CINEMA

Fotografia nas telas da caixa cultural Rio

Fotocine 2013 ? A Fotografia no Cinema reúne 22 filmes e séries nos quais a fotografia é protagonista

- Atualizado em

Programação

25 de junho de 2013 ? (terça-feira)

16h ? ?Caçadores da Alma?, série de Silvio Tendler ? TV Brasil (Brasil, 2011, 120 min, livre)

Episódios: Retratos da vida; Fotógrafo da Natureza; Fotojornalismo, o Risco da Profissão; Fotojornalismo, a Ética e a Caça

18h30 ? ?Fotografias?, de Andrés Di Tella (Argentina, 2007, 110 min, 16 anos)

26 de junho de 2013 (quarta-feira)

16h ? ?Coda?, de Marcos Camargo (Brasil, 2008, 9 min, livre)

?Espíritos: A Morte está a seu Lado?, de Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom (Tailândia, 2004, 93 min, 14 anos)

18h ? ?Annie Leibovitz: A Vida através das Lentes?, de Barbara Leibovitz (EUA, 2007, 80 min, 10 anos)

27 de junho de 2013 (quinta-feira)

14h45 ? ?Menina Bonita?, de Louis Malle (EUA, 1978, 109 min, 14 anos)

17h ? ?Partida?, de Alberto Bittar (Brasil, 2005, 4min, Livre)

?Palermo Shooting?, de Wim Wenders (Alemanha, 2008, 124 min, 16 anos)

19h30 ? Debate ? ?O fotógrafo e o fotográfico?, com Pedro Vasquez e Renan Cepeda

Mediação: Andreas Valentin

28 de junho de 2013 (sexta-feira)

16h ? ?Fotógrafo de Guerra?, de Christian Frei (Suíça, 2001, 96 min, 18 anos)

18h ? ?Elvis e Madonna?, de Marcelo Laffite (Brasil, 2010, 105 min, 14 anos)

29 de junho de 2013 (Sábado)

14h ? ?As Pontes de Madison?, de Clint Eastwood (EUA, 1995, 135 min, 12 anos)

16h30 ? ?Antes da Chuva?, de Milcho Manchevski (Macedônia, 1994, 113 min, 14 anos)

30 de junho de 2013 (domingo)

14h ? ?A Prostituta e a Baleia?, de Luis Puenzo (Argentina/Espanha, 2004, 120 min, 16 anos)

16h30 ? ?Fotos Proibidas?, de Frank Pierson (EUA, 2000, 104 min, 16 anos)

18h30 ? ?Shoot Yourself?, de Ricardo Van Steen e Paula Alzugaray (Brasil, 2011, 69 min, 16 anos)

2 de julho de 2013 (terça-feira)

16h ? ?Blow-up - Depois daquele Beijo?, de Michelangelo Antonioni (EUA/ITA, 1966, 111 min, 16 anos)

18h15 ? ?Fragmentos de um Diário?, de Marco Martino e André Príncipe (Portugal, 2010, 74 min, 14 anos)

3 de julho (quarta-feira)

16h ? ?Pecker ? O Preço da Fama?, de John Waters (EUA, 1998, 87 min, 14 anos)

18h ? ?Partida?, de Alberto Bittar (Brasil, 2005, 4 min, livre)

?O Ano que Vivemos Perigosamente?, de Peter Weir (EUA, 1982, 115 min, livre)

4 de julho de 2013 (quinta-feira)

15h15 ? ?Annie Leibovitz: A Vida através das Lentes?, de Barbara Leibovitz (EUA, 2007, 80 min, 10 anos)

17h ? ?Caçadores da Alma?, série de Silvio Tendler ? TV Brasil (Brasil, 2011, 120 min, livre)

Episódios: Fotógrafo da Natureza; Fotojornalismo, o Risco da Profissão; Fotojornalismo, a Ética e a Caça e Retratos da Vida.

