Devoradores de livros

Bienal reúne jovens leitores que impulsionam o mercado

Fãs de livros com idades entre 14 e 24 anos influenciam os lançamentos de títulos e autores e criam best-sellers instantâneos

Por: Sofia Cerqueira

O estudante Alexandre Nunes
Jovem leitor na Livraria da Cultura (Foto: Felipe Fittipaldi)

Maior evento literário do país, a Bienal do Livro do Rio passou por mudanças drásticas para sua próxima edição, que começa na quinta (3). A área de exibição teve um aumento de 55 000 para 80 000 metros quadrados, em comparação com a do evento de 2013, e novidades foram incorporadas, como um jardim com mesas de piquenique, esteiras para leitura e um pátio de food trucks. Outra inovação é uma central para distribuição de senhas para as sessões de autógrafos dos autores mais requisitados e espaço suficiente para acomodar filas com até 1 200 pessoas. Para quem não dispensa o registro da visita nas redes sociais, haverá um imenso painel onde será possível tirar selfies para postar no Facebook e no Instagram. O motivo de tantas transformações é agradar a um público bastante específico, que tem feito a festa das editoras no mercado brasileiro de livros: os jovens leitores. Trata-­se de uma legião de aficionados com idade entre 14 e 24 anos, ávidos por novidades e fanáticos por seus autores favoritos. Na edição anterior, os organizadores do evento se surpreenderam com a devoção dessa turma. Um de seus autores prediletos, o americano Nicholas Sparks, que escreveu Diário de uma Paixão, passou oito horas autografando livros. Ainda assim, cerca de 2 000 fãs ficaram do lado de fora da sessão. “Tivemos de nos render a essa nova demanda. Vivemos uma invasão jovem”, diz Marcos Pereira, sócio da editora Sextante e presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), entidade responsável pela mostra.

A estudante Natalia Leal
Natalia Leal, de 17 anos: fã das distopias e leitura de até dez livros por mês (Foto: Felipe Fittipaldi)

A relevância dessa onda juvenil de leitores é confirmada em números. Um estudo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) em parceria com o Snel mostrou que em 2014, no que se refere à quantidade de exemplares produzidos no mercado nacional, os números da literatura infantojuvenil superaram os da literatura adulta: 57,3 milhões contra 48,4 milhões, respectivamente. E uma rápida análise da lista de mais vendidos de VEJA comprova o poder desse segmento. Só na categoria ficção, sete dos dez líderes do ranking têm esse público como alvo. Um reflexo da consistência do fenômeno é a própria Bienal carioca. Se na edição de 2007 apenas 24% dos visitantes estavam na faixa etária dos 14 aos 24 anos, na edição passada o porcentual foi de 44%. “Chegamos a criar áreas e programação específicas para jovens antes, mas fomos deixando a proposta de lado, uma vez que eles simplesmente não frequentavam esses espaços. A história hoje é outra”, atesta Tatiana Zaccaro, diretora da Fagga, que organiza a feira com o Sindicato dos Editores.

a estudante Mariana Eduarda Oliveira
Maria Eduarda Oliveira, de 14 anos: biblioteca de 200 livros e viagem a Los Angeles com autora favorita (Foto: Felipe Fittipaldi)

 Dos 27 convidados estrangeiros da edição atual, treze escrevem para esse público. Entre os destaques internacionais estarão Colleen Hoover (autora de Hopeless), Sophie Kinsella (da série Os Delírios de Consumo de Becky Bloom) e o britânico Joseph Delaney (As Aventuras do Caça-Feitiço). Fã de romances e de literatura fantástica, a estudante Natalia Leal, de 17 anos, já planeja uma maratona de tietagem no Riocentro, que visitará em seis dos dez dias de Bienal. “Adoro ler. Cheguei a devorar dez livros em um mês. O autógrafo de um autor que eu aprecie faz muito mais sentido para mim do que o de um ator famoso”, diz a jovem, que estará nas filas de assinatura de Leigh Bardugo e Sophie Kinsella. Estudante de letras, Mariana Bittencourt, de 18 anos, pretende sair de casa, no Catumbi, às 5 da manhã rumo a Jacarepaguá em todos os dias do evento. “Quero ser uma das primeiras a entrar. Já fiz loucuras para ver os autores de perto”, conta. Há pouco mais de um mês, ela passou quinze horas na porta do Cine Odeon atrás de um garrancho do escritor John Green, em visita ao Rio para o lançamento do filme Cidades de Papel, baseado em seu livro homônimo. 

A jovem Maria Bittencourt
Mariana Bittencourt: quinze horas de plantão para conseguir um autógrafo de John Green (Foto: Felipe Fittipaldi)

O movimento que se observa no Brasil não é um fato isolado, mas parte de um contexto global. Trata-se de um fenômeno que eclodiu com obras como a saga Crepúsculo, dos vampiros e lobisomens adolescentes criados por Stephanie Meyer, que registrou mais de 120 milhões de exemplares vendidos mundo afora, e se mantém por meio de outros lançamentos que repetem aqui sua trajetória bem-­sucedida no exterior. É o caso da série Diário de um Banana: essa coleção de nove livros, que conta as desventuras de um garoto que é humilhado pelos colegas na escola, vendeu 5 milhões de exemplares no mercado nacional, apenas 500 000 a menos do que nos Estados Unidos. É no embalo de tal performance que o autor, o americano Jeff Kinney, de 44 anos, desembarca na cidade pela segunda vez (a primeira foi em 2013, para o lançamento do sétimo livro da coleção). “A vendagem alcançada no Brasil foi uma surpresa. Acredito que a Bienal será um marco na minha carreira”, comenta ele, bem informado sobre o frisson que costuma envolver os encontros de autores com os fãs no Riocentro.

