COTIDIANO

Os irredutíveis da Urca

Para defender o bairro, associação compra briga com bares, forasteiros e moradores

Por: Carla Knoplech - Atualizado em

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(Foto: Redação Veja rio)

Inaugurado há pouco mais de seis meses, o Mami Lucie Pizzaria Bistrot é um estabelecimento modesto na Avenida Portugal, na Urca. Apesar do nome pomposo, sua maior atração são as garrafas de cerveja servidas em baldes de gelo à freguesia. Acomodados em torno da mureta do outro lado da rua, os clientes se deliciam entre goles refrescantes e a deslumbrante vista da Enseada de Botafogo. Mesmo com uma proposta etílico-gastronômica simplória, o bar atraiu a atenção de um severo grupo de moradores. Atentos, eles monitoram tudo o que acontece no bairro, onde cerca de 7 000 habitantes ocupam pouco mais de 2,4 quilômetros quadrados ao pé do Pão de Açúcar. Os proprietários do estabelecimento já foram avisados de que o grande charme de seu negócio é ilegal, pois põe em risco um bem tombado. ?Eles ainda insistem no erro e vamos ter de tomar medidas mais drásticas, pois usam o muro centenário como se fosse mesa?, ameaça Celinéia Ferreira, a ativíssima presidente da Associação dos Moradores da Urca (Amour).

O boteco-pizzaria com frente para o mar é apenas um dos alvos da entidade, que tem cerca de 100 membros e reconhecido poder de fogo. Entre outras contendas, a Amour encrencou com o tradicional Bar Urca, a rede de botequins Belmonte e uma entidade cultural internacional, o Istituto Europeo di Design (IED), que pretendia se instalar no antigo prédio do cassino e teve os planos frustrados, pelo menos até agora, por um processo jurídico. Por trás de todas as disputas, muitas delas invocadas em nome do mau uso de construções históricas, está na verdade uma cruzada contra a balbúrdia provocada por forasteiros nesse aprazível recanto carioca. A lista de transtornos é extensa: estacionamento irregular, engarrafamentos, barulho desmedido, lixo acumulado junto aos bares e comportamento inadequado de jovens alcoolizados. ?Nós não somos radicais nem ecochatos. Só não queremos que a qualidade de vida do bairro, uma das melhores da cidade, seja prejudicada?, afirma o arquiteto Hugo Hamann, um dos diretores da associação.

O histórico de polêmicas da Amour costuma repercutir Praia Vermelha afora e reforça a fama da entidade como implacável e conservadora. De certa forma, a imagem combina com o entorno da área, que abriga quatro instalações militares. Em uma de suas mobilizações mais notórias, também considerada das mais antipáticas, o grupo rejeitou a instalação de abrigos nos pontos de ônibus na rua principal do bairro, o que torna a espera para quem usa as duas linhas que passam por ali um tormento nos dias de chuva. ?Não queremos o abrigo convencional. Temos o nosso próprio projeto, que combina com o bairro, mas que a prefeitura precisa aprovar?, justifica a vice-presidente da associação, Ana Lúcia Milhomens. Apesar do nome idêntico à palavra ?amor? em francês, os militantes do grupo gostam mesmo é de uma boa briga.

Fonte: VEJA RIO