19h15 ? Debate: ?Ética e estética na busca da imagem?, com Evandro Teixeira e João Roberto Ripper

Mediação: Andreas Valentin

5 de julho de 2013 (sexta-feira)

16h ? ?Espíritos: A Morte está a seu Lado?, de Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom (Tailândia, 2004, 93 min, 14 anos)

18h ? ?Elvis e Madonna?, de Marcelo Laffitte (Brasil, 2010, 105 min, 14 anos)

6 de julho de 2013 (sábado)

14h ? ?Antes que o Mundo Acabe?, de Ana Luiza Azevedo (Brasil, 2009, 100 min, 10 anos)

16h ? ?Fotografias?, de Andrés di Tella (Argentina, 2007, 110 min, 16 anos)

7 de julho de 2013 (domingo)

14h ? ?Chevolution?, de Luis Lopes e Trisha Ziff (México, 2008, 86 min, 12 anos)

16h ? ?La Jetée?, de Chris Marker, (França, 1962, 30min, 12 anos)

?Shoot Yourself?, de Ricardo Van Steen e Paula Alzugaray (Brasil, 2011, 69 min, 16 anos)

FILMES

O ano em que vivemos perigosamente

(The Year of Living Dangerously, dir. Peter Weir, EUA, 1982, 115 min., livre)

Na década de 1960, a Guerra Fria provocou tensões entre os regimes capitalista e comunista. Alastrava-se o medo de uma terceira guerra mundial e conflitos eclodiam na Ásia, África e Américas. Na Indonésia de 1965 o ditador Sukarno viu seu poder se desmanchar diante das intrigas que envolviam as forças armadas, os EUA, os chineses e os muçulmanos. Nessa guerra civil, jornalistas e fotógrafos tiveram papel importante.

Em sua primeira pauta internacional, o repórter australiano Guy Hamilton (interpretado por Mel Gibson) é designado para cobrir os eventos no calor equatorial da capital Jacarta. Com a ajuda do fotógrafo anão Billy Kwan (papel que rendeu um Oscar de atriz coadjuvante a Linda Hunt), ele se insere na vida social e política da cidade. Seduzido pela beleza de Jill Bryant (assessora do adido militar da Embaixada Britânica, interpretada por Sigourney Weaver) e disposto a tudo para obter um furo de reportagem, Guy acaba ultrapassando alguns limites.

Em seu bangalô, que lhe serve de moradia, ateliê, escritório e laboratório fotográfico, o enigmático Billy Kwan mantém um minucioso arquivo secreto dos jornalistas e diplomatas estrangeiros, contendo informações e, principalmente, fotografias de ?pessoas que se tornarão fantasmas?. Lá, ele também pratica a milenar arte do Wayang, teatro de sombras indonésio. Observando os movimentos projetados na parede, o fotógrafo recomenda ao jornalista: ?você deve observar as sombras, não os bonecos?, lembrando que, na fotografia, as informações podem ser apreendidas além do óbvio da superfície.

Antes da chuva

(Before the Rain, dir. Milcho Manchevski , Macedônia, 1994, 113 min., 14 anos)

No início dos anos 1990, a região dos Balcãs, no sudeste europeu, foi devastada por sangrentos conflitos étnicos envolvendo cristãos e muçulmanos. Milhares de pessoas foram mortas e desenhou-se uma nova geografia política. A Macedônia é uma das várias nações que ressurgiram após a guerra. É lá que se desenrola a trama desse filme de guerra que, em seus três episódios, aponta para a paz.

No primeiro, ?Palavras?, um monge cristão ortodoxo que fez votos de silêncio protege e se apaixona por uma jovem albanesa suspeita de ter assassinado um dos moradores do vilarejo. No seguinte, ?Rostos?, em Londres, uma editora de fotografia inglesa vive o conflito da separação de seu marido e a paixão pelo premiado fotógrafo macedônio Alexander Kirkov, recém-chegado de uma reportagem na Bósnia. No último, ?Fotos?, ele retorna ao vilarejo onde nascera e que não visitava há 16 anos. Lá, procura seus parentes, conhecidos e amores, muitos dos quais, agora, em lados opostos. O conflito dilacera o povoado, suas relações sociais e acaba envolvendo Kirkov. Os três episódios se unem no surpreendente final.

Antes de partir, o fotógrafo comenta que sua câmera matou um homem, pois ele tomara partido. ?Desfrute a guerra. Tire fotos?, acrescenta. Quando volta para sua terra natal, ele está desiludido com a fotografia. Reforçando esse fato, nenhuma foto é tirada durante as quase duas horas do filme. Fotografias são, na verdade, retiradas quando vemos os registros premiados com o prêmio Pulitzer sendo rasgados pelo fotógrafo. Eis a qualidade dessa obra excepcional que, mesmo na sua ausência, reflete sobre a fotografia, o fotógrafo e suas angústias.

