SUSTENTABILIDADE

O lixo que você pode consumir

Embalagens de biscoitos, sucos, chocolates e material publicitário se transformam em produtos criativos, de bolsas, carteiras e nécessaires a relógios, cadernos e porta-retratos

Por: Daniela Pessoa - Atualizado em

Não faltam ideias bacanas para quem quer transformar o planeta em um lugar melhor. Reciclagem é uma delas, todo mundo conhece, mas já ouviu falar em upcycling? Trata-se da coleta e reutilização direta de material de difícil decomposição, como embalagens de biscoitos e banners publicitários, sem a necessidade de qualquer processo químico. É o que fazem as artesãs da Oficina Toque de Mão, projeto mantido pelo Instituto Marquês de Salamanca (IMDS) em Santa Teresa. "São sete mulheres das comunidades de baixa renda do bairro transformando materiais econômicos e de alta durabilidade que iriam para o lixo em bolsas, carteiras, nécessaires, pastas de laptop e outros acessórios sustentáveis", conta Mônica Ribeiro, psicóloga e coordenadora da oficina há seis anos.

Os banners publicitários chegam em rolos enormes, que vão sendo recortados e ganhando vida. Nenhum pedacinho sequer das peças publicitárias é descartado. As partes mais feias, desbotadas ou amassadas, são usadas para revestimento, enquanto o material bom se transforma em estampas supercriativas. Na oficina trabalha-se também com reaproveitamento de papelão e retalhos de tecido. "Apostamos muito em estampas que têm a ver com o Rio, elas fazem muito sucesso entre os estrangeiros. Mas o grosso mesmo do nosso trabalho são os brindes que produzimos para empresas", conta a artesã Vera Lúcia Amorim, 48 anos.

Para Mônica, trata-se de um trabalho recompensador que vai muito além da sustentabilidade. Segundo ela, ver a autoestima das funcionárias resgatada é muito gratificante. "Hoje, me sinto uma artista", revela Alcidéia Estevão, artesã. Vilma Souza, 53 anos, comemora a aquisição da carteira de motorista. E assim, costurando a própria história de vida por meio da uma arte que transforma lixo em moda, o trabalho das artesãs na Oficina Toque de Mão chamou a atenção de negócios que aderiram à iniciativa e passaram a revender seus produtos. É o caso da Mutações Consumo Sustentável, loja de design sustentável no Humaitá. "São produtos exclusivos, de qualidade, e cada um traz uma história. É preciso valorizar isso", destaca Mariana Sivieri Arruda, sócia da Mutações ao lado da amiga Julia Merquior.

Outra iniciativa interessante de upcycling é a da TerraCycle. Há um ano atuando no Brasil, a companhia estabeleceu programas de coleta tanto independentes quanto patrocinadas por empresas como Kraft Foods, Nestlé e PepsiCo. Ao invés de virar lixo em aterros sanitários, embalagens de chocolate, salgadinhos e sucos, por exemplo, são recolhidas e usadas na confecção de produtos originais como relógios de parede, porta-retratos, bolsas e até mesmo bola de futebol. Desde 2010, já foram coletadas e transformadas mais de 18.700.200 embalagens e vendidos 350 000 itens. Eles são criados por cooperativas de costureiras, ONGs e empresas que praticam o comércio justo. Podem ser encontrados no e-commerce do WalMart, Gift Express e Greenvana.

Para fazer parte do projeto, basta se cadastrar no site da TerraCycle Brasil e formar uma brigada de coleta de qualquer tipo de embalagem, o chamado "lixo patrocinado". Qualquer pessoa pode participar, convidando colegas de trabalho, escola, faculdade, família e amigos a fazerem parte de seu time. ONGs, empresas e instituições também são bem-vindas. "Pagamos dois centavos por embalagem recolhida, além de cobrir todos os custos de envio desse material via Correios. O valor total arrecadado é repassado para uma organização sem fins lucrativos escolhida pelo próprio time no momento do cadastro", explica Guilherme Brammer, presidente da organização no Brasil.

Hoje, são mais de 1900 times inscritos no site da TerraCycle, com aproximadamente 142 403 pessoas de todo o Brasil. Até agora, foi arrecadado um total de quase 30 000 reais para doação a diferentes instituições. O Rio de Janeiro conta com 120 brigadas com mais de 5.245 pessoas e uma contribuição que ultrapassa 18.720 embalagens. "Estamos conseguindo mostrar que existe uma opção de consumo mais consciente e as pessoas estão se interessando por isso. A própria Política Nacional de Resíduos Sólidos força as empresas a apresentarem, perante a sociedade, soluções em relação ao lixo que produzem. Por isso, temos uma expectativa de crescimento muito grande até 2013", explica Brammer.

Fonte: VEJA RIO