DANÇA

Os três mosqueteiros

Os homens que dão forma aos devaneios da coreógrafa Deborah Colker

Por: Letícia Pimenta - Atualizado em

Fernando Lemos
(Foto: Redação Veja rio)

Uma companhia de dança não se resume à figura do coreógrafo e seus bailarinos. Em torno deles gravitam dezenas de colaboradores e funcionários. Do contrarregra ao produtor executivo responsável pela captação de patrocínio, todos têm a missão de pôr o espetáculo de pé. A carioca Deborah Colker soube tirar proveito máximo dessa premissa ao reunir um trio de parceiros de primeiríssima linha, que trabalham a seu lado desde o início da companhia, em 1994. O cenógrafo Gringo Cardia, o iluminador Jorginho de Carvalho e o produtor musical Berna Ceppas são a força criativa por trás dos devaneios de Deborah. Com temperamento esquentado, a loura de 1,60 metro e 50 anos de idade costuma justificar a longevidade da parceria dizendo que se sente entre iguais com os três amigos. Todos falam o que pensam e batem o pé quando têm convicção de suas ideias. Discussões acaloradas fazem parte do trabalho desde sempre. "Foi uma briga à primeira vista", brinca Berna Ceppas, o músico da trupe.

O processo de criação dos espetáculos de Deborah Colker normalmente é intenso e turbulento, e a nova montagem da companhia, o balé Tatyana, que estreia na quarta-feira (25) no Theatro Municipal, não foge à regra. Acostumados a coreografias repletas de movimentos vigorosos e acrobacias, tudo embalado por música pop, os parceiros se surpreenderam com a nova obra. Em Tatyana, Deborah se aproximou da tradição clássica, em uma produção baseada no romance Evguêni Oniéguin, do russo Aleksandr Púchkin (1799-1837). A trilha traz peças de compositores também russos, como Rachmaninoff e Tchaikovsky. "No início foi um choque. Eles temiam perder o público que conquistamos", conta Deborah.

A reação dos parceiros comprovou quanto é complexo juntar grandes talentos ? e egos. Berna Ceppas, 46 anos, conhecido por sua perícia em lidar com a diversidade musical brasileira, achou que ficaria sem função em um espetáculo tão, digamos, russo. Mas a coreógrafa convenceu o instrumentista a seguir em frente e ele acabou imprimindo um tom contemporâneo às partituras, com colagens sonoras e remixagens. Fundador da Orquestra Imperial, Ceppas é um dos pioneiros no uso de sampler para manipular sons e criar melodias e efeitos. Fez trilhas publicitárias e enveredou pelo cinema, no qual brilhou em 2 Filhos de Francisco. Mas foi ao lado de Deborah que trabalhou num dos projetos mais complicados de sua carreira ? a trilha sonora de OVO, espetáculo concebido para o Cirque du Soleil, atualmente em turnê pelos Estados Unidos. "Lidar com toda aquela estrutura foi novidade para mim", diz ele.

Walter Carvalho/ Divulgação
(Foto: Redação Veja rio)

Trabalhar para o Cirque du Soleil é como se aventurar por uma grande corporação, uma organização gigantesca, com orçamentos milionários, altamente hierarquizada e praticamente sem flexibilidade para mudanças. Além de Ceppas, o cenógrafo Cardia, de 54 anos, acompanhou Deborah na empreitada. Acostumado a tocar pelo menos dez trabalhos ao mesmo tempo, abriu mão de todos eles durante os dois anos em que se dedicou à montagem produzida pelo circo canadense. Nesse período, entre 2008 e 2009, estreitou ainda mais a amizade com Deborah, que remonta a meados dos anos 70. "Nos intervalos do trabalho em Montreal íamos até Nova York passear", lembra. Gaúcho de Uruguaiana, radicado no Rio desde a adolescência, sempre teve aptidão para o desenho. "Fui estudar arquitetura porque morria de medo de virar artista plástico de feira hippie", explica. Logo se enturmou com grupos de teatro e dança e começou a produzir cenários. Em seguida, passou a conceber o visual de shows, videoclipes, desfiles de moda e até museus. Em Tatyana, Cardia e Deborah tiveram sérias divergências ? ela não queria usar cenário no segundo ato e ele não aceitava a decisão. "Surgem faíscas o tempo todo", diz Cardia. "Deborah gosta que seus parceiros trabalhem sob intensa emoção."

Dos três escudeiros da bailarina, o iluminador Jorginho de Carvalho, 64 anos, foi o que aceitou com mais naturalidade as novidades de Tatyana. Amigo de Deborah há mais de três décadas, é visto como o elemento conciliador do grupo. Em várias circunstâncias, foi intermediário nas discussões acaloradas entre Deborah e Cardia. Com quase cinquenta anos de carreira, o iluminador autodidata tem uma trajetória que se confunde com a história do teatro brasileiro. De Paulo Autran a Fernanda Montenegro, passando por Ziembinski, ele já trabalhou com os mais importantes artistas do país e formou uma geração de profissionais que estão entre os mais requisitados do mercado, entre eles Maneco Quinderé e Aurélio de Simoni. Embora tenha fama de apaziguador, ele, como os outros dois parceiros, não escapa dos arranca-rabos com sua "chefinha", como se refere a Deborah. Em um ensaio na véspera da pré-estreia em Curitiba, com a presença de muitos jornalistas no teatro, a coreógrafa dirigiu-se a ele aos gritos: "Que luz é essa?", reclamou, de cima do palco. "Calma, chefinha, ainda não está pronta!", devolveu Jorginho, provocando estranhamento entre os presentes. Sempre que conclui cada trabalho, Deborah se diz convencida de que será impossível engatar um novo projeto com os três mosqueteiros. Mas a convicção dura pouco. "Não vivo sem eles", confessa.

Companhia de Dança Deborah Colker (Tatyana) ? Theatro Municipal, Praça Floriano, s/n°, Centro (2 200 lugares), ☎ 2332-9191. Qua. (25) a sex. (27), 21h. Sáb. (28), 17h e 21h. Dom. (29), 17h. R$ 20,00 a R$ 90,00.

Fonte: VEJA RIO