Antes que o Mundo Acabe

(dir. Ana Luiza Azevedo, Brasil, 2009, 100 min., 10 anos.)

Por trás de uma história simples, esse filme nos apresenta algumas reflexões importantes para a compreensão da fotografia. Daniel é um adolescente no interior do Rio Grande do Sul enfrentando problemas, entre eles uma namorada que não sabe o que e quem quer, um amigo acusado de roubo e como sair da pequena cidade onde mora. Sua vida começa a mudar quando passa a receber cartas do pai que nunca conhecera.

Daniel, o pai, é um fotógrafo idealista que deixou tudo para trás e foi morar no norte da Tailândia para ?fotografar tudo que houver de diferente, enquanto ainda existir (...) coisas inesquecíveis antes que o mundo acabe?. Daniel, o filho, passa a conhecer seu pai através das fotografias que recebe pelo correio, tanto das paisagens e dos povos nativos daquela região como, principalmente, pelos autorretratos fragmentados que instigam o filho a recompor sua imagem e, assim, se aproximar de seu pai.

A fotografia se mostra aqui em suas inúmeras características: como meio para a compreensão do mundo, reconhecimento de si e dos outros, além de suporte e registro de memórias.

Blow Up (Depois daquele beijo)

(Blow Up, dir. Michelangelo Antonioni, EUA/Inglaterra/Itália, 1966, 111 min., 16 anos)

Nos anos 1960 a juventude nascida durante e logo após a Segunda Guerra Mundial influenciou a política, as artes e a cultura. Foi o início da era do rock, do pop, do underground, da comunicação de massa e do predomínio das imagens.

É justamente a partir de uma imagem fotográfica que Blow Up desenvolve sua trama. Baseado num conto do escritor argentino Julio Cortázar, o filme conta a história do bem-sucedido fotógrafo de moda Thomas (interpretado por David Hemmings) na swinging London dos anos 60. Após registrar num parque um homem e uma mulher desconhecidos, ele revela as fotografias em seu laboratório e, em um pequeno detalhe, descobre o que parece ser um cadáver. Obcecado, tenta desvendar o mistério de um possível assassinato.

Em inglês, o verbo blow up tem um duplo sentido: ampliar fotografias e explodir. A ampliação das imagens até o limite do grão da película fotográfica é como uma explosão do visível, desintegrando-se e se desfragmentando. O filme Blow Up é, também, carregado de múltiplos significados/explosões que trespassam a cultura pop, o consumismo e o exagero.

Elvis e Madonna

(dir. Marcelo Laffite Brasil, 2010, 105 min., 14 anos)

?A câmera é meu instrumento. Através dela dou uma razão a tudo que me rodeia?. Assim, conforme o fotógrafo húngaro André Kertész, conseguimos compreender o mundo em que vivemos. No filme ?Elvis e Madona?, somos confrontados com o irracional. Elvis/Elvira (interpretada por Simone Spoladore) é uma jovem fotógrafa mas que trabalha como entregadora de pizza. Madona (Igor Cotrim) é um travesti que ganha a vida num salão de beleza, faz shows num clube gay e sonha em montar um espetáculo de teatro de revista. Elas/eles se encontram por acaso, tornam-se amigas/amigos e acabam vivendo uma história de amor inusitada.

As fotografias de Elvis buscam dar razão ao inofensivo mundo ao seu redor: o calçadão e as ruas de Copacabana, as pessoas do bairro, os shows de Madona, até que, inesperadamente, sua lente flagra o vilão e cafetão de Madona - com o fotográfico nome de João Tripé ? numa transação de drogas na Avenida Atlântica. Essa foto acaba chamando a atenção do editor de um jornal.

O filme nos cativa não só por seu roteiro bem estruturado e a atuação impecável de Igor Cotrim, como principalmente pelo inusitado.

A história de amor de Elvis e Madona emocionou platéias de cinema no mundo todo, arrematando mais de 30 prêmios em diversos festivais nacionais e internacionais e colecionando elogios dos principais críticos de cinema ao redor do globo.

Espíritos - a morte está ao seu lado

(Shutter, dir. Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom , Tailândia, 2004, 93 min., 14 anos.

