COTIDIANO

A resposta do xerife

O recém-criado núcleo de inteligência das UPPs é a principal reação da Secretaria de Segurança ante os recentes episódios de violência ocorridos nas áreas pacificadas

Por: Caio Barretto Briso - Atualizado em

foto Fernando Lemos
(Foto: Redação Veja rio)

Acostumado nos últimos tempos a receber boas-novas referentes ao setor de segurança, o carioca ficou ressabiado com o noticiário recente. Uma série de fatos negativos vem acontecendo em regiões contempladas com Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). No ano em que completa cinco anos de existência, com 31 áreas recuperadas e um efetivo de 8?000 policiais, o programa de retomada de territórios atravessa uma turbulência. No dia 8, uma operação resultou na captura de traficantes e policiais que atuavam nas proximidades do Morro da Providência. Embora não envolvesse diretamente ninguém lotado na UPP local, o episódio acabou por respingar no projeto que é o principal pilar do governo estadual. Não foi algo isolado. Há poucas semanas, os moradores do Leme ouviram tiros em sequência, que teriam sido disparados por bandidos com o objetivo de marcar presença nos morros do bairro, em tese livres do jugo dos traficantes desde 2009. Pouco depois do Carnaval, o motivo de preocupação foi a Mangueira, que teve seu comércio fechado numa demonstração de força dos criminosos. O caso mais grave, entretanto, se deu no Complexo do Alemão, onde dois moradores foram executados a mando dos marginais, como revelou reportagem de VEJA na semana passada. Numa reação ao reposicionamento do crime organizado, o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, criou o núcleo de inteligência para atuar nas áreas pacificadas. "É impossível reverter quatro décadas de domínio do tráfico da noite para o dia", diz ele. "Mas os avanços que tivemos são irreversíveis e não podemos parar."

Percalços como os de agora são previsíveis dentro de um programa que começou de modo emergencial e que vive em constante aperfeiçoamento. No decorrer das ocupações, sempre surgem lições a ser assimiladas. Uma delas foi a necessidade de fazer uma radiografia do funcionamento das UPPs, a fim de diagnosticar os problemas e poder corrigir o rumo. Essa missão cabe agora aos 130 PMs que acabam de receber treinamento específico para formar centrais de inteligência nas UPPs. O trabalho de campo já teve início. Em poucos dias, eles constataram deficiências na supervisão da atuação policial e casos de indisciplina, como soldados dormindo durante o plantão. Por enquanto, cada equipe é chefiada pelo próprio comandante da unidade. A partir do próximo mês, no entanto, entram em ação os comandos regionalizados, em que favelas de uma mesma região terão um major responsável por centralizar as informações. "Vamos conhecer a fundo as características de cada lugar. Com a localização das bocas de fumo, o efetivo de cada unidade pode ser mais bem distribuído", afirma Beltrame.

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(Foto: Veja Rio)

A pacificação das favelas cariocas se vê diante de desafios que florescem à medida que o projeto se expande. Quanto mais cantões favorecidos, maior sua complexidade e a possibilidade de aparecer um revés. Parece óbvio que é mais fácil implantar o programa em um morro como o Dona Marta, que possui 6?000 habitantes e não à toa foi a primeira favela agraciada com uma UPP, do que no Complexo do Alemão, com seus mais de 100?000 moradores espraiados por catorze comunidades. No total, hoje já são 540 000 as pessoas beneficiadas diretamente (veja o quadro na pág. 24) pelo projeto. Para efeito de comparação, apenas quatro municípios do Rio de Janeiro, incluindo a capital, têm uma população maior do que essa.

Não surpreende que as UPPs enfrentem obstáculos inerentes a uma iniciativa pioneira, até agora com um folgado superávit de acertos. Na Colômbia, por exemplo, houve um banho de sangue na retomada dos territórios dominados pelos narcotraficantes. Aqui foi diferente, com a opção de anunciar sempre as invasões, para que os criminosos fugissem e se evitasse o conflito bélico. Sobreveio, porém, um efeito colateral: muitos deles continuaram atuando na encolha, sem ostentar armas. Trata-se de uma arapuca que precisa ser desativada. Se o narcotráfico permanecer como um negócio rentável, haverá sempre quem o financie e se preste a exercê-lo. É preciso um combate sem tréguas até que o mal seja extirpado completamente. Não se pode admitir uma relação promíscua como as que havia em certos postos de policiamento nas favelas, em que o PM fechava os olhos para os bandidos, fosse por instinto de sobrevivência, fosse por corrupção. "Passou da hora de isso acontecer, estamos atrasados. Qualquer movimentação que ponha em risco o projeto tem de ser combatida com rigor", diz o especialista em segurança Paulo Storani, ex-capitão do Bope.

Tal como o Plano Real foi um marco na economia brasileira, a política de pacificação é um divisor na história da nossa cidade. Depois de sua implantação, houve uma queda acentuada nos índices de criminalidade na capital. Entretanto, os episódios recentes de violência acionam o alerta de que a presença da polícia é apenas o primeiro passo para uma metamorfose ampla e sustentável, ainda em um horizonte distante. É inegável que a contrapartida social do estado e o engajamento da iniciativa privada estão aquém do recomendável. A UPP Social, criada para centralizar as ações da prefeitura nas áreas reconquistadas, parece longe de atingir seu propósito. Existe nos bastidores uma disputa política para ver se o projeto continuará sob os cuidados do Instituto Pereira Passos ou se ficará sob os cuidados da nova pasta municipal, a Secretaria de Desenvolvimento Social, cujo titular é o vice-prefeito Adilson Pires. De sua parte, a Secretaria de Segurança promete seguir em frente. "Estamos trabalhando para aprimorar o projeto", sustenta Beltrame. "O importante é não desistir."

Fonte: VEJA RIO