estudante Laís Lana
A piauiense Laís Lana, estudante da UFRJ: sem livrarias na sua cidade, ele lia na internet (Foto: Felipe Fittipaldi)

 Atentas ao fenômeno juvenil, as editoras brasileiras têm reforçado sua atuação nesse segmento. O Grupo Record, o maior do país em se tratando de livros não didáticos, por exemplo, concentra suas apostas no selo Galera. A subdivisão, que nasceu em 2007 com uma previsão de sessenta lançamentos por ano, agora chega a ter noventa títulos a cada doze meses e já representa 30% do faturamento do grupo. Vários desses best-­sellers superaram a marca de 1 milhão de exemplares vendidos — um número estrondoso, levando-se em conta que a tiragem média brasileira é de 3 000 exemplares. Entre eles estão O Diário da Princesa e Os Instrumentos Mortais, das autoras Meg Cabot e Cassandra Clare, respectivamente. Outra referência em apostas certeiras nesse filão é a editora Intrínseca. “A gente percebeu o fenômeno logo no início e a necessidade de ter um olhar atento para esse público”, explica o editor Jorge Oakim. A empresa detém os direitos de megassucessos como Crepúsculo — 6 milhões de unidades vendidas no país —, a série de mitologia Percy Jackson e os ultracampeões de John Green (A Culpa É das Estrelas e Cidades de Papel). Na seara nacional, a mineira Isabela Freitas, que alcançou 300 000 exemplares comercializados com seu livro de estreia, Não Se Apega, Não, é uma das apostas da Intrínseca. Ela segue o mesmo caminho de arrasa-­quarteirões como Thalita Rebouças, da Roc­co, que vendeu 1,5 milhão de exemplares de vinte títulos. “A gente está conseguindo mostrar que os livros podem ser populares, que isso não é ruim e que o jovem lê, sim”, diz Thalita.

Infografico
convidados internacionais Bienal do Livro (Foto: Arte Veja Rio)

 Até recentemente, acreditava-se que edições volumosas de centenas de páginas e letras miúdas tinham pouca chance de sobrevivência entre o público jovem, acostumado à velocidade da internet e ao fascínio dos videogames. A realidade acabou contrariando tal previsão. Em parte, o cinema cumpriu o papel de popularizar histórias protagonizadas por personagens como Katniss Everdeen, a heroína da distopia futurista Jogos Vorazes, ou o trágico romance dos jovens Hazel Lancaster e Augustus Water, em A Culpa É das Estrelas, chamando atenção para os livros que deram origem aos filmes. E a internet, por sua vez, se tornou uma plataforma paralela que potencializa o impacto dos livros, em fóruns de discussão, videologs, blogs e fanpages, e laboratório para futuros autores. Leitor compulsivo, o estudante de publicidade Alexandre Nunes, de 21 anos, tem um gosto eclético, que vai de clássicos, como Lucíola, de José de Alencar, a obras de fantasia e chick lits, uma espécie de romance açucarado. “Quando estou pesquisando livros, tenho de me controlar. Já comprei trinta de uma vez só”, conta. Não satisfeito em apenas ler, ele já teve blog e até montou um canal no YouTube para compartilhar suas opiniões sobre livros. “Para mim, livro e internet se complementam”, diz. Na categoria de novatos que estreiam na web para depois se aventurar no formato impresso está a curitibana Kéfera Buchmann, de 22 anos. Com mais de 13 milhões de seguidores nas redes sociais, ela lança no Riocentro Muito Mais que 5inco Minutos, seu primeiro livro, editado pelo selo Paralela, da Companhia das Letras. Só no primeiro dia de pré-venda foram encomendados 16 000 exemplares. Na obra, Kéfera expande os relatos de seu cotidiano repletos de piadas e nonsense que publica no formato de vídeos na internet. “Eu sempre gostei de escrever; desde os 17 anos estou na internet. Agora apareceu essa oportunidade para ampliar o que eu já vinha fazendo on-line”, explica.

fila para autógrafos na Bienal do Livro de 2013
Fãs na fila de autógrafo, na última Bienal: multidão de jovens no Riocentro (Foto: Divulgação)

 O ambiente virtual permite um grau de interação inédito entre autores e leitores. Por meio das redes sociais, os fãs deixam elogios, críticas e opiniões nas páginas dos escritores — e costumam ser exigentes. “A maior pressão que sofremos hoje não é dos editores, mas dos leitores que falam diretamente conosco seja pelo Twitter, seja pelo Facebook. Eles devoram os livros e, quando você lança um, já pedem outro”, conta Paula Pimenta, que estourou com a série Fazendo Meu Filme 1,2,3 e 4 e ampliou seu campo de atuação no relacionamento com seu séquito de admiradores. Há três anos, acompanha adolescentes em viagens por cenários de suas histórias no exterior. Louca por livros e dona de uma biblioteca que já ostenta 200 volumes, Maria Eduarda Oliveira, de 14 anos, embarcou em julho numa dessas excursões para Los Angeles. “Foi a realização de um sonho e voltei com mais vontade de ler”, diz Duda, que devora um título por semana e mantém um blog em que publica suas impressões. Nascida no Piauí, em uma cidade que não tinha livrarias, a estudante de letras da UFRJ Laís Lana Medeiros, de 21 anos, basicamente utilizava a internet para ler e se informar sobre suas obras favoritas. No Rio há três anos, ela se mantém afinada com as novidades e compra cerca de cinco livros por mês. “Para mim, quando um jovem diz que não gosta de ler é porque não encontrou ainda um estilo que o prenda”, diz a garota, que é apaixonada por livros de fantasia desde a adolescência. Para quem apostava que o público juvenil se afastaria cada vez mais do livro, a história tem caminhado para um final bem diferente. 

Fonte: VEJA RIO