Em 1838, o francês Daguerre (conhecido como um dos inventores da fotografia) nos mostra um bulevar de Paris em plena luz do dia. Nessa imagem, no entanto, não há pessoas nas calçadas nem veículos na rua. Tudo está vazio, morto, não fosse um solitário engraxate e seu cliente referindo-nos à vida. Os longos tempos de exposição dos materiais sensíveis à luz não permitiam o registro de movimentos. No final do século XIX, outro francês, Eugène Atget, dedicou-se a fotografar o vazio das ruas parisienses, propositalmente excluindo as pessoas de suas imagens. Mas, de vez em quando, aparecia um ?fantasma? espreitando atrás de uma janela.

Nesse filme, são fantasmas fotográficos que assombram o jovem fotógrafo Thun e sua namorada Jane. Após atropelar uma moça e não lhe prestar atendimento, formas estranhas começam a aparecer nas suas imagens. Amedrontados, investigam o fenômeno. Os amigos de Thun têm mortes trágicas e Jane descobre que Thun não lhe contou tudo sobre o seu passado.

Com todos os clichês de filmes de terror ? portas rangendo, água pingando, trilha musical dramática, mortos com rostos deformados ? ?Espíritos? é um filme divertido, onde a fotografia não só é protagonista da história como também a ferramenta para desvendar os mistérios que assolam o casal. Se a fotografia revelada no laboratório pode ser manipulada, a instantânea Polaroid ?não mente? - como afirma no filme o editor de uma revista sensacionalista de espíritos - e funciona muito bem para caçar e encontrar fantasmas.

Palermo Shooting

(dir. Wim Wenders, Alemanha, 124 min., 2008, 16 anos)

Esse é um filme emblemático sobre a fotografia e o ofício do fotógrafo. Finn (interpretado por Campino, líder da banda alemã de rock ?Die Toten Hosen?) é um reconhecido fotógrafo de Düsseldorf. Ele resolve dar um tempo à sua rotina frenética e viaja para Palermo, capital da Sicília. Lá, ele é perseguido por um misterioso atirador e se depara com o amor e com a morte, brilhantemente personificada pelo ator Dennis Hopper - ele próprio fora um excelente fotógrafo.

Wenders, também um fotógrafo consagrado, relata que ?sempre quis fazer um filme sobre um fotógrafo ? nenhuma profissão contemporânea se vê hoje tão confrontada com o que é ?real? ou ?verdadeiro??. E são justamente essas questões, tão intrínsecas à fotografia, em especial a imagem digital passível de manipulações, que compõem a trama desse ?thriller? moderno. Frank, o personagem interpretado por Hopper, nos aproxima da essência da fotografia, quando diz que ela é ?a vida capturada?, a ?guardiã do tempo? e que o ?negativo é o reverso da vida, o oposto da luz?. AMORES E POÉTICAS LUMINOSAS

Pretty Baby ? Menina Bonita

(Pretty Baby, dir. Louis Malle, EUA, 1978, 109 min.)

Em 1917, Ernest J. Bellocq (interpretado por Keith Carradine) instalou-se com seu equipamento fotográfico no bordel de Madame Nell na zona de Nova Orleans. Como todo fotógrafo, ele também tinha seu lado voyeur. E, assim, estava no lugar certo na hora certa. Pouco tempo depois, a prostituição foi proibida e imagens de mulheres nuas foram consideradas pornografia. Suas fotos das prostitutas, muitas menores de idade, podem não ter lhe proporcionado muito retorno financeiro, mas certamente satisfizeram sua libido e seus desejos íntimos. Pois o ?ato de tirar fotografias estabelece uma relação crônica e voyeurística com o mundo e nivela a significação de qualquer acontecimento.

Quase cem anos depois, com a ampla difusão da pornografia, em especial a pedofilia na internet tem sido repudiada e combatida. No entanto, em 1978, o filme foi bem recebido pela crítica e pela sociedade. Em Pretty Baby, a fotografia e a obsessão apontam para uma menina de 12 anos, Violet (Brooke Shields, em seu primeiro filme de maior visibilidade), filha de Nell (Susan Sarandon). Leiloada para perder sua virgindade para um cliente endinheirado, a jovem é ainda retratada nua em poses provocantes: no banho, no sofá, no jardim com a mãe. Pornografia? Pedofilia? Talvez. Mas, antes de mais nada, arte fotográfica, conduzida com maestria por Louis Malle e seu diretor de fotografia, o consagrado sueco Sven Nykvist.

