COTIDIANO

O fim do vestibulinho

Com a proibição do processo seletivo para as classes de alfabetização, colégios do Rio recorrem ao sorteio para a admissão de novos alunos

Por: Thaís Meinicke - Atualizado em

Fernando Lemos
(Foto: Redação Veja rio)

Dar ao filho um ensino de qualidade deve ser prioridade de todo pai responsável e que zela pelo futuro de seus herdeiros. Porém, não basta querer. Tem sido uma luta conseguir uma matrícula em um dos colégios da chamada santíssima trindade da educação carioca: São Bento, Santo Inácio e Santo Agostinho, todos eles incluídos no ranking do Enem das dez melhores instituições do Rio. Como, historicamente, a demanda é sempre maior que a oferta de vagas, a solução encontrada por essas escolas era submeter os candidatos a um processo de seleção. Chamado de "vestibulinho", o procedimento se mostrava duro para as crianças e extremamente desgastante para os pais, que ficavam tensos com a perspectiva de reprovação. Agora, os colégios que adotavam o exame de admissão nas classes de alfabetização, formadas por crianças de 5 ou 6 anos, estão tendo de rever o método.

Pressionada pelo Ministério Público, a Secretaria de Educação apertou o cerco às escolas para que cumpram a legislação federal que proíbe a realização de vestibulinhos até o 1º ano do ensino fundamental, equivalente ao CA de pouco tempo atrás. Vale frisar que o procedimento está liberado a partir do 2º ano. "O critério de avaliação sujeita a criança a uma situação de constrangimento, o que pode causar um stress e uma pressão incompatíveis com a idade", argumenta o professor Luiz Fernando Mansur, membro do Conselho Estadual de Educação. "As escolas precisam criar outro tipo de seleção." É o que elas estão fazendo. O Santo Inácio decidiu que realizará dois sorteios: um para o público em geral e outro para filhos de ex-alunos. Quem tem um irmão matriculado ou é filho de funcionário tem lugar garantido. Além de assegurar vaga a quem pertence a esses dois últimos grupos, o São Bento reserva lugar aos filhos de ex-alunos. Já o Santo Agostinho ainda estuda como será de agora em diante.

Selmy Yassuda
(Foto: Redação Veja rio)

Embora os colégios rechacem com veemência a utilização de termos como vestibulinho, teste ou avaliação para se referir ao método de admissão, o fato é que se tratava de uma acirrada disputa infantil, que podia chegar à proporção de quatro candidatos por vaga. "Não era uma prova, mas, sim, uma sessão para observarmos o comportamento das crianças em certas atividades propostas", diz Maria Elisa Pedrosa, supervisora pedagógica do São Bento. No Santo Inácio, por exemplo, a avaliação para a turma da pré-escola II, a série imediatamente anterior ao 1º ano, era realizada em grupos de dez postulantes. Durante cerca de duas horas eram aplicadas atividades relacionadas à compreensão de histórias e ao desembaraço para fazer recortes e colagens. A sessão servia para aferir o nível de concentração e socialização dos pequenos. "Havia brincadeiras, jogos pedagógicos e contação de histórias, sempre sob a observação de dois professores", explica a diretora acadêmica Ana Loureiro.

Além de alterar os procedimentos das escolas, a nova determinação certamente vai abalar toda uma gama de serviços formada em torno dos testes de seleção. Era prática comum os pais recorrerem a aulas particulares, com o objetivo de preparar seus herdeiros para o processo. Esse foi o caso da dentista Flávia Coutinho Arruda. Há dois anos, seu filho, Tiago, contou com o apoio de uma professora especializada antes de fazer o exame para o Santo Inácio. Deu certo. Tanto é que a caçula da família, Julia, 5 anos, já usava do mesmo expediente em busca de uma vaga no colégio. Com o fim do vestibulinho, as aulas particulares perderam o sentido. A mudança foi uma agradável surpresa para a família. "Sentimos um alívio, porque há sempre o medo de nosso filho ser recusado", afirma Flávia. Cabe aos colégios adaptar-se aos novos tempos e à forma de acolher os recém-chegados. "Antes tínhamos um conhecimento maior da criança que entrava. Agora é preciso acompanhar de perto cada aluno e identificar os problemas", afirma Maria Elisa, do São Bento. Nada que dê motivo para sobressaltos. "Mesmo entrando por meio de sorteio, crianças nessa idade têm muitas potencialidades a desenvolver e plenas condições de se adaptar a qualquer ambiente", avalia Andrea Krug, professora do Programa de Educação do Departamento de Didática da Unirio. Como se vê, virou uma democrática loteria. Resta aos pais apostar na sorte para garantir o ingresso dos pequenos nos colégios em que gostariam de vê-los estudando.

Fonte: VEJA RIO