história

Cem anos na praça

Inaugurada em 1911, a Saens Peña testemunhou a transformação radical de um dos bairros mais antigos do Rio de Janeiro

Por: Fernanda Arduini - Atualizado em

Divulgação
(Foto: Redação Veja rio)

Um pedaço emblemático da Tijuca completou recentemente 100 anos. Entroncamento natural das principais vias do bairro, lugar de farto comércio e, como se diz por lá, ?perto de tudo?, a Praça Saens Peña foi aberta ao público em 30 de abril de 1911, um domingo, com pompa, circunstância e banda no coreto. Desde então, conheceu o apogeu, a decadência e, nos últimos tempos, a recuperação. Um dos seus pontos mais conhecidos, a Casa Granado foi substituída por uma farmácia comum no bonito prédio na esquina da Rua Conde de Bonfim. Também se perdeu no passado o glamour do Cine Metro, transformado em loja de roupa, e do Olinda, com sua sala de 3?500 poltronas, considerada a maior da América Latina, demolida na década de 70. Maltratada pelas obras do metrô durante quase duas décadas, a praça ganhou grades para evitar que mendigos fizessem de seus bancos morada permanente. Mas nada disso é motivo de lamúrias entre os tijucanos. Simpáticos aposentados mantêm o carteado à sombra dos quiosques, a poucos metros de uma cabine da Polícia Militar. As manhãs são preenchidas com ginástica oriental. A feira de artesanato agita o entorno nos fins de semana e um novo choque de ordem chegou, em março último, para reprimir a atuação ilegal dos camelôs. Reflexo do crescimento, as mudanças na Praça Saens Peña são encaradas com naturalidade pela maioria dos moradores. ?É parte da dinâmica de uma grande cidade, desde que o crescimento seja feito com o mínimo de planejamento?, diz o tijucano Marcos Amorim, professor de história da rede estadual.

 Otávio Magalhães/Ag. O Globo
(Foto: Redação Veja rio)

Com o mesmo território dos tempos dos índios e dos jesuítas, pouco mais de 1?000 hectares, o bairro tem fronteiras bem mais flexíveis quando se levam em conta os critérios de moradores eletivos ou da seção de classificados dos jornais. Quarteirões limítrofes do Rio Comprido agora são Tijuca ? e não se discute. Algumas ruas e prédios do Andaraí também passaram para o lado do vizinho, mais famoso e valorizado, para efeito de avaliação imobiliária. E áreas como Aldeia Campista, cenário de peças do dramaturgo Nelson Rodrigues, simplesmente desapareceram do mapa oficial. Tudo virou uma coisa só com a demanda por moradia e pontos comerciais aquecida como nunca.

Rubens Seixas/ag. o globo
(Foto: Redação Veja rio)
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(Foto: Redação Veja rio)

Há quem queira ser Tijuca pela tradição que ela carrega. Outros fazem sua escolha por causa da localização (está colada no centro da cidade). E hoje muita gente opta por morar na região em face da maior sensação de segurança, resultado da ação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), implantadas nas suas maiores favelas. Mas dificilmente alguém gostaria de assumir-se tijucano baseado apenas no que significa o nome do lugar. A palavra, de origem indígena, quer dizer água podre. Ela surgiu para designar uma área situada a 20 quilômetros do núcleo atual, os alagadiços que ficam na Barra. No século XVIII, a denominação foi adotada no terreno onde hoje se estrutura o centro pulsante do bairro. Cravou-se que o ano oficial de fundação é 1759, quando os padres da Companhia de Jesus foram expulsos das terras, por determinação da coroa portuguesa.

Muito café seria plantado por ali, nas terras férteis e de clima ameno. Engenhos de açúcar ergueram-se em toda a região. Definida como ?rural? até o século XIX, já teve fama como lugar de veraneio, principalmente nas encostas do parque florestal. Rugendas pintou suas paisagens aprazíveis nos anos 1870. Foi em meio a suas vistas e chácaras que Machado de Assis ambientou a lua de mel de Capitu e Bentinho em Dom Casmurro e o retiro do personagem principal de Memórias Póstumas de Brás Cubas após a morte da mãe. Pioneira, recebeu os primeiros bondes do país ? ainda puxados por burros ?, chegou a ser chamada de ?segunda Cinelândia? no fim da primeira metade do século XX e foi berço de um punhado de celebridades que nasceram dentro de seus limites (veja o quadro abaixo).

Tomás Rangel
(Foto: Redação Veja rio)

Nem tudo foram glórias. Com o progresso, vieram o inchaço, o caos no trânsito e, a partir dos anos 60, um processo acelerado de favelização e a violência urbana. Ao completar 252 anos de idade (o dia oficial do aniversário é 21 de julho), a Tijuca pode se orgulhar de seu passado, repensar o presente e ficar de olho no futuro. Uma nova estação do metrô está sendo construída na Rua Uruguai, com previsão de ficar pronta em 2014. Assim, serão quatro paradas, número que nenhuma outra região administrativa pode ostentar (Copacabana tem três). Além das obras, alguns fenômenos vêm sendo observados, como o deslocamento do agito jovem para a Praça Varnhagen, que abriga um polo gastronômico de sucesso. Até no quesito samba o bairro tem ganhado novo impulso. Prova disso foi a vitória, no ano passado, e o vice-campeonato, em 2011, de sua escola mais tradicional, a Unidos da Tijuca (a agremiação não vencia desde 1936). Com suas inovações, vem sacudindo as rígidas estruturas do desfile no Sambódromo. A aposentada Cristina Chalhoub, 86 anos, acompanhou todas as transformações. Ela deixou a Zona Sul ainda criança e foi morar com os pais perto da Praça Saens Peña ? onde brincou com os filhos e os netos. ?Sou do tempo dos bondes, de uma Tijuca mais romântica. Meu primeiro bisneto acaba de nascer, e tomara que ele encontre um bairro renovado e melhor?, diz.

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Fonte: VEJA RIO