O filme nos mostra, ainda, que fotografia é também magia. ?Como você fez isso??, indaga a curiosa Violet sobre uma de suas fotografias. ?Mágica. E só precisei de um segundo?, responde Bellocq orgulhosamente. Desde sua invenção e até os dias de hoje, a fantasmagoria das imagens fotográficas ainda suscitam a ancestralidade mágica do ser humano.

As pontes de Madison

(The Bridges of Madison County, dir. Clint Eastwood, EUA, 1995, 135 min.)

No início do filme, os filhos de Francesca Johnson recebem o testamento de sua mãe, recém-falecida. Entre outros documentos de valor guardados num cofre bancário, há um envelope contendo a chave de um baú. Ao abri-lo, eles se deparam com um verdadeiro tesouro: cartas, diários, fotografias e câmeras profissionais Nikon. Lendo os diários, descobrem que, durante quatro dias em 1965, Francesca (interpretada por Meryl Streep) manteve um tórrido romance com Robert Kincaid (Clint Eastwood), fotógrafo da revista National Geographic.

Kincaid é um fotógrafo-viajante, que, como os marinheiros, coleciona histórias e amores nos lugares por onde passa. Quando seu destino o conduziu à fazenda da família Johnson no estado de Iowa, ermo e moralista interior dos EUA, ele sabia que ali algo de diferente estava para acontecer: ?Fotografei minha vida inteira para chegar até você?. Enquanto o marido e os filhos viajavam para a feira agropecuária do estado vizinho de Illinois, os dois viveram uma história de amor intensa, secreta e proibida.

Se uma fotografia captura um fragmento de espaço e um instante do tempo, Francesca também foi capturada por Kincaid. Aquele momento expandido de quatro dias eternizou-se nos seus escritos e nas imagens guardadas no baú. Questionado se o romance não seria apenas mais uma de suas aventuras amorosas fugazes, o fotógrafo responde: ?Esse tipo de certeza só ocorre uma vez na vida? ? da mesma forma que uma fotografia também só acontece uma única vez.

Pecker ? O preço da fama

(Pecker, dir. John Waters, EUA, 1998, 87 min.)

Pecker (interpretado por Edward Furlong) é um jovem da periferia de Baltimore, Maryland, que, com uma velha câmera encontrada no brechó de sua mãe, documenta o cotidiano de seu bairro revelando pessoas e situações inusitadas: a namorada Shelley (Cristina Ricci), gerente de uma lavanderia; o bar gay onde sua irmã trabalha; a família católica e excêntrica; o amigo Matt, cleptomaníaco; os vizinhos e as ruas da cidade. Suas fotos, exibidas no restaurante onde trabalha, acabam chamando a atenção de uma galerista de Nova York e ele se torna uma sensação no mundo da fotografia contemporânea.

John Waters mostra personagens de sua cidade que nos cativam pela simpatia e simplicidade. A prática fotográfica é tratada com reverência e, ao mesmo tempo, ironia. Imagens aparentemente banais são transformadas em obras de arte, admiradas e badaladas pela elite cultural. Na abertura de sua exposição, Pecker é admirado pelos diretores de museus de Nova York, críticos e importantes fotógrafos como Cindy Sherman (interpretada pela própria). A crítica bem-humorada à fotografia se revela em comentários como ?a versão humana de Diane Arbus, mas com um toque de delicadeza?, ?eu te amo mais do que a Kodak? e ?eu odeio fotografia moderna?.

A prostituta e a baleia

(La puta y la ballena, dir. Luis Puenzo, Espanha/Argentina, 2004, 120 min.)

?Se com uma foto se rouba a alma, roubei a sua naquela noite. Sua lembrança continua imóvel, captada nessa foto como um anjo caído?. Assim escreveu o fotógrafo argentino Emilio, do front da guerra civil espanhola, para sua amada Lola, antes de morrer abatido pelas forças franquistas. Roubara-lhe, no entanto, mais do que a alma quando, alguns anos antes, os amantes ? ela, corista catalã de passagem por Buenos Aires; ele, fotógrafo de eventos banais ? resolveram largar tudo e partir para uma aventura na Patagônia.

