, os equipamentos ficavam no alto do caixotão de concreto. Por estar muito próxima da pista, a luz acabava chapando tudo. Com os refletores mais afastados e emitindo feixes laterais, ela tende a acentuar as nuances de fantasias e carros alegóricos. Igualmente pela primeira vez instalado em ambos os lados, o sistema de sonorização está 50% mais potente. A expectativa é que o som se propague melhor e assim realce a voz dos componentes e o ritmo da bateria. Os ensaios técnicos das escolas, realizados desde o começo de janeiro, serviram de laboratório para que as agremiações se adaptassem às novidades. Sem a barreira acústica que reverberava o batuque, e muitas vezes o embaralhava, os mestres de bateria trataram de adaptar a formação percussiva à nova realidade. Eles se preocuparam em reforçar o naipe de surdos, nome do instrumento maior e mais grave, responsável por ditar todo o andamento da bateria. "Como o som ficou mais espalhado, não queremos correr o risco de os componentes se perderem e atravessarem o samba", explica Luiz Calixto Monteiro, o mestre Casagrande, da Unidos da Tijuca.

clique na imagem abaixo e veja como ficou a passarela

[---FI---]

Prevista desde a própria inauguração, a ampliação da passarela só se tornou possível graças a um acordo entre a prefeitura e a AmBev, empresa proprietária da área onde fica parte do complexo. A cervejaria arcou com os 30 milhões de reais gastos na reforma e cedeu ao município um pedaço de seu terreno. Em troca, adquiriu o direito de erguer no local um prédio comercial de até 80 metros de altura (26 andares), cuja obra deve começar neste ano. Ele será construído atrás dos quatro novos lances de arquibancadas, à direita de quem desfila. Cada um desses módulos tem três bocas de acesso, uma a mais que os da frente, e elevador para portadores de necessidades especiais. Logo abaixo dos degraus de concreto ficam os dois níveis de camarotes, com 48 unidades em cada bloco, metade deles provida de varandas debruçadas sobre o asfalto. No térreo foram criados corredores de frisas, com aproximadamente 4?500 lugares. Graças ao alinhamento dos novos módulos, o setor 10, que tinha a visibilidade comprometida por ficar bem ao lado do paredão de camarotes, virou um espaço valorizado, de onde é possível enxergar todo o cortejo. "Sem dúvida, ficou muito mais emocionante, tanto para o público quanto para quem desfila", destaca Renata Santos, rainha de bateria da Mangueira.

O Carnaval carioca deve atrair neste ano 850?000 turistas e movimentar 628 milhões de dólares. Seu ponto alto, o desfile das escolas de samba será transmitido para 115 países. Apesar do aumento da capacidade, porém, o Sambódromo pode ser considerado pequeno para tamanha demanda de público. Em menos de meia hora, foram vendidos todos os 36?000 lugares das arquibancadas especiais para os desfiles de domingo e segunda, com preços entre 160 e 400 reais. A disputa foi acirrada em todos os setores. Houve cinco interessados para cada um dos 353 camarotes postos à venda. O mais famoso deles, o da Brahma, depois de alguma incerteza quanto a seu futuro, será montado pelo 22º ano consecutivo. Esse espaço, que tem como musa desta vez a estrela americana Jennifer Lopez, foi mais um que sofreu alterações significativas. A partir deste ano, os convidados terão a opção de ficar em frisas ou varandas, sem precisar disputar um lugar nos concorridíssimos janelões, como ocorria no passado. "Não vamos ter de ficar inventando atrações para dispersar o público. Agora, ele terá a chance de ver de fato o espetáculo", afirma o empresário paulista José Victor Oliva, organizador do camarote.

A reinauguração do Sambódromo coincide com a celebração dos oitenta anos dos desfiles das escolas de samba no Rio. Realizado pela primeira vez em 1932, na Praça Onze, o cortejo pioneiro terminou com a vitória da Mangueira. Nos primórdios, as agremiações tinham entre setenta e 100 foliões, um número ínfimo se comparado à multidão de hoje, com 4000 componentes por escola. Antes de pousarem de vez na Marquês de Sapucaí e acentuarem o processo de gigantismo, os desfiles foram realizados em diversos lugares da cidade (veja o quadro acima). Mesmo depois dos altos investimentos e da reforma recém-concluída, a passarela já é alvo de outros projetos. Para o próximo ano, o prefeito Eduardo Paes pretende dotá-la de iluminação cênica, um recurso almejado há muito pelos carnavalescos. Como acontece em peças teatrais e shows, os desfiles passariam a ter um esmerado tratamento de luz, com regulagem na posição dos projetores, mudança na intensidade da luz e controle de cor a critério dos carnavalescos. Há outra obra de grande porte prevista para 2013, com a construção de uma nova arquibancada popular no início da avenida, em frente ao setor 1. Para isso, será necessário desapropriar o prédio onde funciona o Juizado de Menores. Num futuro próximo, toda essa grandiosa estrutura servirá também à Olimpía­da de 2016, pois ela abrigará as competições de tiro com arco e a linha de chegada da maratona. Até lá, cabe aos atletas da folia fazer o melhor uso do complexo.

confira os locais onde os desfiles já foram realizados

[---FI---]

Fonte: VEJA RIO