Trabalho

Projetos gratuitos de capacitação formam profissionais para gastronomia

Iniciativas filantrópicas oferecem opções de cursos que vão de barman e garçom a auxiliar de cozinha 

Por: Carolina Barbosa - Atualizado em

Adriana Pinto, Masan
Adriana Pinto, diretora da Masan: programas como o Quebrando Barreiras são a primeira chance profissional de muitos alunos (Foto: Felipe Fittipaldi)

Discursos, aquela musiquinha na entrega dos diplomas, festa. A formatura marcada para o dia 30, em um salão ao lado da Central do Brasil, tem tudo para emocionar os parentes presentes, como é de esperar, mas também deve ser comemorada por toda a sociedade. Estrelas da cerimônia, os 44 graduandos são, na maioria, moradores de favelas assistidas por Unidades de Polícia Pacificadora. Eles venceram 96 horas de estudos, ao longo de três meses, no curso de auxiliar de cozinha. Engrossam uma multidão menos favorecida que, apoiada pela atuação conjunta de entidades públicas e privadas, busca aprimoramento profissional. As aulas cujo término será festejado no fim de junho integram o programa Quebrando Barreiras, do Instituto Masan — braço da Masan, empresa de serviços especializados em áreas como limpeza, manutenção e catering. Há outras iniciativas do gênero nos setores de gastronomia e hotelaria, a exemplo da escola da rede carioca Windsor, de aulas no Senac e do projeto Gastromotiva (veja o quadro abaixo). Ganham os alunos, ganha a cidade.

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Dentro da necessária cartilha do processo de pacificação e desenvolvimento do Rio, conquistas na segurança pública devem ser acompanhadas de projetos de investimento social e resgate da cidadania. Esse segundo passo vem congregando instituições diversas em um círculo virtuoso. Tome-se o exemplo do Quebrando Barreiras. O auditório reservado para a celebração da formatura foi cedido pelo Metrô Rio, que apoia a iniciativa ao lado das ONGs Entre Amigas e  RioSolidario, do governo do estado e da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). “Para muitos dos participantes, esse é o primeiro certificado profissionalizante e uma grande oportunidade de mudar de vida”, diz Adriana Pinto, diretora executiva da Masan.

Na rede Windsor, com doze unidades na cidade e outras três a caminho até o fim do ano, foi a proverbial dificuldade carioca com mão de obra na área de bares, restaurantes e hotéis que inspirou a criação de uma escola própria. Em dois andares do Centro Municipal de Cidadania Rinaldo de Lamare, espaço da prefeitura em São Conrado, diante da Rocinha, o grupo oferece cinco cursos, com ciclos de 120 vagas renovados a cada três meses, para funções como barman, garçom e camareira. Dos 1 000 participantes inscritos ao longo de quatro anos, 78% foram imediatamente empregados no mercado carioca. “Para evitar desistência, compactamos o período letivo, oferecemos vale-transporte, material didático, lanche e uniforme completo”, explica a gerente de recursos humanos do Windsor Barra, Tatiana Milito, uma das idealizadoras do projeto de responsabilidade social da empresa. 

Jucilene Castro
Jucilene Castro: da carreta-escola do Senac para o emprego no restaurante O Navegador (Foto: Felipe Fittipaldi)

Jucilene Castro, 27 anos, é uma das beneficiadas por iniciativas solidárias como essa. Moradora do Caju e formada em turismo, ela estava desempregada quando, sem maiores pretensões, inscreveu-se no módulo de auxiliar de cozinha ministrado em uma carreta-escola do Senac. Dentro do veículo estacionado na vizinhança, concluiu as aulas — pelas quais, se tivesse de pagar, desembolsaria 5 000 reais — em dezembro do ano passado. Desde fevereiro, trabalha como ajudante de confeitaria no restaurante O Navegador, no Centro. “Agarrei uma oportunidade e descobri uma vocação”, resume a história, com rara felicidade. Neusa Barbosa, 44 anos, é outro caso de sucesso, na gastronomia e no empreendedorismo. Há dois anos, depois de passar pelo programa Quebrando Barreiras, investiu em panelas, ingredientes e um fogão de quatro bocas os 2 000 reais que tinha economizado. Iniciado ali, o negócio de quentinhas hoje tem esquema industrial: catorze funcionários trabalham na produção de cerca de 400 pratos vendidos por dia, a 10 reais cada um, no Centro, na Zona Norte e na Zona Sul. Moradora do Pavão-Pavãozinho, a empresária acaba de abrir uma lanchonete na favela e planeja inaugurar dois restaurantes de comida por quilo, um deles em Copacabana, ainda neste ano. “O curso abriu um caminho e cresci rápido, mas ainda sou neném nos negócios”, diz. Assim é que se fala, Neusa.

Fonte: VEJA RIO