Setenta anos depois, outra catalã, a escritora Vera, também busca novos rumos para sua vida. Seu editor lhe propõe escrever um texto para um livro de fotografias que ilustraram capas de partituras de tango e cuja autoria ainda permanecia um mistério. Acompanhavam as fotografias algumas cartas e trechos de um diário. Assolada por conflitos pessoais e pela suspeita de um câncer, a escritora mergulha na fantasia enquanto tenta juntar os pedaços de uma tórrida porém trágica história de amor. Essa procura leva-a até a Patagônia, onde baleias colossais mergulham em paisagens monumentais.

Nesse filme denso e sensual, o fotógrafo e a fotografia, mais uma vez, são como heróis que ultrapassam seu tempo, assombrando o futuro com os vestígios do passado. Ali, Vera descobre que, como nos negativos de Emilio, ?tudo é ao contrário, até a lua é ao contrário?. E nos faz relembrar uma das definições de Susan Sontag para a fotografia: ?tomar uma fotografia é como participar da mortalidade de uma pessoa (ou objeto). Precisamente por lapidar e cristalizar determinado instante, toda fotografia testemunha a dissolução inexorável do tempo?.

DOCUMENTÁRIOS

Annie Leibovitz ? a vida através das lentes

(Annie Leibovitz: life through a lens, dir. Barbara Leibovitz, EUA, 2007, 80 min.)

?Sou fotógrafa e este é o meu trabalho?. Assim Annie Leibovitz introduz o filme no qual ela e seu trabalho são os protagonistas. Trata-se de uma obra intimista realizada por sua irmã Barbara, para quem a fotógrafa se abriu e se expôs (lembrando que fotógrafos geralmente não gostam de aparecer à frente das câmeras).

Annie é uma das mais importantes fotógrafas dos últimos 40 anos. Desde o final da década de 1960, ela vem construindo um repertório de imagens icônicas que retratam a vida contemporânea em seus mais variados aspectos: música, dança, arte, moda e política. Algumas de suas imagens memoráveis: John Lennon em posição fetal agarrado a Yoko Ono poucas horas antes de morrer; a nudez grávida de Demi Moore; os retratos e as vidas de todas as grandes estrelas do rock estampadas nas capas e nos ensaios da revista Rolling Stone; os voos do bailarino Mickhail Baryshnikov.

Além de nos conduzir aos bastidores de algumas dessas imagens, o filme também revela o cotidiano da fotógrafa, trabalhando em ensaios de moda, como no set de filmagem de Maria Antonieta. Annie não é somente ?famosa por tirar fotos de gente famosa?. Simpática e carinhosa, ela fala de sua família; do grande amor de sua vida, a escritora Susan Sontag; e brinca com seus três filhos pequenos.

Caçadores da Alma

Série de Sílvio Tendler, Brasil, 2011, 113 min, livre. Episódios: ?Retratos da Vida?; ?Fotógrafo da Natureza?; ?Fotojornalismo: o Risco da Profissão?; ?Fotojornalismo: a Ética e a Caça?.

Nesses quatro episódios da série realizada para a TV Brasil, Tendler nos apresenta alguns dos mais importantes fotógrafos brasileiros atuando de formas diversas nos campos da documentação, do fotojornalismo e da arte. Através de suas imagens, seus comentários e suas ideias, percebemos como que a aparente objetividade da fotografia se revela na subjetividade e no olhar de quem fotografa.

Natureza e cultura, vida e morte, paz e guerra são algumas das dicotomias e anseios que satisfazem ou angustiam esses personagens. Na busca/caça pela melhor imagem/troféu, os fotógrafos/caçadores precisam, muitas vezes, atravessar fronteiras físicas ou espirituais, perigosas ou delicadas entre a ética e a estética, a expressão e a opinião. O resultado desse aparente conflito é sempre surpreendente e fascinante.

Chevolution

(dir. Luis Lopez e Trisha Ziff , México, 2008, 86 min.)

Uma fotografia de Che Guevara realizada em 1960 pelo cubano Alberto Korda tornou-se a imagem mais conhecida e reproduzida de todos os tempos. Como a Mona Lisa na pintura, na fotografia essa, também, virou pôster pendurado nas paredes; camiseta vestindo jovens; grafite nos muros de cidades; até marca de cigarro e estampa de biquíni, citando apenas algumas de suas inúmeras apropriações políticas e, principalmente, comerciais.

Através de depoimentos de fotógrafos, familiares de Korda, dos atores Antonio Banderas e Gael García Bernal , além de cenas de arquivo, o filme constrói a trajetória dessa imagem. Seu clique inicial aconteceu, despretensiosamente, num evento público e sem que Guevara soubesse que estava sendo fotografado. De um detalhe de um fotograma, escondido entre os outros 35 do filme em preto e branco, o fotógrafo vislumbrou uma foto especial. Jamais, imaginara, no entanto, o caminho que ela iria percorrer. É dito no filme que ?um Che morreu, mas nasceram outros Ches?. Che virou, então, pop.

São abordadas aqui inúmeras questões próprias da imagem, entre outras, sua reprodutibilidade técnica, como pensada pelo filósofo alemão Walter Benjamin; a fotografia como ícone; o retrato fotográfico como objeto de devoção; e direitos autorais, uma problemática cada vez mais em evidência.

Fotografias

Fotografías, de Andrés di Tella, Argentina, 2007, 110 min., 16 anos

Ao longo de nossas vidas, todos nós colecionamos fotografias. Hoje, essas coleções são virtuais, gravadas em CDs e DVDs ou arquivadas em nossos computadores, quando, muitas vezes, se perdem. Há até não muito tempo atrás, fotos impressas em papel eram guardadas em álbuns, gavetas e caixas.

Di Tella inicia seu filme dizendo ?Meu pai me entregou uma caixa com fotos?. As imagens guardadas são o ponto de partida para uma investigação sobre a história de sua mãe, Kamala, ?a única indiana na Argentina?.

Nesse primoroso trabalho autobiográfico e de autoconhecimento, acompanhamos o diretor em sua busca por pistas na Argentina e na Índia para preencher as lacunas em sua própria existência familiar. Fotografias e filmes antigos - registros e suportes de memórias - são o fio condutor de uma trama envolvente.

Fragmentos de um diário

Traces of a Diary, de Marco Martins e André Príncipe, Portugal, 2010, 74 min.

?Fotografia é diário? diário é vida? no fim, a fotografia e a vida acabam sempre juntas e sós.? Assim Nobuyoshi Araki, um dos fotógrafos retratados no filme, resumiu sua profissão. O filme também é um diário e, neste caso, um diário de viagem, anotações rabiscadas não com o lápis no caderno, mas com duas câmeras russas Krasnogork3 16mm sobre película.

As imagens, trêmulas e quase precárias, em preto e branco rasgado e granulado, revelam de forma surpreendente os olhares, o pensamento e os trabalhos publicados em livros de seis fotógrafos contemporâneos japoneses. Vemos, assim, desde autorretratos narcisistas da fotógrafa pop Hiromix; fotografias noturnas e soturnas de casais no parque realizadas pelo fotógrafo voyeur Kohei Yushiuki; a paisagens marítimas contemplativas do monge budista Syion Kajii.

Fotógrafo de guerra

(War Photographer, dir. Christian Frei , Suíça, 2001, 96 min.)

John Nachtwey é considerado um dos maiores fotógrafos de guerra da atualidade. Nos últimos 20 anos, ele estava no front dos mais importantes conflitos em várias regiões do planeta e, surpreendentemente, sobreviveu a todos. As guerras por ele documentadas não se restringem apenas aos confrontos bélicos. Seu campo de batalha é também o registro da pobreza, da miséria e da violência. Por suas poderosas imagens, veiculadas em revistas e jornais mundo afora, tornou-se um arauto do pacifismo e da luta contra as injustiças sociais. Tímido, porém destemido e com uma atitude quase zen em relação à vida, ele afirma que é motivado pela força da capacidade da fotografia de evocar um profundo sentido de humanidade e, assim, tornar-se um ?poderoso antídoto contra a guerra?.

Depoimentos impactantes do próprio fotógrafo (?elevador expresso para o inferno?; ?o medo não é importante; é como você lida com ele?) se juntam aos de seus editores, colaboradores e amigos para traçar um perfil quase prototípico de um fotojornalista de guerra. As imagens e som captados pelo cinegrafista Peter Indergand (que estava ali nas mesmas situações de perigo) e pelo próprio Nachtwey com uma microcâmera instalada acima de sua máquina fotográfica, nos conduzem diretamente para dentro da linha de fogo.

Fotos proibidas

(Dirty Pictures, dir. Frank Pierson, EUA, 2000, 104 min.)

Baseado em fatos reais, o filme trata da polêmica criada quando, em 1990, o diretor do Museu de Arte de Cincinatti, Dennis Barrie (interpretado por James Woods), decidiu realizar uma exposição de fotografias de Robert Mapplethorpe. A retrospectiva, uma das inúmeras realizadas em todos os EUA logo após sua morte em 1989, incluía algumas imagens que já haviam sido rejeitadas por outros museus e galerias. Na inauguração, membros do Grande Júri consideraram sete fotografias obscenas e a cidade resolveu processar Barrie. O julgamento teve sérias consequências para sua vida pessoal e profissional.

Mapplethorpe (1946-1989) foi um dos grandes fotógrafos da modernidade. No início dos anos 1970, ele se juntou à poeta e artista Patti Smith e ambos foram morar no Chelsea Hotel, epicentro da contracultura nova-iorquina. No final daquela década, começou a documentar a cena sadomasoquista gay, produzindo fotografias que mostravam um conteúdo impactante e realizado com uma técnica impecável. Em 1988, em entrevista à revista ARTnews, declarou que ?não gostava da palavra ?chocante?. Procuro sempre o inesperado. Procuro coisas que nunca havia visto?. Nos anos 1980, já consagrado, produziu um repertório de imagens que confrontam e, ao mesmo tempo, apontam para padrões estéticos clássicos: composições estilizadas de nus masculinos e femininos; flores delicadas; retratos de artistas e celebridades de seu tempo.

Shoot Yourself

(dir. Ricardo Van Steen e Paula Alzugaray, Brasil, 2011, 69 min., 16 anos)

?Para mim, as câmeras são o mesmo que metralhadoras apontadas para você?. Assim resume a artista iraniana Ghazel seu sentimento em relação ao dispositivo fotográfico. Já a artista performática suíça Pipilotti Rist acha que sua câmera ?é um pote cheio de ouro?. O que elas têm em comum é a riqueza do registro imagético de sua produção artística. Em tradução literal, ?Shoot yourself? pode significar tanto um ato suicida como um ato/autorretrato. Pois, fotografar é também apontar, atirar, tirar.

Nesse instigante vídeo-ensaio, o ato fotográfico se revela numa relação íntima e, por vezes, promíscua e perigosa, com o ato performático de artistas tão diversos como a cubana Tania Bruguera, o norte-americano Gary Hill, a espanhola Esther Ferrer, a brasileira Paula Garcia, o coletivo francês Calvacreation, a alemã Rebecca Horn e o brasileiro Cripta Djan.

CURTAS / FOTOFILMES

Partida (dir. Alberto Bitar, Brasil, 2011, 6 min., Livre)

Coda (dir. Marcos Camargo, Brasil, 2008, 9 min., 14 anos)

La Jetée (dir. Chris Marker, França, 1962, 30 min., 12 anos)

Os curtas escolhidos são fotofilmes, realizados a partir de fotografias. Editadas sequencialmente, resultam em um filme onde a matriz fotográfica, o instantâneo, se desdobra no tempo do cinema sem, no entanto, proporcionar ou almejar a ilusão do movimento contínuo. Os fotofilmes situam-se em uma região fronteiriça entre a fotografia e o cinema, compartilhando características de ambos os suportes.

Em Partida, o fotógrafo Alberto Bitar desconstrói um antigo retrato do álbum de sua família, guardado por décadas pela avó materna. ?O que mais me chamou atenção na foto foi uma espécie de fog que determina o apagamento das pessoas que ficaram para trás do grupo fotografado. É como se o tempo/espaço determinassem a retenção ou perda da memória e, nesse caso, a imagem é a memória?, diz ele.

Para contar a história de três bailarinas, Coda utiliza técnicas de pixelation e light painting. As 13.000 imagens que compõem o filme traduzem a maestria no domínio da técnica e, com sua beleza plástica, nos seduzem para a misteriosa narrativa.

La Jetée é um marco na história do cinema e o único filme de ficção do cineasta francês Chris Marker. O protagonista é um soldado, sobrevivente da terceira guerra mundial, prisioneiro numa Paris devastada, contaminada pela radiação e onde todos ? vencedores e vencidos ? habitam um tenebroso subterrâneo. Ele é obrigado a participar de experimentos científicos que visam o renascimento da civilização através de viagens no tempo. Uma imagem marcante de sua infância no terraço do aeroporto de Orly está gravada em sua memória. Utilizando-se da tensão dessa imagem única, os cientistas conduzem-no ao passado e ao futuro.

Fonte: VEJA RIO